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Hermione Granger e a heroína moderna na literatura

Há quem aponte, hoje, uma evolução interessante da mentalidade humana. Podemos observar tal fato nas inovações tecnológicas, na redução da desigualdade social em determinados países, como o nosso, dentre outros.

Há, contudo, um preconceito aparentemente infindável na mente das pessoas, e o machismo segue muito forte. Nossa colunista Natallie Alcantara, uma notável devoradora de livros, traz hoje uma reflexão acerca do papel feminino em Harry Potter e na literatura como um todo, tendo como ponto de partida ninguém menos que Hermione Granger. Não se esqueça de deixar seu comentário!

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Por Natallie Alcantara

Hermione é uma das principais heroínas de Harry Potter. É inteligente, sensível, questionadora e ama ler. Sua esperteza e inteligência ajudam Harry e Rony em seu caminho pela “aventura”, no entanto, ela mesma não toma parte nesse caminho. Sua flexibilidade é a maior qualidade que ajuda seus dois amigos. Por seu papel na série, não só como melhor amiga do herói, mas também como a “sabe tudo” que está sempre preparada para uma eventualidade, ela é uma das principais heroínas modernas da literatura.

AVENTURA E GÊNERO

Quando se considera o acesso a aventura, o status do herói é privilegiado, enquanto a heroína precisa ultrapassar vários obstáculos para alcançar os mesmos objetivos. Talvez os mais radicais vejam isso como uma tentativa de colocar determinada personagem, mesmo sendo a heroína, em papel secundário. O fato é que, a literatura, especialmente os contos de fadas e o folclore, refletem a vida real. O acesso feminino a aventura apresenta mais dificuldades porque o crescimento feminino é mais difícil.

Qualidades tipicamente masculinas em histórias infantis são geralmente aquelas cuja origem apresenta algum tipo de grandeza: nas histórias onde o protagonista é masculino, o herói geralmente possui qualidades como coragem, honestidade, forte senso de justiça,… Como se uma mulher não pudesse ou não devesse possuir tais virtudes, é difícil as histórias com heroínas essas qualidades serem descritas abertamente, o que faz com que o leitor tenha que adivinhar à medida que lê.

Enquanto o herói expressa sua coragem, e os nobres objetivos de seus atos e alcança a vitória através da luta justa resultante do poder psicológico e/ou físico, a heroína geralmente é mostrada lutando só por sua sobrevivência, usando uma tática diferente (da luta), o que é desonesto. Esta tática, muitas vezes, foi associada a personagens fracos e sem jeito, mulheres e crianças, personagens considerados “outros”.

Personagens femininas em histórias de aventuras alcançam sucesso sendo flexíveis, uma virtude como adaptabilidade sendo uma típica qualidade feminina. Na literatura, como na vida real, a mulher precisa contrabalancear seus vários papéis, ou em outras palavras, precisa se adaptar. Existe outra diferença, mais proeminente, em relação a histórias de aventuras onde existe a heroína ao invés do herói: o herói se aproxima da aventura de forma fácil e sua jornada é controlada e assistida cuidadosamente por seus mentores, e sua liberdade é relativa. Ao contrário dele, a heroína precisa ser mais ativa para ter acesso à jornada. No entanto, ela também é mais livre.

HERMIONE GRANGER E A HEROÍNA MODERNA NA LITERATURA

Uma forte personagem feminina é aquela garota ou mulher que faz suas próprias escolhas, cuja reação à vida não é somente ou primeiramente determinada por outros (entenda-se aqui garotos ou homens). Elas podem ser esposas, filhas, irmãs, amigas, namoradas, mas não são definidas por suas relações. Elas tentam mudar o mundo a sua volta.

Personagens fortes agem, não esperam as coisas acontecerem para elas. Suas ações são guiadas pelo que elas acreditam ser correto, não pelo que alguém as mandou fazer. Ser forte não quer dizer sempre ser bom. Um personagem pode ser muito bom, possivelmente deseja alguma mudança no mundo, mas não age para consegui-lo. O fato de não agir não o torna mal, mas não significa que seja forte. Outra qualidade da personagem feminina forte é a “não aceitação” de um papel tradicional só porque é o jeito que a coisa deve ser. Ou a aceitação em seus termos, de acordo com suas escolhas.

