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Harry Potter e Religião

O Brasil é um dos países mais religiosos do mundo: estima-se que nove entre cada dez brasileiros professam alguma religião, e os cristãos são a imensa maioria em nosso país.

Nosso colunista Bruno Barros aborda hoje um tema polêmico: a acusação de que Harry Potter seria uma espécie de “religião”, um manual de bruxaria. Na coluna deste domingo, é abordada a linha tênue que separa a ficção da realidade. E você, o que acha dessa polêmica?

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Por Bruno Barros

A religião é como um contrato social que um indivíduo realiza com um grupo que compartilha da mesma fé que este. Tomando o contrato social como uma forma de organização da sociedade, existem regras, em termos religiosos, que, quando seguidas, expressam um grande respeito e até mesmo submissão a Deus, Buda, Alá, e seja lá qual for a entidade cultuada. Enquanto milhares de pessoas ao redor do mundo desfrutam da magia enquanto leem a história do menino bruxo mais famoso dos últimos anos, existem pessoas que insistem em conspirar contra essa magia, utilizando trechos de livros Sagrados, dizendo que a magia citada nos em Harry Potter é um pecado.

Não me recordo em momento algum, de ter ouvido falar de alguma religião, que realize cultos onde seus participantes utilizem varinhas e fiquem gritando os feitiços presentes nos livros de Harry Potter, esperando que eles façam efeito. Rowling escreveu uma história fantástica com a intenção de agradar crianças e adolescentes, mostrando-os um universo mágico onde podem encontrar um lugar para se refugiar. Ela nunca teve a intenção de promover qualquer religião ou induzir seus leitores a praticarem o mau. Muitos criticam a obra de Rowling, dizendo que seu conteúdo possui personagens falsos que mostram seu lado bonzinho para atrair seguidores e subliminarmente espalhar sua mensagem demoníaca. Alguns chegam, até mesmo, a afirmar claramente que os livros ensinam a fazer magia, propriamente dita.

Não é novidade para ninguém o fato de que os livros vão ficando cada vez mais escuros conforme os anos passam, a sensação de medo fica cada vez mais intensa e até mesmo personagens começam a morrer com mais frequência, mas isto tudo é o estado de natureza das coisas, quando o mal começa a propagar-se em uma sociedade. Temos um exemplo muito claro disto. Se ligarmos a televisão em um telejornal, percebemos quanta desgraça nos cerca. E porque acusam os livros fantásticos de Rowling como propagadores da destruição e da desgraça ao invés de, simplesmente, olharem para qualquer mídia de comunicação social e perceberem o quanto precisa ser mudado numa sociedade bruta?

Os livros de Harry Potter já foram tão odiados que eles reviveram um episódio ocorrido na Idade Média que, ironicamente, foi vivido pelas chamadas bruxas – nada mais que curandeiros que utilizavam ervas e preces para fazer o bem a um enfermo. Eles foram queimados. Em outras ocasiões, foram banidos de escolas, bibliotecas e até mesmo países, tudo isto em razão de reclamações com fundamentos vazios e precipitados que as pessoas faziam sobre os livros.

Alguns conspiradores dizem que alguns termos utilizados pela autora para escrever sua aventura são ambíguos e que subliminarmente são interpretados pelo subconsciente de um leitor como um incentivo a pratica do mal. Ajudem-me agora, por favor. Como nomear os estudantes de uma escola que ensina magia, para a utilização diária, como forma de trabalho e sobrevivência, se não como bruxos ou feiticeiros? A magia presente em Harry Potter não é a mesma magia citada como heresia nos livros Sagrados, como muitos acreditam. Acho que estas pessoas que acusam Harry Potter de promover o mal estão lendo muitos contos de fadas, em que a bruxa má, aquela com a verruga no nariz pontudo, realiza seus encantamentos para fazer mal à mocinha, e infelizmente, estão acreditando que elas realmente existem. Falando em questões ambíguas, lembro-me muito bem de ter lido o clássico da literatura portuguesa Dom Casmurro e até hoje não saber se Capitu traiu ou não seu marido, ou mesmo Eça de Queirós, quando deixou de lado toda a ambiguidade e escreveu claramente sobre temas polêmicos como em O Primo Basílio e nem por isso foi apedrejado por grupos ou religiosos.

Abra sua mente! Rowling, claramente, nos apresenta personagens com diversas índoles e valores. Ela traça uma linha e coloca frente a frente o bem e o mau. A vida e a morte. Cabe ao leitor escolher de qual lado ele deseja estar, mesmo que apresente características que o encaixe nos dois lados, ela nos dá o direito de escolha, para no final mostrar-nos o que acontece com cada um, segundo a sua escolha. Harry Potter não é sobre o culto ao desconhecido, às forças do mal e a desgraça. Harry Potter é sobre coragem, lealdade, amizade, esperança e amor.

Antes de escrever esta coluna, Bruno Barros tentou fazer alguns feitiços e acabou não conseguindo.