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Antepaixão: uma ideia mata?

Poucos temas hoje são mais debatidos e repisados que o preconceito, e as constantes tentativas, por parte de diversos movimentos sociais, de derrubá-lo por meio de conscientização. A conscientização pode modificar uma visão preconceituosa, porque ela nada mais é do que um pré-conceito, conforme a própria estrutura da palavra esclarece.

Nosso colunista Bruno Contesini decidiu se aprofundar nessa temática tão importante, e logicamente, relacioná-la com o universo bruxo. Leia sem preconceito a coluna de hoje e não deixe de comentar!

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Por Bruno Contesini

Antes de podermos dissertar sobre um tema tão complexo quanto o preconceito, precisamos entender suas origens. Exatamente, de onde nasce o preconceito? E precisamente o que define uma conduta preconceituosa?

Uma conclusão simples pode nascer do conceito de pré-conceito, deste modo, a definição de preconceito está meramente ligada à formação de uma opinião acerca de algo, alguém ou alguma característica, sem que haja conhecimento prévio que justifique tal posicionamento, neste momento, o que era caracterizado como opinião, passa a carregar uma noção de julgamento, muitas vezes pejorativo.
Esta conduta preconceituosa, este julgamento prévio e desprovido de justificativa fundamentada, nasce obviamente da convivência, de relações interpessoais, que para que possam existir, precisam trazer consigo o respeito mútuo às diferenças!

Como venho repetindo por vários textos, o mundo de Harry Potter tem a missão de traduzir, com uma impressionante mescla de ficção e realidade, a sociedade em que vivemos! É característica inerente à raça humana a diferença em um grau mais amplo se comparado à de todos os demais seres vivos. Isso é simplesmente porque embora todos possam pensar, o que sim, evidencia uma grave falha no termo “irracional”, nós somos a única espécie dotada de CONSCIÊNCIA, o que faz de nós, seres abertos a identificar entre nós, um número imensamente maior de diferenças. Somente nós humanos somos capazes de notar diferenças entre nossas concepções religiosas, posições socioeconômicas, raças, entre muitas outras.

Se analisarmos com calma os sete livros da série Potter, podemos notar que o preconceito está integrado nas mesmas camadas da sociedade em que vivemos: na esfera política, na escolar, e na familiar.

Impossível não se lembrar de Dolores Umbridge, e sua inesgotável ambição de extirpar os nascidos trouxas, além dos que não concordavam com a sua visão de mundo e sociedade. A “cara de sapo” e todo o ministério estavam ali criando o conceito de raça ariana, em muito semelhante ao que o tirano alemão Hitler criou, em tempos de segunda guerra. Não por acaso, Rowling também retrata a segunda guerra do mundo mágico.

A comissão de Registro dos Nascidos Trouxas é quase como as câmaras de gás que assombraram nosso passado, já que reduzia à injusta inferioridade, pessoas que apenas tinham a diferença de não terem “herdado” o talento mágico de seus antepassados. O próximo passo é o sentimento de superioridade de algumas famílias em detrimento de outras, pelo simples fato de serem mais ou menos tradicionais.
Lembro aqui que existe uma diferença entre o que é TRADICIONAL e o que é ARCAICO! Tradicional é aquilo que vem do passado e deve ser preservado, trazido para o presente, arcaico, é tudo o que vem do passado e por lá deve permanecer, pois já não acrescenta nada à sociedade atual. É claro, espero que para todos os leitores, que o preconceito é algo ARCAICO!

Quando falamos em preconceito escolar, convém lembrar-se de Luna Lovegood, alguém cuja excentricidade lhe rendeu demasiado julgamento, muitos possam dizer que isso traga de volta o conceito do bullying, mas na verdade, a noção de preconceito é mais ampla e integra o hoje muito popular bullying, tratado recentemente por colega colunista, como você pode ver aqui.

Existe preconceito também entre as casas, que muitas vezes ultrapassa o patamar da rivalidade competitiva! Ou alguém negaria o preconceito de Lucio Malfoy, em alguns momentos, transmitido ao filho, contra os Weasley? Para ser um pouco mais abrangente, será que não podemos afirmar que todas as casas têm certa desconfiança com relação à casa Lufa-Lufa?

Alguns outros exemplos de preconceito escolar, praticados contra Snape, Neville, Hagrid, e uma infinidade de outros, poderiam ser mencionados, mas isso retomaria muitos dos argumentos do bullying já amplamente discutido! Minha intenção é gerar uma discussão mais ampla e com abordagem diferenciada.

O preconceito que sofremos ao longo de nossa vida, seja qual for sua origem, marca, modifica e fundamenta nossa personalidade, tenhamos ou não poderes mágicos, ainda assim, temos características humanas, e para todas elas, é válida a célebre e espantosamente correta frase de Albert Einstein: “Triste tempo, é mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”.

Ainda precisamos recordar o preconceito familiar, e dois exemplos bastante claros são ente as irmãs, Evans Petúnia e Lilian (que também possa ser visto como inveja, mas que em minha humilde opinião enquanto autor, nunca deixou de ser preconceito de Petúnia em função da condição mágica da irmã), e entre Percy Weasley, que posteriormente, percebeu e arrependeu-se de sua conduta preconceituosa, mas não sem antes renegar os laços sanguíneos que detinha, em função de visão política divergente.

Para concluir, é grata a minha surpresa quando percebo que o preconceito aos poucos vem sendo superado, isso pode ser visto na quebra de limitações por parte das mulheres no mercado de trabalho, que gradativamente vêm conquistando maior espaço, no acesso de negros a cargos de poder, como o Barack Obama, nos Estados Unidos, e Joaquim Barbosa, no Brasil (Rowling colocou Kingsley Shacklebolt no comando do mundo bruxo, antes de Barack Obama assumir seu primeiro mandato como presidente da maior potência mundial), na valorização de profissionais que no passado eram vistos com inferioridade (como prova disso, temos a conquista de direitos trabalhistas mais amplos das empregadas domésticas), entre muitos outros.

Em uma recordação recente, não poderíamos deixar de citar a aceitação da união estável entre casais homossexuais que, embora seja um tema bastante polêmico, ainda assim caracteriza uma conquista a uma condição igualitária por parte dos homossexuais.
É necessário, então, que todos possamos compreender as diferenças, qualquer que seja sua ordem, este é o único meio de conviver harmoniosamente em sociedade, preservando conceitos morais e éticos, dos quais toda sociedade ou grupo humano necessita para que possa ser coeso.

Bruno Contesini solicitou ao ministro Kingsley a criação de uma frente anti-preconceito no Ministério da Magia, com todo o apoio de Hermione.