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Enredos fantasmas: A história de Minerva McGonagall

Minerva McGonagall é a típica professora brava, mas que a maioria dos alunos adora. Todos nós tivemos um mestre assim no período de colégio, e a distância que essas pessoas mantêm de seus estudantes, de certa forma, os distancia de seu aspecto humano.

Monique Calmon, nos presenteia com uma análise sobre Minerva, e relembra trechos do texto do Pottermore que conta a vida da professora. J.K. Rowling nos mostra o quão humana pode ser a dama de ferro de Hogwarts. Não deixe de ler e registrar seu comentário!

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por Monique Calmon

Com o fim da série Harry Potter, acredito que todos nós, fãs de carteirinha, entramos em depressão. Muitos como eu devem ter relido todos os livros, assistido todos os filmes novamente, e gasto muito em lencinhos de papel. Até que o novo projeto de J.K. Rowling, o Pottermore, veio como um patrono no fim do túnel.

Enquanto explorava o site (que representa nada menos que uma plataforma online para acompanhar todos os capítulos da série de forma interativa, com conteúdo exclusivo, escrito pela autora), um texto em especial chamou minha atenção: “Ghost Plots”, (ou “Enredos Fantasmas”). Nele, a autora revela:

“Durante os dezessete anos que eu planejei e escrevi os livros de Harry Potter (sem mencionar Quadribol Através dos Tempos, Animais Mágicos e Onde Habitam e Contos de Beedle, o Bardo), eu gerei uma informação massiva sobre o mundo mágico que nunca apareceu nos livros.”

Bom, eu sempre achei que alguns detalhes de fato teriam ficado de fora, faz parte do trabalho do escritor. Em especial, creio que J.K. Rowling tenha pensado muito nos marotos, em Snape e em Lily, para dar coerência à história. No entanto, nunca imaginei que haveria “informação massiva sobre o mundo mágico” que não aparecesse nos livros. E ela continua:

“Eu também me pegava escrevendo histórias para personagens secundários (ou até mesmo terciários) que eram desnecessários para o que eu precisava. (…) Todas essas histórias eu nomeei “enredos fantasmas”, minha expressão pessoal para todas as histórias que não foram contadas que para mim chegavam a parecer tão reais quanto a “versão final”. Eu ocasionalmente estou conversando com um leitor e menciono uma parte de uma história fantasma; olhares confusos cruzam seus rostos, como se por um segundo estivessem se perguntando se pularam vinte páginas em algum lugar. Eu peço desculpas a qualquer um que eu tenha confundido dessa forma; o problema está, literalmente, na minha cabeça.”

Imaginem só! Quantos personagens do mundo mágico não devem ter histórias maravilhosas que desconhecemos, e que um leitor ou outro pode ter tido a sorte de ouvir, mas considerado que a autora anda lendo fanfics demais…

A partir dessa revelação, algumas dessas incríveis histórias começam a ser reveladas no site, como a de Minerva McGonagall, personagem que conhecemos por ser a vice-diretora de Hogwarts e diretora da casa da Grifinória, uma bruxa de aparência e temperamento severos, mas que esconde uma vida misteriosa e trágica.

De acordo com os novos conteúdos de J.K. Rowling, Minerva McGonagall é filha de pai trouxa e mãe bruxa. Demonstrava pequenos sinais de magia desde criança, e foi só após seu nascimento que Robert, seu pai, ficou sabendo sobre a existência do mundo bruxo. Isobel, sua mãe, guardou o segredo por muito tempo, com medo da reação do marido.

Mesmo com o choque da revelação, Robert continuou com Isobel, porém não havia mais confiança entre eles. Minerva, inteligente e observadora, já compreendia o que se passava, e se entristecia com isso. Acredito que neste ponto a autora quis mostrar que nem mesmo magia pode reparar problemas de relacionamento, falhas de personalidade ou erros nossos que afetam outras pessoas, em especial as que amamos. Em situações como essa, não importa se somos trouxas ou bruxos.

Minerva teve dois irmãos, Malcolm e Robert Junior, ambos possuidores de habilidades mágicas. Eventualmente, a jovem bruxa ajudava a esconder de seu pai acidentes e embaraços que a magia deles causava. Sabia que seu pai tinha dificuldades em aceitar a situação da família. Por outro lado, sua mãe lutava para se encaixar num vilarejo trouxa, sentindo falta de estar com outros do seu tipo, e poder exercer seu talento mágico. Creio que essa situação tenha tornado Minerva uma criança mais reclusa, séria, tendo que contrabalancear em sua mente os dilemas de seus pais, e tentando controlar a todo custo seus irmãos mais novos, evitando que causassem mais problemas à família.

Ao receber sua carta de Hogwarts, aos 11 anos, Minerva viu sua mãe chorar, não apenas por orgulho, mas também por inveja. Sua mãe queria estar de volta ao mundo mágico, e sentia saudades de Hogwarts, lugar onde ela havia sido tão feliz e livre um dia.

Para Minerva, Hogwarts também foi um local de alegria e liberdade. Em sua primeira noite no castelo, foi selecionada para a Grifinória, apesar de o Chapéu Seletor oscilar entre Grifinória e Corvinal. Por sinal, uma situação muito parecida com a de Hermione. E realmente, na minha opinião, as duas se parecem muito e possuem qualidades fortes de ambas as casas: seriedade, bondade, inteligência e coragem.

Minerva foi uma aluna rapidamente reconhecida como a mais destacada de seu ano, com um talento particular para Transfiguração. Tinha os talentos mágicos da mãe e o senso moral do pai, que era um pastor presbiteriano (sim, Isobel, bruxa, se casou com um pastor presbiteriano!).

Ao final de sua educação em Hogwarts, Minerva havia alcançado um recorde impressionante: notas máximas em seus NOMs e NIEMs, Monitora, Monitora Chefe e vencedora do prêmio Revelação Mais Promissora em Transfiguração. Com a orientação de seu professor de Transfiguração Alvo Dumbledore, tornou-se Animaga. Era também uma talentosa jogadora de Quadribol, apesar de uma queda feia em seu último ano, durante uma final da Grifinória versus Sonserina, tê-la deixado com diversos machucados e um desejo eterno de ver a Sonserina ser massacrada em campo. Nesse ponto, julgo que Minerva difere bastante de Hermione, já que a última nunca ligou tanto assim para Quadribol (um absurdo, devo dizer).

Após se formar em Hogwarts, Minerva voltou para casa para aproveitar um último verão com sua família antes de ir para Londres, ocupar uma posição no Ministério da Magia. Assim como sua mãe, acabou por se apaixonar por um trouxa, Dougal McGregor. Ambos compartilhavam o mesmo senso de humor, argumentavam ferozmente e suspeitavam de algum segredo um no outro. Em pouco tempo, Dougal pediu Minerva em casamento, e ela aceitou.

Ela foi para casa com a intenção de contar a seus pais sobre o noivado, mas não conseguiu. Dougal não sabia que Minerva era bruxa, assim como seu pai não soube nada sobre Isobel até que eles tivessem se casado. Minerva havia visto de perto o tipo de casamento que ela teria. Seria o fim de todas suas ambições em relação ao mundo mágico. Viveria com sua varinha escondida, e ensinaria seus filhos a mentir, talvez até para o próprio pai.

No dia seguinte, Minerva foi até Dougal para dizer-lhe que havia mudado de ideia, e que não poderiam se casar. Tendo em mente que se quebrasse o Estatuto Internacional de Sigilo em Magia ela perderia a vaga no Ministério, não pôde dar a ele nenhuma razão decente sobre sua mudança. Ela o deixou devastado, e partiu para Londres três dias depois.

No Ministério da Magia, Minerva McGonagall se deparou com colegas que tinham ideias anti-trouxas, que ela achava deplorável. Embora fosse considerada por seu chefe Elphinstone Urquart uma funcionária talentosa e eficiente, ela estava infeliz em Londres e sentia falta da Escócia, sua terra natal. Finalmente, após trabalhar por dois anos no Ministério, foi-lhe oferecida uma promoção muito prestigiosa que ela recusou. Mandou uma coruja a Hogwarts, perguntando se não poderia ser considerada para o cargo de professora. Recebeu uma resposta quase imediata, com a oferta de uma vaga no departamento de Transfiguração, sob a chefia de Alvo Dumbledore.

Hogwarts deu as boas vindas a Minerva McGonagall com prazer. Ela focou em seu trabalho, provando ser uma professora rígida, porém inspiradora. Ter cartas de Dougal McGregor guardadas em uma caixa debaixo de sua cama – ela dizia para si mesma firmemente – era melhor do que ter sua varinha trancada lá. Ainda assim foi um choque saber por meio de uma carta de sua mãe que Dougal havia se casado.

Alvo encontrou Minerva aos prantos em sua sala tarde da noite e ela o contou toda a história. Alvo ofereceu-a conforto e conselhos, e contou a Minerva algumas histórias de sua família que ela antes desconhecia. As confidências intensamente reservadas e individuais trocadas naquela noite entre eles formaram as bases para uma mútua estima e amizade duradoura.

Durante as férias de Minerva na Escócia, seu ex-chefe, Elphinstone, veio visitá-la, e para sua grande surpresa e constrangimento, a propôs em casamento. Ainda apaixonada por Dougal, Minerva recusou. No entanto, Elphinstone nunca deixou de amá-la, e de vez em quando a pedia em casamento. A morte de Dougal, no entanto, embora traumática, pareceu libertá-la. Pouco depois da primeira derrota de Voldemort, Elphinstone voltou a pedi-la em casamento. Desta vez, ela aceitou, e eles passaram a viver em um pequeno chalé em Hogsmead.

O casamento foi feliz, porém tragicamente curto. Acidentalmente, Elphinstone foi morto por uma mordida de Tentáculos Venenosos. Minerva não aguentou viver sozinha em sua casa, e voltou a morar em Hogwarts. Minerva destinou todas suas energias ao seu trabalho, e poucas pessoas, com exceção talvez de Alvo Dumbledore, chegaram a perceber o quanto ela sofreu.

Ao final dessa análise, chego à conclusão que o Chapéu Seletor estava certíssimo, e Minerva realmente pertence à Grifinória. Uma bruxa que foi contra as injustiças de um Ministério da Magia na época corrompido, e que teve a coragem de refletir e considerar se valeria à pena, e se seria justo com Dougal, reconstruir a situação que vivenciou em sua casa. Uma mulher que não se deixou levar pelas emoções, que agiu sempre com confiança em suas escolhas e em seus valores morais. Uma pessoa verdadeira o suficiente para admitir suas fraquezas, e forte o suficiente para superá-las.

Monique Calmon é muito modesta e nunca assume, mas tem um talento especial em Transfiguração.