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[ATL] Rowling discute The Casual Vacancy e vida pessoal em nova entrevista

A autora J.K. Rowling conversou com a jornalista Decca Aitkenhead, do The Guardian, como parte da promoção do seu novo romance, The Casual Vacancy.

O papo descontraído foi muito além do novo livro, que ainda se mantêm em “segredo de estado” embora tenha tido alguns detalhes revelados na entrevista. Jo Rowling respondeu à várias perguntas pessoais, que incluem pensamentos sobre os livros digitais (os e-book), sobre a série de livros Cinquenta Tons de Cinza e sobre política, tema retratado fortemente no seu próximo romance. Ela compartilhou ainda um pouco do seu processo criativo, algumas inspirações para a criação de seus novos personagens e sua ansiedade com o lançamento da obra.

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J.K. ROWLING
Rowling revela parte do processo criativo de The Casual Vacancy

Prévia ~ The Guardian
21 de setembro de 2012
Tradução: Renan Lazzarin

JK Rowling sobre quando pensou pela primeira vez em The Casual Vacancy: “Dessa vez eu estava num avião. E pensei: eleição local! E eu já sabia. Eu tive toda aquela reação física que se tem quando você tem uma ideia que sabe que vai funcionar. É uma injeção de adrenalina, é uma coisa química. Senti isso com Harry Potter e também nesse caso. Então é assim que eu sei.”

Alguém disse a Rowling que sentia muito pelas amigos da sua filha, imaginando que seriam eles a inspiração para os adolescentes de The Casual Vacancy. “Mas não foram eles que eu desvelei; foram os meus próprios amigos.” Rowling cresceu perto da Floresta de Deão numa comunidade não muito diferente de Pagford. “E lá estava eu relembrando vividamente como era ser uma adolescente, sendo que aquela não foi uma época particularmente feliz na minha vida. Na verdade, não voltaria a ser uma adolescente por nada. Nunca. Não, eu odiava.”

Tendo sempre querido ser uma escritora, ela agora se achava no comando dum império de negócios se estirando até Hollywood quando os filmes de Harry Potter começaram a estraçalhar os recordes de bilheteria. “E é um tédio, de verdade. Deveria ser mais diplomática? Bem, eu não me importo. Não, não há literalmente nada no campo dos negócios que eu não sacrificaria num piscar de olhos para passar mais umas horinhas escrevendo. Nada. Soa terrivelmente ingrato porque isso me deu uma quantidade absurda de dinheiro e estou grata por isso. Mas não é algo que me interesse, e tem havido um bocado de oportunidades de fazer mais dinheiro e eu tenho dito ‘não’.

ATUALIZADO: Trazemos em primeira mão para vocês todo o artigo do The Guardian traduzido. Nessa incrível matéria, conhecemos um pouco mais da vida e dos pensamentos da nossa querida autora, assim como entendemos o que a levou a escrever seu novo romance, The Casual Vacancy. Leia na íntegra.

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J.K. ROWLING
“O pior que pode acontecer é alguém dizer, isso é assustadoramente ruim”

The Guardian
22 de setembro de 2012
Tradução: Virág Venekey
Revisão: Evandro Lira

*** = Alerta de spoiler
### = Fim de spoiler

JK Rowling: “O pior que pode acontecer é alguém dizer, Isso é assustadoramente ruim”

Decca Aitkenhead, The Guardian, Sábado 22 de setembro de 2012

Harry Potter vendeu milhões e a transformou numa das mulheres mais ricas no mundo. Agora JK Rowling escreveu seu primeiro livro para adultos. Mas a mágica ainda está lá?

O novo romance de JK Rowling chega com o forte drama e segredo de estado de um nascimento da monarquia britânica. Sua devida data foi anunciada em fevereiro, e em abril a revelação do título, “The Casual Vacancy”, se torna notícia internacional. O lançamento da capa em julho se torna manchete novamente e a Fleet Street contrata um “guru do desenho” para desconstruir sua estética impenetrável na busca de pistas sobre o que ela pode estar escondendo. Waterstones prevê que o romance pode se tornar “a ficção campeão de vendas do ano”. Críticos literários começam a publicar opiniões preliminares, revelando o que acham que vão pensar sobre o livro que nem leram ainda.

