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Imerso em…

É consenso que a pressa, hoje, é natural em nosso meio. Horários apertados, dezenas de tarefas a cumprir, compromissos, enfim, quase todos os eventos da vida cotidiana nos levam a ter pressa, o que acaba por criar uma noção de imediatismo considerada “natural” por quase todos.

Em mais uma coluna, Bruno Contesini relaciona o conceito do imediatismo, difundido tanto entre nós quanto nas páginas de Harry Potter, e disserta também sobre o quão relacionada está a pressa com a noção de que o nosso tempo no mundo é finito.

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Por Bruno Contesini

Na grande maioria das vezes, nós, escritores de uma forma geral, colocamo-nos a dissertar sobre este ou aquele assunto da vida cotidiana, correlacionados ou não especificamente com este ou aquele indivíduo ou personagem de obra de ficção. De certa forma, é isso que normalmente acaba sendo feito mesmo quando o assunto é Harry Potter, porque afinal, como eu mesmo já disse outras vezes, existe muita relação entre o mundo real e o ficcional na arte de Rowling.

No entanto, sinto a necessidade de abordar um tema também muito explorado ao longo da série, que é a representação da morte. É claro que cada personagem tem a sua visão sobre o tema e é claro que isso nos obriga a adentrar em uma abordagem um tanto quanto filosófica, mas tudo isso, será crucial para entender enfim, como e de que forma, morte e vida estão sempre ligadas?

Não há forma mais apropriada de iniciar esta abordagem do que mencionar a figura “magicamente” criada dos testrálios, criaturas mágicas que só podem ser vistas por quem já viu a morte! No entanto, que outras diferenças existem na forma de ver a vida entre os que já viram a morte, e os que ainda não se depararam com ela!

É inegável que do ponto de vista social, vivemos em uma fase regada a “imediatismos”, frequentemente são ditas frases como: “preciso fazer isso logo, não sei se terei outra chance” ou ainda “preciso convidar aquela garota rápido para ir ao baile, ou as garotas legais já vão ter seus pares e não haverá uma segunda chance”! Neste ponto, torna-se relevante comentar a forma como Harry Potter lidou com o baile de inverno de Hogwarts, diferente de qualquer outro personagem!

Logo após ter demonstrado claro interesse em Cho Chang, Harry reflete demoradamente sobre como efetivar um pedido que evidentemente, em algum momento o faria. Isso vai de encontro ao que Rony Weasley fez diante de Fleur, com desastrosas consequências conduzidas pela noção imediatista de Rony ao fazer o convite.

Sabemos que Potter não obteve sucesso no convite feito a Cho, mas ainda assim, conduziu com naturalidade os assuntos sentimentais, sendo até bastante racional diante de Gina, o grande amor de sua vida.

No que se refere à irmã de Rony, o protagonista deu mais uma prova de sua forma madura de conduzir seu caminho, rompeu com quem amava no ponto em que percebeu que o relacionamento dos dois, podia passar a ser, de algum modo, prejudicial a ela! Acredito que, subjetivamente, o coração dos dois soubesse do desfecho que os conduziria à felicidade, sem que fossem necessárias precipitações em momento anterior.

Por outro lado, Voldemort sempre se mostrou apreensivo com a noção de que sua vida chegaria ao fim, tomou as mais variadas e inconsequentes decisões para, apressadamente, tentar evitar o inevitável, o vilão desejou que tudo transcorresse rápido, tanto na criação das Horcruxes como na busca pelas relíquias da morte, tudo por uma única razão, o sentimento dele em relação à morte é o medo!
Como bem disse Alvo Dumbledore em duas ocasiões: “Há meios piores do que a morte para se ferir um homem” e ainda “Não tenha pena dos mortos, Harry, tenha pena dos vivos, acima de tudo dos que vivem sem amor”!

Citarei aqui algumas leituras filosóficas que fiz ao longo do tempo, especialmente dois livros cujo autor é ninguém menos que um dos brasileiros mais inteligentes do mundo, o professor Mário Sérgio Cortella e seus livros: “Não espere pelo epitáfio” e “Qual é a tua obra?”.

Qual a obra ou o legado de Harry Potter? A imagem do protagonista inegavelmente traz muitos exemplos sobre como conduzir a sua vida, mesmo sendo perseguido pelo risco de morte quase todo o tempo! Em contrapartida, o legado de Voldemort, é de alguém que viveu sem amor, que não soube morrer, nem mesmo viver, existe a possibilidade, que no fim de tudo, por um instante ele tenha inconscientemente percebido, que sua história não passou da busca do nada, sendo o nada, a inviável imortalidade.

É importante que possamos entender que precisamos buscar uma missão, e tal qual existe na ficção, não procuremos cumpri-la sem planejamento, dotado apenas da popular noção de pressa, isso só nos levará a temer o amanhã, inseguros quanto ao que gostaríamos de ter feito.

É preciso então que todos nós trouxas, assim como todos os bruxos, entendamos que a morte é um fato e, portanto não pode nos preocupar! Nossa preocupação deve ser sim o que faremos de nossas vidas até que o inevitável fim chegue! Qual o legado que queremos deixar? Pelo que queremos ser lembrados? Por que não podemos ser o “menino que sobreviveu” do mundo dos trouxas?

Repare, caro leitor, que Harry Potter, jamais teve medo da morte, arrisco-me a dizer até que sempre, de alguma forma, mesmo que não soubesse por que, acreditava na sua própria sobrevivência! O quadro se inverte quando ele toma ciência das memórias de Snape, naquele momento, ele se entrega, convicto de que seu destino é a morte.

A reflexão interessante é notar que mesmo diante de tão assombrosa certeza, ele ainda não abandonou sua tarefa, sua tentativa de transmitir um legado, que pudesse culminar na morte de Riddle! Poderia ter tentado algumas dezenas de coisas que certamente seriam infrutíferas e imediatistas, mas em lugar disso, preferiu confiar o fim do pesado segredo a Nevile, na esperança de que ele ainda pudesse completar a missão, como de fato ocorreu!

Sim! É certo que Harry não morreu, mas nos deu uma grande lição do que é a morte e a vida! A vida de Harry não foi mais do que um impressionante legado ao mundo, a “morte”, uma importantíssima lição de alguém que é o senhor da morte, simplesmente por saber, que sua vida, nem por um instante foi em vão, ou pequena.

O que quero com este texto é bem mais do que esclarecer conceitos tão subjetivos como morte e vida! Uma das claras funções da literatura é provocar reflexão, fazer com que cada leitor, grupo no qual me incluo, estabeleça meios de perseguir objetivos sem que o medo do fim ou do fracasso o desvie de seu caminho. Esta lógica é aplicável a todos os segmentos da vida, exatamente como Harry Potter, em suas experiências e memórias passadas a tinta em papel, com maestria nos ensinou!

Bruno Contesini me contou que escreveu esta brilhante coluna sem a mínima pressa.