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O orgulho de Augusta Longbottom

Neville Longbottom é um personagem amado e polêmico em toda a série. Adorável e trapalhão, ele satisfaz perfeitamente a ideia do aluno bobo, que precisa de ajuda para se livrar de trabalhos escolares e não consegue fazer quase nada sozinho. Proponho um questionamento: Neville age mesmo assim?

Na coluna de hoje, trago uma reflexão sobre o papel de Neville na série, e especialmente, sobre a forma como tratamos determinados colegas que podem ser, no final das contas, muito mais do que aquilo que aparentam externamente. Não deixe de ler e dar um chega para lá nos preconceitos!

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Por Luiz Guilherme Boneto

Hogwarts pode ser considerada uma escola diferente das outras. Suas instalações encontram-se num castelo milenar, numa área remota do interior da Escócia; creio que poucos colégios no mundo possam gabar-se disso. Além disso, Hogwarts é uma escola que não se debruça sobre disciplinas abstratas, ao contrário: é específica em teorias e práticas que auxiliarão diretamente a vida do estudante. Comparada aos colégios trouxas espalhados ao redor do mundo, a escola de Harry Potter é, de fato, extraordinária.

Há, contudo, um fator em Hogwarts que pode ser igualmente observado em suas co-irmãs trouxas, estejam elas situadas no Brasil, na Grã-Bretanha ou no ensolarado arquipélago das Bahamas: o colégio é povoado por jovens completando um duro processo de amadurecimento, pelo qual todos nós passamos, alguns de forma mais suave, outros, mais dolorosa. São pessoas diferentes entre si, é claro, e note: os tipos do mundo mágico são os mesmos do mundo trouxa. Há em Hogwarts os alunos muito estudiosos, os muito tapados, os tipo-vilões, as mocinhas fofoqueiras, os alunos de inteligência mediana, enfim. J.K. Rowling fez questão de povoar sua escola de magia com todos os estereótipos mais comuns dos colégios trouxas. E logo eu, que tenho completa ojeriza aos estereótipos, quero tratar hoje aqui de um dos mais cruéis.

Neville Longbottom é um estudante à parte ao longo da história. Seu talento resume-se às aulas de Herbologia, nas quais recebe frequentes elogios da Profª Sprout. Nas outras disciplinas, ele precisa da constante ajuda dos colegas, especialmente em Poções, ministrada, como bem sabemos, pelo Prof. Snape, que cá entre nós, sente um sádico prazer em maltratar o garoto. Neville é constantemente retratado como alguém esquecido de seus afazeres, até mesmo incompetente para quem o vê de fora. E a questão é justamente esta: ver de fora. Não é exatamente isso o que fazemos em nossas escolas trouxas, com colegas que julgamos menos capacitados que nós? Raramente há, por parte de quem julga, algum laço de amizade com o colega estereotipado. Um conhecimento mais aprofundado sobre a própria pessoa esclareceria suas qualidades e suas inteligências específicas, o que derrubaria o pré-conceito. Lamentavelmente, nem sempre o fazemos.

Os laços de Harry com Neville são de afeição, porém o grau de amizade entre os dois não se compara ao que o garoto possui com Rony e Hermione. Além disso, a narrativa empregada por J.K. Rowling foca muito no protagonista; Neville aparece quando cruza com Harry, e só aí. Isso contribui para a formação da imagem do garoto, de trapalhão, esquecido, até mesmo de incompetente, no imaginário dos fãs mais ligados à causa de Draco Malfoy. Conforme a história evolui, porém, cai-se o mito de que a primeira impressão é a que fica. Neville demonstra fibra moral e coragem excepcional nas mais importantes ocasiões. Tais qualidades já estavam lá, para quem quisesse observar, como em A Pedra Filosofal, quando o garoto se dispõe a brigar com Harry, Rony e Hermione para impedi-los de deixar a Torre da Grifinória à noite e, possivelmente, prejudicar ainda mais a Casa no campeonato anual. À medida que os livros passam, fica clara a importância de Neville Longbottom com a profecia da Profª Trelawney e, especialmente, com a Batalha de Hogwarts.

Em determinado momento na série, Hermione acusa uma predileção do Chapéu Seletor em colocá-la na Corvinal. Com Neville, isso também aconteceu, contudo, sua Casa poderia ter sido a Lufa-Lufa. Em minha acanhada opinião, as características que diferem a Lufa-Lufa das outras Casas de Hogwarts são perfeitamente dignas, ao contrário da ideia tacanha de que, por lá, só haveria “a sobra”, ou os estudantes que não se aplicariam em nenhuma das outras Casas, com qualidades mais definidas. Lufanos são classificados como meigos, leais, astutos, de grande robustez moral. Neville, contudo, foi da Grifinória, possivelmente por um arroubo de clarividência do Chapéu Seletor, que talvez tenha vislumbrado a bravura sob a qual o garoto agiria em momentos cruciais. Ter um pé na Lufa-Lufa e outro na Grifinória tornam Neville Longbottom um personagem importantíssimo à causa de Harry: ele detinha, num só cérebro, excepcionais lealdade e coragem, qualidades que, em determinados momentos, deixam a inteligência acadêmica no chinelo.

Ao final da saga e a despeito de toda a descrença de seus colegas mais cruéis, Neville se torna o novo mestre de Herbologia em Hogwarts, o Prof. Longbottom. Torna-se palpável o fato de que conceitos formados sem um critério bem definido são meramente pré-conceitos, ou preconceitos, com toda a carga negativa que essa palavra possui. Apesar de muitos de nós terem rido de um colega parecido com Neville na escola, outros se identificam com as várias dificuldades encontradas pelo personagem. Para esses, resta mantê-lo como um espelho: o futuro pode reservar tanto sucesso como de fato reservou para Neville Longbottom.

Como ainda não recebi minha carta de Hogwarts, sigo esperando um convite para dar aulas ao lado do Prof. Longbottom.