É exigido que eu assinasse no escritório londrino da Little Brown mais documentos legais do que estariam envolvidos na compra de uma casa antes que me seja permitida a leitura de “The Casual Vacancy”. Até mesmo os editores estiveram proibidos de lê-lo, e então eles deixam o manuscrito gentilmente, com reverência, como se estivessem manuseando um vaso Ming de valor incalculável. Depois sou instruída para nunca revelar a localização do escritório de Rowling em Edimburgo, local onde a entrevista vai ocorrer. O mero fato da entrevista é tão noticiável que o Le Monde despacha um repórter para investigar como foi feito a segurança. Sua perspectiva começa assumindo o mistério de uma audiência com Sua Majestade – exceto, é claro, que Rowling é conhecidamente mais, muito mais rica que a rainha.

Nos 15 anos desde que ela publicou seu primeiro Harry Potter, Rowling se tornou tanto universalmente conhecida, como quase irreconhecível. A cabeça ruiva desmazelada que costumava escrever em cafés de Leith lentamente se transformou numa glamorosa loira, irreconhecível por trás da camada impenetrável de riqueza e controle. Outrora uma mãe solteira sem dinheiro, ela se transformou na primeira pessoa na Terra a conseguir 1 bilhão de dólares escrevendo livros, mas suas aparições públicas raras lhe sugeriram a princípio uma qualidade ligeiramente gélida, menos Cinderela mais Rainha da Branca de Neve.

Ocasionalmente ela não parece gostar do conto de fadas, reclamando para Leveson de que teve que contratar advogados de privacidade em mais de 50 ocasiões, e processando um fã por escrever uma enciclopédia de fatos Potter. A imprensa começou a palpitar sobre uma fria e grandiosa reclusão.

Pessoas famosas que aparentam ser incrivelmente controladores são geralmente uma das duas coisas: monstruosamente megalomaníacos ou, menos comumente, almas sãs isolando a si mesmas de circunstâncias insanas. Raramente há meio-termo, e eu descobri onde Rowling pertence quando sua publicitária liga uma hora antes de irmos nos encontrar. Eu temo pelo pior.
Iria ser alguma demandam insana e intrigante de último minuto?

Não, é só o fato que Rowling ficou presa em seu escritório por muito tempo e gostaria de uma mudança de cena. Poderíamos nos encontrar para perto de lá? Encontro elas no saguão de um hotel modesto. Certamente não vamos conversar lá, a escuta de qualquer hóspede que passa?

Mas Rowling está completamente tranquila com esses termos. Calorosa e animada, rapidamente risonha, ela conversa tão livremente que sua publicitária fica nervosa e fala para ela baixar a voz. “Estou falando muito alto?” Ela não parece nem um pouco preocupada. “Bem, não posso ser apaixonada e sussurrar!” Quando falo que amei o livro seus braços se elevam celebrando. “Oh meu Deus! Fico tão feliz! É tão maravilhoso escutar isso. Muito obrigada! Você me fez incrivelmente feliz. Oh meu Deus!” Qualquer um escutando iria achar que se trata de uma autora estreante, encontrando seu primeiro fã.

De certa forma é isso que ela é. Rowling escreveu sete livros Harry Potter e vendeu mais de 450 milhões de cópias, mas seu primeiro romance para adultos é diferente deles em todos os aspectos – ao menos que você considere o local onde ela teve a ideia. “Obviamente eu preciso estar em algum tipo de veículo para ter uma ideia decente”, ri. Tendo imaginado Potter num trem, “Dessa vez foi num avião. E eu pensei: eleição local! E apenas sabia. Tive toda aquela resposta física que você tem quando sabe que uma ideia vai funcionar. É uma corrente de adrenalina, é química. Eu tive com Harry Potter e tive com isso. Então é assim que eu sei”.

***

O enredo começa com a morte de um conselheiro de freguesia na pequena cidade de Pagford no Oeste do país. Barry cresceu numa propriedade vizinha, o Fields, um gueto rural esquálido com o qual as classes médias mais devotas de Pagford perderam a paciência a tempos. Se eles conseguirem preencher o lugar com mais um conselheiro simpatizante do gosto deles garantirão a maioria dos votos para repassar a responsabilidade por Field a um conselho vizinho, e se livrar do lugar infeliz.

O pomposo presidente pensa que a cadeira vaga irá para seu filho, um tabelião. Competindo contra ele estão um clínico geral amargamente frio e um diretor adjunto aleijado por uma ambivalência irreconhecível em relação ao filho, um adolescente convencido cuja subversão tem a forma inusitada, mas muito efetiva de falar a verdade. Sua preocupação com “autenticidade” se transforma numa fascinação pelo Fields e sua família mais notória, os Weedon.

Terri Weedon é uma prostituta, viciada e vítima duradoura de um assustador abuso,lutando para se manter limpa para impedir o serviço social de levar seu filho de três anos, Robbie, para assistência. Mas metadona é uma substituta precária para heroína, e muito do que passa pelos cuidados maternos recai sobre a filha adolescente, Krystal.

Espiritual e volátil, Krystal conheceu apenas um aliado adulto na sua vida – Barry – e sua súbita morte deixa ela perigosamente a deriva. Quando mensagens anônimas começam a aparecer no site do conselho expondo segredos dos moradores, Pagford desemaranha num pânico de paranoia, furor e tragédia.

Pagford vai estar terrivelmente reconhecível para qualquer um que tenha vivido numa cidade do Oeste do país, mas a comédia esperta pode ser interpretada também como um conto sobre a política nacional. “Estou interessada naquela direção, aquela pressa em julgar, que é prevalece tanto na nossa sociedade”, diz Rowling. “Todos nós conhecemos aquele corrente de prazer que vem da condenar, e de uma forma simples é bastante satisfatório de fazer, não é?” Mas requer esquecimento dos horrores sofridos por uma família como o dos Weedon, e o livro satiriza a ignorância de elites que assumem saber o que é melhor para todos.

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“Quantos de nós são capazes de expandir nossas mentes além das nossas próprias experiências pessoais? Muitas pessoas, certamente pessoas que sentam ao redor da nossa mesa, falam, ‘Bem, deu certo para mim’ ou, ‘É assim que meu pai conseguiu’ – essas frases de praxe banais – e a ideia de que outras pessoas possam ter tido experiências de vida tão diferentes que suas escolhas e crenças e comportamento seriam totalmente diferentes de suas aparências, parece não ocorrer a muitas pessoas de outra forma inteligentes. Os pobres são discutidos como essa massa homogênea, como mingau. A ideia que eles possam ser indivíduos, e estarem onde estão por razões muito diferentes, e diversas, de novo parece não ocorrer para algumas pessoas.”

“Eles falam sobre mães adolescentes sem entusiasmo querendo uma vaga no conselho. Bem, quão trágico é que isso é que alguém considera como o máximo de segurança ou de estar salva? Como seria a sua vida se esse é o único caminho possível que você enxerga para si mesmo? Mas eu não sei se essa é uma pergunta que algumas pessoas fazem a si mesmos. Houve uma mudança horrivelmente familiar na atmosfera [desde as eleições de 2010], me parece muito com o que aconteceu no inicio dos 90, quando houve uma pequena redistribuição de benefícios e de repente famílias de mães solteiras estão um pouco pior. Mas não é “um pouco” quando você está naquela situação.”

Até mesmo uma semana mais apertada pode fazer uma enorme, enorme diferença. Então, sim, prece familiar. Embora começasse a escrever isso cinco anos atrás quando não tínhamos um governo de coalizão, então se tornou mais relevante a medida que escrevia.

Assim como tantos outros romances britânicos, The Casual Vacancy é inevitavelmente sobre classes. “Nós somos uma sociedade fenomenalmente esnobe”, Rowling acena com a cabeça, “e é um assunto tão interessante. A classe média é tão engraçada, é a classe que conheço melhor, e é a classe onde você encontra o maior fingimento, e isso que torna a classe média tão divertida. O livro é tão divertido que eu estava na metade quando percebi que todos os personagens, em níveis variados, são monstruosos.” .

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Escrita sobre múltiplas perspectivas, o romance convida o leitor dentro da mente deles, onde lógica interna ajuda a fazer senso sobre o que, de fora, parece inaceitável. Mas Rowling espera um longo tempo antes de nos levar dentro da mente dos Weedon, para revelar traumas indescritíveis. O atraso serve para amplificar o choque, mas arrisca de mostrar apenas sua disfunção por tanto tempo que o leitor começa a rir deles. “Eu estava consciente de que o leitor poderia pensar que estava rindo de Krystal. Não estou. De forma alguma. Nem por um segundo”, repentinamente ela fica propositadamente séria. “Uma pessoa que leu falou que achou muito engraçado quando Krystal fala para Robbie comer suas batatinhas antes dos enrolados. Bem, eu não estava fazendo piada. De forma alguma. Para mim, aquilo foi um momento sombrio. Para mim é desolador. Para mim aquilo me faz querer chorar.

