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Os contos de fada de J.K. Rowling

Os contos de fadas estão presentes na vida de milhões de crianças. Quem nunca ouviu, quando pequeno, falar de histórias repletas de seres mágicos, com princesas, castelos e guerreiros? Tais histórias estão presentes em filmes, em livros e no imaginário popular.

Crianças bruxas e trouxas partilham do mesmo gosto pelos contos de fadas, porém entre eles, as histórias serão obviamente diferentes. Na coluna de hoje, Natallie Alcantara se aprofunda um pouco mais nesse assunto, tratando de Os Contos de Beedle, o Bardo, afinal o mais importante livro de contos do mundo bruxo.

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Por Natallie Alcantara

Com o fim da série Harry Potter, muitos fãs questionaram se J.K Rowling escreveria alguma coisa nova relacionada à vida do menino bruxo. Então a autora lançou o livro Os contos de Beedle, o Bardo e os fãs ficaram muito felizes. Como a própria autora afirma, as histórias de Beedle lembram os contos de fadas trouxas em muitos aspectos, enquanto diferem em outros. Ao escrever um conto de fadas (pura magia) e inseri-lo em uma história repleta de fantasia, a autora nos mostra porque nós ainda precisamos dos contos de fadas.

A ORIGEM DOS CONTOS DE FADAS

Os contos de fadas nem sempre foram escritos. Por séculos sem conta, a arte de contar histórias era feita através da oralidade: as histórias e os ensinamentos contidos nelas foram levados ao público infantil quando os adultos contavam-nos às crianças, geralmente em torno de uma fogueira, descansando do árduo trabalho diário. Foi na Europa da Idade Moderna que a tradição oral deu lugar ao conto de fadas literário.

Os primeiros contos escritos eram voltados para um público adulto, por conter cenas impróprias para crianças. Somente por volta do século XVII, Charles Perrault trouxe histórias com temas mais leves. Mais tarde, os irmãos Luís Jacob Grrimm e Wilhelm Grimm começaram a registrar no papel as histórias contadas pelo povo. Junto a Hans Christian Andersen, eles são considerados os fundadores da literatura infantil mundial.

Geralmente, as histórias narravam experiências em que os heróis superavam obstáculos e derrotavam inimigos através de algum segredo mágico, travavam batalhas e viajavam por lugares e países imaginários, povoados por objetos e criaturas mágicas e estranhas. Podem contar com a presença de fadas ou não, mas os elementos da fantasia estão presentes caracteristicamente. No entanto, os contos de fadas vão muito além disso: eles expressam a conduta do ser humano nos aspectos sociais, políticos, ideológicos de forma popular.

Expressando esses conceitos através de lugares e personagens míticos, as histórias permaneciam vivas no imaginário infantil, o que auxiliava e ensinava o indivíduo, desde pequeno, a lidar com os problemas da vida real. A grande aprovação e aceitação pública dos contos de fadas contribuíram para que passasse a existir um gênero literário especificamente para crianças.

OS CONTOS DE BEEDLE, O BARDO

Os contos de Beedle, o bardo é um livro clássico no mundo bruxo. O livro apresenta cinco pequenos contos, com algumas notas pessoais do finado diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore. As histórias são: “O mago e o caldeirão saltitante”, “A fonte da sorte”, “O coração peludo do mago”, “Babbyty, a coelha, e seu toco gargalhante” e “O conto dos três irmãos”.

“O mago e o caldeirão saltitante” é a história de um velho bruxo que ajudava com sua magia todos os que necessitavam. Ao morrer, seu único filho herda seus pertences, mas diferente do pai, ele se recusa a auxiliar as pessoas que vem bater em sua porta. Mas quando o velho caldeirão que ele descobriu nos pertences do pai começa a se transformar nas lamentações e problemas de todos aqueles aos quais ele recusou ajuda, o bruxo renuncia aos seus modos egoístas e passa a auxiliar todos que o procuram.

“A fonte da sorte” narra como três bruxas e um cavaleiro desafortunados conseguem chegar a um jardim encantado, onde se encontra a Fonte da Sorte, de cuja água aquele que beber será favorecido eternamente pela fortuna. Asha tem uma doença incurável; Altheda foi roubada e humilhada por um feiticeiro; Amata teve o coração partido por alguém que amava. Quando a passagem para o jardim se abre, as três bruxas resolvem entrar juntas, mas Amata sem querer acaba levando o cavaleiro junto. Durante o percurso, são lhes apresentados três desafios, os quais elas vencem e acabam, por si mesmas, alcançando seus objetivos. Elas cedem o direito à fonte ao cavaleiro, que aceita. Assim, todos realizam seus próprios desejos, sem saber que a fonte não possui magia alguma.

“O coração peludo do mago” conta a história de um jovem mago, rico e habilidoso, porém egoísta e que abomina a idéia de se apaixonar. Ele acaba recorrendo a magia das trevas para garantir que não se torne um bobo apaixonado como seus amigos. Até o dia em que escuta dois de seus serviçais se referindo a ele com pena e desdém, pelo fato de mesmo sendo rico, não ter uma mulher ao seu lado. Ele procura e encontra uma bruxa que satisfaça suas exigências. Para honrá-la, oferece um grande jantar em sua residência. A bruxa quer que ele demonstre que tem um coração. Ele a leva a masmorra onde trancou seu coração, que agora está negro e peludo. Ao colocá-lo de volta no peito a pedido da donzela, ele se torna perverso e selvagem, pois seu coração, há muito longe do contato humano, não resiste a doçura da jovem. Os convidados os procuram e ao chegarem na masmorra, encontram a jovem morta, com o peito aberto e o bruxo ao seu lado, com o coração dela no mão. Ele tenta trocar o próprio coração negro pela dela, mas quando não consegue, jura que não será manipulado pelo próprio coração e se mata.

