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Bons maus costumes

O conceito da moral e dos bons costumes é todos os dias martelado em nossos ouvidos pela mídia, por educadores, pelos nossos pais. Nem sempre, contudo, a boa educação é posta em prática.

Igor Ferreira vai em busca da polidez na coluna de hoje, e aborda um pouco dos conceitos comumente aderidos tanto em Harry Potter quanto no mundo dos trouxas. Leia e deixe seu comentário!

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Por Igor Ferreira

Não faz muito tempo que os pais ensinavam seus filhos a serem cavalheiros, a respeitarem devidamente suas mulheres, a serem generosos, honrosos, amorosos e respeitosos, ou seja, a entenderem e porem em prática os princípios éticos fundamentais para o equilíbrio da coletividade e do ser humano de forma particular. Hoje, entretanto, muito disso tem se perdido, caído no esquecimento, resultado lamentável de uma verdadeira inversão de valores que se reproduz diariamente em nossas vidas e recai nitidamente sobre os leitores de Harry Potter.

É visível que atualmente os mocinhos têm perdido os seus encantos, ou melhor, têm deixado de encantar. Os vilões caíram definitivamente no gosto popular, recebem torcida e admiração quer pela determinação, originalidade, inteligência e ousadia, quer pela verdadeira confusão de papéis que o mundo moderno vive, onde os heróis do dia-a-dia têm entrado deliberadamente para a contravenção.

Entretanto, o simples fato de admirar, por exemplo, a sabedoria e os planos perfeitos de um vilão, não fazem de você um deles, até porque, se fosse assim, muitos de nós estaríamos sendo caçados para ocupar uma das inúmeras celas de Azkaban, não é? O verdadeiro problema surge quando alguns conceitos simplesmente são endeusados e, deste patamar, trazidos para as práticas cotidianas de cada um.

O que quero dizer, senhoras e senhores, é que todos nós podemos apreciar a incrível habilidade de Belatriz Lestrange ao duelar, e também a enorme devoção e fidelidade ao Lorde das Trevas, desde que saibamos distanciar esses fatores dos abomináveis resultados produzidos por eles. E aqui entra uma questão de bom senso antes de colocar qualquer personagem numa redoma de vidro: o que pesa mais entre as boas ações e os malfeitos? O instinto assassino sobre o intelecto? A lealdade sob a submissão doentia? O que deve prevalecer quando elegemos um personagem como favorito?

Não pensem que essa é uma análise que devemos fazer somente quanto aos ditos “maus”, pelo contrário. Por exemplo, o próprio Dumbledore, na juventude, elaborou planos ao lado de Grindelwald para forçar a submissão trouxa, mostrando o homem imperfeito que foi. No entanto, compensou em grande escala os seus erros ao dedicar toda a sua vida adulta para servir ao mundo trouxa, tornando as falhas anteriores máculas mínimas na sua brilhante contribuição.

Ainda seguindo o raciocínio anterior, podemos mencionar o mecanismo que muitos fãs utilizam para declarar seu amor pelos Marotos. Sim, eles erraram na adolescência, deixaram cicatrizes profundas na alma de alguns estudantes de Hogwarts, mas de que modo esses fatos podem ser comparados e calarem suas ações junto à Ordem da Fênix no combate a Voldemort? Outra vez a redenção dos pecados passados justifica a adoração presente e ainda que eu não seja muito satisfeito quanto aos Marotos, sou obrigado a admitir isso.

Avançando nos questionamentos, é impressionante como, ao passo que grande parte da sociedade se desvincula dos princípios que regeram a vida de nossos avós, os bons exemplos são depreciados e ridicularizados em vantagem dos maus. É notável isso dentro da história de Har-ry Potter quando nos referimos a nobre casa fundada por Helga Lufa-Lufa.
Os estudantes lufanos são taxados a todo instante como os paspalhões, idiotas, palermas, e isso nunca esteve tão claro até a chegada do Pottermore, que definitivamente definiu o lugar de cada um em Hogwarts. Eu mesmo conheci várias pessoas que abandonaram o site simplesmente porque “caíram” na Lufa-Lufa, reclamavam do azar e da incoerência do site. Sabem o porquê disso? Mais uma vez a priorização do errado em detrimento do certo. A generosidade tornou-se errada, o melhor é tirar proveito do próximo. A fidelidade deixou de ser apreciada, pois o certo é não se vincular a ninguém, o certo é ser frio e calculista, não apegar-se e ganhar encima disso. A justiça se perde quando a injustiça beneficia seus praticantes.

Sem isentar-me dos preconceitos que estão embutidos em cada um, devo confessar a minha admiração ainda que tardia à casa de Lufa-Lufa. Apesar de ser convictamente corvino, enxergo a casa preta e amarela como, talvez, a maior de toda Hogwarts: se não tão grande em nomes famosos, gigante em compreensão, amizade, lealdade e justiça. Se o mundo bruxo chegou a colapsos imensos foi porque em meio de tantos exemplos poucos lufanos foram seguidos. E o mundo trouxa, com adoração dos maus e menosprezo dos bons, para onde irá caminhar?

Igor Ferreira sempre cede seu lugar no Expresso de Hogwarts quando necessário.