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“Então acho que nunca se sabe. Mas então”, e começa a sorrir, “aos olhos de alguns, Harry Potter foi um livro do oculto e da adoração do diabo, então eu sei que você não pode determinar o que os leitores vão achar”. Alguém falou para Rowling que lamentam pelas amigas da sua filha, assumindo que elas foram a inspiração para os adolescentes de The Casual Vacancy. “Mas eu não os deixei a mostra, eu deixei meus amigos a mostra”. Rowling cresceu perto da Floresta do Deão numa comunidade não diferente de Pagford. “E isso me lembrava muito vividamente como era ser uma adolescente, e não foi uma época particularmente feliz da minha vida. De fato, você não poderia me dar nada que me fizesse voltar a ser uma adolescente. Nunca. Não, eu odiei”.

Sua mãe, uma técnica laboratorial de escola, foi diagnosticada com EM quando Rowling tinha 15. “Mas não foi apenas isso – embora aquilo colorisse bastante. Apenas não acho que estava muito bem como jovem” Ela e sua irmã mais nova, Dianne, tinham uma relação difícil com seu pai, e Rowling “mal pôde esperar para sair daí”; ela estudou francês e clássicas na Universidade de Exeter, trabalhou para a Anestia em Londres, perdeu sua mãe aos 25 e se mudou para o exterior para ensinar inglês, retornando aos 28 com uma filha de seis meses, Jéssica, em seguida a um casamento curto e catastrófico com um jornalista português. Quebrada, clinicamente depressiva e suicida, ela se mudou para Edimburgo para ficar perto da irmã e sobreviveu de benefícios enquanto escrevia o primeiro Harry Potter. Após muitas rejeições, o manuscrito foi comprado pela Bloomsburry por 2500 libras. Seu editor aconselhou Rowling a conseguir um trabalho de professor, devido a probabilidade dela em sustentar sua vida com livros de crianças ser, no seu ponto de vista, decididamente remota.

Um documentário de 2007 a mostra 10 anos depois, elevada a uma estratosfera de riqueza e fama inimagináveis. Olhando agora, o que impressiona é a discrepância entre o final felizes-para-sempre do seu milagre de farrapos-a-ricos e a infelicidade estampada em seu rosto. Há uma expressão de perseguida em seus olhos, uma tensão cautelosa nas suas feições e uma divisão ligeiramente frágil nos seus comentários. Nada disso é perceptível hoje, então eu pergunto se levou tempo para que o DNA emocional de infelicidade dos anos iniciais se transformasse e acompanhasse sua nova vida.

“Bem, se transformou agora. Mas houve um atraso categórico. Por alguns anos me senti como numa esteira rolante, tentando acompanhar onde estava. Tudo mudou tão rapidamente, tão estranhamente. Eu não conhecia ninguém que já esteve nos olhos do público. Não conhecia alguém – alguém – para qual poderia me virar e dizer, ‘O que você faz? Então era incrivelmente desorientador”.

Ela fez terapia quando estava “no fundo do poço” enquanto escrevia seu primeiro Potter. “E tive que fazer novamente quando minha vida estava mudando tão subitamente – e realmente ajudou. Eu sou um grande fá da terapia, me ajudou bastante”. Sua outra salvação veio com seu segundo marido, Neil Murray, um médico com quem casou em 2001 e com quem tem um filho de nove e uma filha de sete. “Quando conheci Neil, pareceu como se ele entrasse em tudo comigo. Ele mudou minha vida. Mas antes disso, estar sozinha com tudo aquilo, com uma criança pequena, foi…” Ela procura pela palavra, e opta por eufemismo. “Difícil”.

Súbita riqueza não foi uma alegria simples. “Você não espera o tipo de problemas que ela traz consigo. Eu sou tão agradecida pelo que aconteceu que isso não deve ser considerado de forma alguma uma lamuria, mas você não espera toda a pressão, no senso de ser bombardeada por pedidos. Eu senti que tinha que resolver o problema de todos. Fui atingida por esse tsunami de demandas. Me senti sobrecarregada. E estava realmente preocupada que poderia estragar”.

