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A música perfeita para Harry Potter

Ah, a música! Nada como ela para acalentar um coração entristecido, para contribuir num momento de extrema felicidade, ou mesmo para simplesmente nos lembrar de que, num mundo tão confuso e difícil de lidar, há sempre uma nesga de esperança na playlist mais próxima.

Nesse embalo, nossa colunista Gabriela Lutfi explora a música perfeita para Harry Potter, um mero detalhe do penúltimo filme, mas que rendeu uma longa e interessantíssima reflexão. Leia o ensaio preparado pela Gabriela e cante com a nossa colunista!

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Por Gabriela Lutfi

Música sempre foi uma grande parte da minha vida, principalmente quando estou lendo. Eu tenho várias playlists dedicadas a livros específicos, e com Harry Potter não poderia ser diferente.

Durante muitos anos, eu sentia que faltavam nos filmes de Harry Potter o elemento musical. Não me entenda mal, a música de abertura dos filmes é sensacional, mas é uma orquestra, e é difícil você ouvir essa música no cotidiano, a não ser que ela esteja no seu mp3. Eu adoro estar andando na rua e de repente começar a tocar uma música que me leva instantaneamente para um momento do filme, e com a saga de Harry Potter isso era bem difícil de acontecer.

Isso é, até a primeira parte do filme Harry Potter e as Relíquias da Morte.

Quem leu o livro sabe que raramente o filme é fiel. Apesar de achar os filmes de Harry Potter bem decentes com relação aos livros, eles sempre colocavam / ocultavam um elemento que me deixava louca da vida, mas eu devo dizer que, dessa vez, eles acertaram em cheio.
De todos os filmes, a cena que mais me marcou é uma que não existia nos livros, e com razão. É difícil descrever uma cena daquelas e criar a mesma sensação que ela passa nas telas do cinema.

Bem, a cena da qual estou falando é uma que acontece logo após o Rony ir embora, louco de ciúmes, e deixar a Hermione sozinha com o Harry. A heroína do trio está sentada, cabisbaixa, ouvindo rádio e usando a Horcrux como um colar. Daí vem Harry, que a levanta, tira a Horcrux de seu pescoço e começa a dançar, suavemente no início, ao som de um rock melódico.

Pra quem não sabe, a música é de uma banda maravilhosa, mas pouco conhecida, chamada Nick Cave and the Bad Seeds, e a música se chama O’Children. Mas por que justo essa música, e justo essa cena, esse filme, esse momento? Bem, por que não? Vamos analisar um pouco a situação.

Situando inicialmente o filme, estamos no meio de uma guerra no mundo mágico. O rádio ficava ligado a maior parte do tempo falando das mortes e dos desaparecimentos. O trio está andando em círculos tentando achar as outras Horcruxes e meios de destruí-las. O futuro não parece tão bom.

O timbre melódico de Nick Cave, o coro de crianças ao fundo, a letra melódica, tudo aponta para esse momento perfeito. Matt Biffa, supervisor de música do filme, disse que escolheu essa música dentro milhares de outras, como, por exemplo, as trilhas de Radiohead, Oasis e Spirtualized, que são bandas igualmente sensacionais que possuem a mesma linha musical. Biffa usou um argumento incrível para convencer o diretor David Yates a usar a música menos conhecida de Nick Cave: ele disse que todas as outras eram conhecidas demais, e que tirariam um pouco a magia do momento, deixo-o familiar demais com o mundo trouxa.

Na minha opinião, ele acertou em cheio com essa música, ainda mais quando analisamos sua letra: Parece um consenso geral que a música fala de um homem em seu leito de morte conversando com seus filhos, tentando alertá-los a não cometer os mesmos erros. Mas no que isso se relaciona com Harry Potter?

Analisando os termos que são usados na música, a mesma cita “gulag”, que significa “Administração Geral dos Campos de Trabalho Correcional e Colônias”. A gulag era um sistema, que funcionou de 1930 a 1960, de campos de trabalho forçado para criminosos, presos políticos e demais desafortunados na extinta União Soviética. Nesse sistema, chegaram a serem presas mais de 2,5 milhões de pessoas. Pessoalmente, eu gosto de associar a gulag ao Ministério da Magia. Não no começo, claro, mas depois do retorno de Voldemort, quando Pio Thicknesse assumiu o comando, perseguindo bruxos de origem trouxas e todos que associavam com eles.

A música também cita os “cleaners”, que representa os responsáveis pela limpeza étnica. Claramente pode-se associá-los aos Comensais da Morte.

Adicionalmente, em certa parte Cave canta: “We’re all weeping now, weeping because there ain’t nothing we can do to protect you” (“estamos todos chorando agora, chorando porque não há nada que podemos fazer para protegê-los”). Gosto de pensar que essa parte seria associada a todos os aliados do trio, que sabiam que não poderiam fazer muito para protegê-los enquanto eles estavam em sua jornada em busca das Horcruxes.

Por fim, logo no final da música há uma parte que diz: “Hey little train! We’re all jumping on the train that goes to the Kingdom, we’re happy, Ma, we’re having fun and the train ain’t even left the station” (“ei, pequeno trem! Estamos todos indo a bordo no trem que vai para o reino, estamos felizes, mãe, estamos nos divertindo e o trem ainda nem saiu da estação”). Consigo associar esse trecho ao final da guerra, ao final de tudo, quando os estudantes de Hogwarts puderam, mais uma vez, voltar às suas vidas normais, e irem para Hogwarts sem medo.

É difícil descrever toda essa emoção em palavras. É preciso ver. Emma e Dan (como gosto de chamá-los intimamente) fizeram um ótimo trabalho de atuação. É emocionante vê-los dançando, o companheirismo, a tristeza, a esperança, a fluidez com a qual eles se movem. Essa para mim foi a cereja do bolo.

Conheci Nick Cave and the Bad Seeds através de Harry Potter, não nego, e sempre vou associá-lo à minha saga favorita, mas sei que, sem eles, o filme não seria o mesmo. Não seria possível me associar à situação sem essa música. Com ela, é possível trazer um pouco mais perto da realidade a seriedade da situação.

Espero que, bem como para mim, vocês também tenham boas memórias com relação a essa música, e também a tenham achado mais que perfeita para nós.

Citando mais um trecho da música, gostaria de finalizar essa coluna com uma mensagem para os futuros fãs da saga: “We’re older now, the light is dim and you are only just beginning” (“estamos mais velhos agora, a luz está fraca e você está apenas começando”).

Gabriela Lutfi escreveu esta coluna cantando o tema do coral de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban