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Balidos e decepções: os porquês de Aberforth Dumbledore

Se Alvo Dumbledore exerce um fascínio sem igual sobre os fãs, em Igor Ferreira a admiração vai além: chega, inclusive, à família do diretor. De fato, toda a história de vida de Dumbledore é incrível, e seus entes mais próximos, ainda que à margem da história em si, têm sua importância.

Na coluna de hoje Igor Ferreira se despede do Potterish com um ensaio sobre Aberforth, o controverso irmão de Dumbledore, e de quebra, ainda aborda sua peculiar admiração por cabras. Não deixe de ler e registrar seu comentário!.

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Por Igor Ferreira

Há quem diga que levar toda sua vida cuidando de um pub de reputação duvidosa, cheio de garrafas empoeiradas e cercado por personalidades suspeitas e essência de cabras seja uma forma não tão boa de aproveitar a existência. Mas tente dizer isso a Aberforth Dumbledore. No mínimo, você sairia fugido do Cabeça de Javali acompanhado por uma chuva de azarações, maldições e dezenas de palavrões. Entretanto, será que esse é o único e correto modo de encarar a figura controversa do maior adorador de bodes do mundo mágico?

Segundo filho de Kendra e Percival, Aberforth cresce ao lado daquele que se tornaria o maior bruxo de todos os tempos, uma relação que implicaria em grande parte na composição do caráter do irmão de Alvo Dumbledore. Como Elifas Doge bem diz no obituário de Dumbledore que escreve ao Profeta Diário no período seguinte à morte do mestre, “para fazer justiça a Aberforth, deve-se admitir que viver à sombra de Alvo não pode ter sido uma experiência muito confortável. Ser continuamente ofuscado era um risco ocupacional que acompanhava seus amigos, e não pode ter sido muito mais prazeroso para um irmão.”

De fato, os prêmios, as correspondências, as homenagens a Alvo, devem ter sido difíceis de aguentar por parte de Aberforth, que crescia taxado a se tornar simplesmente o irmão do melhor aluno que Hogwarts já teve, variáveis que contribuíram para os momentos de rebeldia que encontramos na biografia do barman. Aberforth utilizava seus momentos de fúria para chamar atenção daqueles que o cercavam; fosse por um duelo desnecessário ou jogando excremento de bode na cabeça de um vizinho, ele conseguia os seus repentes de brilho enquanto a luz que emanava de Alvo tentava ofuscá-lo.

Porém, a chegada de Ariana, o seu crescimento repleto de doçura e encantamentos, dá a chance a Aberforth de superar Alvo em alguma coisa, pois enquanto seu irmão atentava especialmente para suas contribuições para o mundo da magia, Ab se tornava o companheiro essencial de Ariana, e vice-versa.

“Eu era o seu favorito. Não era o Alvo, ele ficava sempre no quarto quando estava em casa, lendo seus livros e contando seus prêmios, mantendo em dia sua correspondência com ‘os nomes mais notáveis da magia da época’, ele não queria se incomodar com a irmã. Ela gostava mais de mim. Eu conseguia convencê-la a comer quando não queria comer com a minha mãe, eu conseguia acalmá-la, se tinha um acesso de fúria, e, quando estava tranquila, costumava me ajudar a alimentar os bodes.”

A morte de Kendra no terrível incidente que já se conhece, coloca os dois irmãos numa situação de responsabilidade quanto a Ariana, responsabilidade esta que Aberforth tenta atrair toda para si renunciando à sua educação e a todo o futuro em função do bem-estar da irmã. Mas Alvo insiste e, de certa forma, retira de Aberforth a sua tarefa preferida e cumprida com excelência. Revoltado e guardando em seu peito um pequeno ressentimento do irmão, Aberforth parte para Hogwarts na esperança de retornar a cada oportunidade e encontrar sua preciosidade maior. Num de seus retornos, todavia, algo diferente se achegara à sua família.

Gerardo Grindelwald marca um ponto decisivo na vida de cada um dos Dumbledore e abre um plano de visão especial sobre o relacionamento entre Alvo e Aberforth. Nas poucas vezes em que se refere a Grindelwald percebe-se que Aberforth carrega cada palavra do mais puro ciúme. Sim, ciúme do irmão que ele via se afastar a cada instante da própria família para seguir um novo amigo; ciúme que serve de prova para ressaltar que “é, porém, um bem engano insinuar, como alguns têm feito, que os irmãos não fossem amigos. Davam-se tão bem quanto dois garotos, assim diferentes, poderiam se dar”. O mesmo ciúme que fez crescer dentro do coração rebelde de Aberforth um ódio enorme pelo forasteiro que vinha desarticular a família já tão abalada pelos desencontros da vida e da morte. Mas como se não bastasse, Grindelwald se torna o responsável pela ruptura entre os irmãos mais velhos e o lamentável colapso da família Dumbledore, adventos da morte trágica e “misteriosa” de Ariana.

Muito se especulou sobre a briga entre os irmãos Dumbledore à beira do caixão de Ariana, e pouco se teve certeza sobre isso. O que afirmo, sem utilizar da minha notória clarividência, é: o nariz partido de Alvo Dumbledore não foi a pior marca que restou deste episódio.

Ainda que usando de maiores e mais profundas especulações, fica difícil conhecer o que se passa na vida de Alvo e Aberforth por um longo período. Vamos enxergar o reaparecimento dos dois bem lá na frente, já nas formas do ilustre professor de Transfiguração e do dono da espelunca número um de toda Hogsmeade. Tão próximos e tão distantes, diriam alguns, mas talvez seja incerto afirmar se o prazo de afastamento entre os dois não venceu mais rápido do que imaginamos.

“- Então se eu fosse ao Cabeça de Javali esta noite, não encontraria um grupo deles, Nott, Rosier, Mulciber, Dolohov, aguardando a sua volta? (…)
– Você continua onisciente como sempre, Dumbledore.
– Ah, não, apenas tenho boas relações com os donos dos bares locais – respondeu ele descontraído.”

A passagem acima pode ser pouco significativa e um tanto quanto confusa se não enxergada da órbita correta. Assaltado por Tom Riddle com um pedido de emprego, Dumbledore não se surpreende com a situação que se forma em torno do castelo, no vilarejo próximo, sinal evidente de informações, que ele vem dizer, sarcasticamente, ter obtido a partir de “boas relações com donos de bares locais”. Quem melhor para informá-lo do que o próprio irmão?

Delírio ou não, creio que date de época anterior a esta uma maior aproximação entre os irmãos. Embora nem todo o ressentimento ardente em Aberforth tenha se extinguido (mesmo perdoando e admirando, de certa forma, o irmão, Aberforth culpava em grande parte os atributos de Alvo pelo fracasso familiar), fato comprovado nos capítulos finais de “Relíquias da Morte”, é imaginável que ele e Alvo tenham, como diz Elifas Doge, restabelecido “se não uma relação íntima, ao menos cordial”, a típica situação em que o sangue fala mais alto que qualquer inveja, mágoa ou ressentimento.

E, por fim, voltamos aos bodes! Companheiros inseparáveis desde o berço de Aberforth (frise-se que ele sempre amou a história de “Bodalhão, o Bode Resmungão”), teriam sido a forma de o barman manter-se livre da solidão e guardar um pedaço de uma infância em que, havia muito, fora feliz. A cabeça dura impediu o coração mole de falar mais alto e as atitudes contidas mostraram um herói escondido sobre a máscara de um rabugento. Quando perguntada sobre o que havia acontecido a Aberforth, J.K. Rowling respondeu: “Ele continua lá, no Cabeça de Javali, brincando com seus bodes”. Então, já sabem, querendo fazer uma visita, o endereço é o mesmo. Empurra a porta, arrasta um banco, espanta a poeira, pede uma cerveja. Só não espere o bom e velho tratamento dispensado aos ilustres senhores caprinos, porque aí já é um pouco demais, não acha?

Numa eventual visita ao Cabeça de Javali, não se esqueça do conselho do Professor Flitwick e leve seu próprio copo.