Personagens femininas fortes podem ser más. Um bom exemplo é Belatriz Lestrange, talvez a principal (se não única) vilã no mundo de Harry. Pertencente a uma família bruxa poderosa e respeitável (nesse caso, tal adjetivo se deve a ancestralidade de sua casa), Belatriz é uma das principais seguidores de Voldemort e de longe a mais fiel ao seu mestre. No entanto, sua existência única na série comprova o fato de que não existem muitas vilãs, possivelmente uma indicação perversa de que garotas e mulheres ainda desempenham um papel secundário na ficção. Se as personagens femininas fazem suas próprias escolhas, algumas delas irão fazer escolhas que a sociedade talvez desaprove. Talvez o motivo para tal singularidade resida nesse fato.

Ser o personagem principal não é pré-requisito para ser um personagem forte. Harry muitas vezes demonstra certa fraqueza, seja física (quando sua mente é invadida por pensamentos ligados a Voldemort, dada sua ligação com o bruxo) ou de caráter (quando ele, para se vingar pela morte de Sirius, lança uma das Maldições Imperdoáveis em Belatriz). Não é válido afirmar que, caso fosse a heroína que passasse por essas situações, ela não faria o mesmo; no entanto, é a personagem secundária Hermione que vive advertindo-o e cuidando para que ele faça o certo, como por exemplo, quando ela chama a atenção para o fato de Harry estar dando muita atenção para as visões que o levam ao Ministério e que ocasionam toda a tragédia seguinte.

Enquanto a fantasia pode dar grande liberdade às mulheres em papéis não tradicionais, ser uma personagem forte é sobre fazer escolhas apesar das dificuldades. A fantasia oferece liberdade, pois não é “real”, os leitores geralmente estão mais de acordo em por de lado o que assumem que devam ser os papéis femininos. A principal diferença entre a heroína do passado e a heroína do presente está no fato de que a primeira é passiva, submissa, oprimida e precisa de ajuda, está presa em um pequeno espaço, físico e psicológico (sofre controle do pai e depois do marido). Enquanto a “nova” heroína é consciente de seus deveres, direitos e desejos e está pronta para lutar por ele.

Ela utiliza suas novas habilidades e conhecimento para ganhar independência, estando pronta para aceita a responsabilidade conseqüente. Uma de suas principais forças é a adaptabilidade, empatia e habilidades verbais, qualidades vantajosas. Por um lado, ela usa a adaptabilidade como a arte de se comprometer com algo/alguém, enquanto do outro não perde seu objetivo, necessidades e ambições. Ela tem a habilidade de mudar de acordo com as circunstancias, pode quebrar as regras e transpor as barreiras. A heroína ganha mais liberdade, experimenta aventuras e está incluída na sociedade.

Hermione faz o que tem que fazer para ajudar Harry. Às vezes, nem sempre é visto como ajuda por ele, mas no final ele alcança seu objetivo. Consciente do momento perigoso em que o mundo bruxo está mergulhado, ela sabe que deve proteger seus pais a qualquer custo, e mesmo não desejando, altera as memórias de ambos para que se esqueçam dela e não sofram perseguições e conseqüente morte. Cansada de ver os elfos domésticos levarem uma vida indigna, ela não se importa com os olhares de chacota e indiferença dos colegas e sai coletando dinheiro para a sua “organização” de ajuda aos elfos. Hermione age, não é uma mera espectadora dos acontecimentos. Ela tem idéias, as coloca em prática e agüenta as conseqüências se tudo der errado. Sem sua ajuda valiosa, como amiga e confidente, talvez o caminho percorrido por Harry se tornasse muito mais difícil. Mais tarde, já adulta, ela se torna esposa e mãe, mas esses papéis não diminuem seu status de “personagem forte”. Afinal, conforme já colocado, uma forte personagem feminina pode ser mãe, filha, esposa, papéis que em sua própria essência definem o “ser mulher” até hoje.

Rowling povoou sua obra de mulheres fortes: Lilian, Molly, Hermione, McGonagall, Ginna, Belatriz, Tonks,… a lista não tem fim. Cabe a cada uma de nós analisar qual delas se parece mais com nós mesmas. E qual dos papéis desempenhados por elas cabe a cada uma de nós. Afinal, a literatura não é nada menos que o reflexo do nosso mundo real?