“Babbyty, a coelha, e seu toco gargalhante” narra a história de um tolo rei trouxa que resolve manter toda a magia em sua posse. Para isso, ele precisa eliminar todos os bruxos e bruxas e aprender magia. Mas os bruxos se escondem, com medo de sua caça implacável. Um impostor percebe que aquela seria uma excelente maneira de ganhar dinheiro. Ele engana o rei pedindo objetos precisos ditos para os encantamentos, mas os esconde. A velha lavadeira do rei, uma bruxa de verdade, o descobre. No dia marcado para que o rei demonstre para a corte como ele era versado em magia, a bruxa, ameaçada pelo impostor (que a descobriu após ela humilhar o rei e colocar a vida do impostor em perigo), realiza a verdadeira magia enquanto o rei pensa que ele mesmo está fazendo. Até o momento em que o rei tenta ressuscitar um dos seus cães caçadores, pois a magia não pode ressuscitar os mortos. Enganado e humilhado, o rei parte a caça da bruxa, mas ela é mais esperta e consegue escapar, ainda fazendo com que o rei pare a perseguição as bruxas e a homenageie com uma estátua.

“O conto dos três irmãos” conta a história de três irmãos que usam seus conhecimentos mágicos para conjurar uma ponte e atravessar um rio onde muitos já haviam morrido. Quando eles estão na metade da ponte, a Morte os pára e os parabeniza pela esperteza em escapar dela. Ela oferece a cada um o presente que desejassem. O irmão mais velho pede uma varinha invencível, o do meio pede uma maneira de ressuscitar os mortos e o mais novo pede a capa de invisibilidade da Morte para que ela não o seguisse. Surpresos com o acontecido, após um tempo, seguem caminhos separados. O mais velho combate e mata um antigo adversário, se gabando de possuir uma varinha invencível. Na mesma noite é morto e tem a varinha roubada. O segundo irmão consegue trazer dos mortos seu antigo amor, mas ao ver que ela continuava inatingível, se mata para se reunir a ela. A Morte procura por anos pelo terceiro irmão, mas só o encontra quando ele, por vontade própria, remove a capa da invisibilidade e entrega ao seu filho, abraçando a morte e partindo desse mundo.

O VERDADEIRO VALOR DOS CONTOS DE FADAS

Pessoas de diferentes idades conhecem e encantam-se com os contos de fadas há muito tempo. Cheios de significados, com histórias claras e personagens bem definidas nas suas características pessoais, atingem, divertem e estimulam a mente da criança. Esse gênero literário ajuda a criança a superar conflitos ao mesmo tempo em que auxiliam a construção do seu sistema metafórico e simbólico.

A criança acredita nos contos de fadas porque a magia inerente às histórias lhe é familiar. Na infância, a fronteira entre o real e imaginário ainda é tênue; no mundo mágico/encantado, longe da realidade em que ela vive, a criança entre em contato com uma gama de personagens com os quais ela pode se identificar.

Por aludirem a problemas interiores, os contos de fadas contribuem para a formação da personalidade da criança e transmitem a mensagem: a luta contra as sérias dificuldades da vida é inevitável, mas se as enfrentarmos ao invés de fugirmos, nós acabamos superando obstáculos e alcançamos a vitória, nossa auto-realização.

Os adultos encontram também, nestas narrações, o eco do seu mundo interior e dos seus sonhos. Por isso, não é difícil deixar-se levar pela história, em que o aspecto das aventuras fantásticas os cativa. É fácil nos ver refletidos e encontrar o que queremos e necessitamos.

OS CONTOS DE FADA DE J.K. ROWLING

Como a própria J.K. Rowling observa, o grande chamativo dos contos de fadas é a moralidade inerente a eles: enquanto a virtude é premiada, a fraqueza é punida. Mas essas histórias não podem ser reduzidas a meros contos morais. Além da fantasia, dos mitos e da magia que a permeiam, essas histórias têm que ter alguém que as passe adiante, contando e recontando, através dos tempos. Contar histórias é uma das coisas que nos tornam humanos. E o simples fato de até hoje esse gênero continuar encantando gerações significa muito.

Os contos de fadas de J.K. Rowling apresentam lições que podem nos ensinar a ser humanos melhores. Elas ensinam que o bondoso é valorizado, enquanto quem é mal sempre paga por isso no final. Devemos deixar nosso lado egoísta de lado, porque a vida sempre tem como nos pagar por nosso serviço prestado, tenha sido ele para bons ou maus fins. Que nós não devemos nem precisamos esperar que os outros dêem um jeito no que há de errado na nossa vida, nós podemos fazer isso por nós mesmos; algumas vezes precisamos de ajuda (e ela vêm de onde menos se espera), então que saibamos reconhecer e aceitar tal auxílio. Que quem ama não é fraco, o amor não deixa ninguém mais fraco, só mais forte. Que quem tenta controlar tudo não controla nada, na verdade. E que a morte não é nossa inimiga, pelo contrário. Pode ser até bem vinda. Mesmo quando não queremos abandonar nossos entes queridos em um mundo de sofrimento, porque sabe que a saudade dói, é necessário. E o que conta é a lembrança que fica.

A simples noção de que as crianças bruxas precisam dos seus contos de fadas tanto quando nós precisamos dos nossos nos lembram a importância do gênero para todos nós. E se essas histórias nos fazem voltar a tradição original do conto de fadas, em um mundo real caótico e carente de sonhos e fantasia, bom, então essa é a própria magia.

Natallie Alcantara me contou um segredo: quando criança, ela vivia deixando cair o próprio sapato de propósito sempre que descia um lance de escadas.