Tendo sempre desejado se tornar uma escritora, ela agora se encontra no comando de um império de negócios estendendo-se até Hollywood, já que os filmes Harry Potter começaram a bater recordes de arrecadamento. “E é um tédio real. Deveria ser mais diplomática? Oh, eu não ligo. Não, não há literalmente nada nos negócios que eu não sacrificaria num piscar de olhos para ter algumas horas a mais de escrita. Nada. Isso soa horrivelmente ingrato porque me deu um monte de dinheiro, e sou muito agradecida por isso. Mas não é algo que me interesse, e houve muitas oportunidades de fazer coisas que renderiam mais dinheiro, e eu disse não”.

Publicitários estão sempre oferecendo fortunas para usar personagens Potter, e a McDonald´s queria vender McLanche Feliz Harry Potter, mas todos foram recusados. “Eu odeio reuniões. Embora é verdade que uma vez que você fez um monte de dinheiro pessoas ao seu redor podem estar cheios de ideias sobre como fazer muito mais dinheiro e podem ficar desapontados que você não quer agarrar cada oportunidade de fazer”.

Seu contador sugeriu alguma vez esquemas do estilo Jimmy Carr para evitar impostos? Ela parece consternada. “Não! Deus, não, ele não é esse tipo de contador. Não. Ninguém nunca me ofereceu esse tipo de coisa – mas então, eles não iriam, eles simplesmente não iriam. Eu tenho uma visão bastante indistinta sobre essas coisas. Eu de fato escolhi meu contador porque ele me falou, ‘Você tem que tomar uma decisão fundamental. Você tem que escolher se organiza seu dinheiro em torno da sua vida ou sua vida em torno do dinheiro”.

Quando eu falo para ela nomear a pior coisa na sua vida atualmente, ela não consegue pensar em nada. Após uma longa pausa. “A pior coisa de todas agora, nesse segundo, é que não temos comida na geladeira – o que iremos ter para o jantar hoje? Grande problema. Mas não, eu não consigo pensar em nada terrível na minha vida”.

E fama tem seu lado bom; conhecer Barack Obama e o legendário escritor de discursos Bob Shrum foi os dois momentos mais estrelares de sua vida. Ela recorreu a um disfarce uma única vez para sair sem ser reconhecida, mas isso foi para comprar seu vestido de casamento. “Eu só queria poder casar com Neil sem nenhuma asneira acontecendo”.

Ela não revela que disfarce era – “Por garantia”, sorri largamente, “caso precise usar novamente”. Ela parou de se importar que as pessoas pronunciem seu nome erroneamente (rima com “bowling”, não “howling”), e gosta bastante de ser JK como escritora e Jo na vida real. “Jo a mãe é onde quero estar na maior privacidade”.

Ela não é tão reservada que não fale que caminho ela vai votar no referendum escocês – “Sou a favor da união” – e parece otimista sobre a especulação que acompanha ela em todos os movimentos públicos. Os rumores sem fim que The Casual Vacancy seria um suspense criminal apenas a faz rir. “Tudo começou com Ian Rankin. Ian e eu tivemos certa vez um diálogo no qual ele com direito falou que os romances Potter são em grande parte histórias de detetive dificilmente desvendáveis, então nós falamos sobre isso, e isso levou ele a falar para todos que eu estava escrevendo um romance criminal, o qual nunca foi o caso”.

Histórias de detetive é seu ponto fraco – “Eu amo um bom Dorothy L Sayers” – mas de fato ela não se sente tão culpada em relação a isso: “Não há vergonha em gostar de Dorothy”. Ela não leu Cinquenta Tons de Cinza “porque prometi ao meu editor que não iria”. Ela não parece como se sentisse perdendo algo. “Não em demasiado”, concorda ela sem emoção.

Seu mundo emocional está agora, acha ela, finalmente de acordo com a sua realidade externa. “No fim das contas você alcança um equilíbrio muito saudável onde, eu acho, você desconecta. Você realmente alcança. E eu estou nele. E tem sido ótimo nos últimos cinco anos, tem sido emocionante, a completa liberdade. Eu sou a autora mais livre no mundo. Posso fazer o que eu quiser. Minhas contas estão pagas – todos nós sabemos que posso pagar minhas contas – eu não estava comprometida com ninguém, e a sensação de ter todos esses personagens na minha cabeça e saber que ninguém sabia nada sobre eles foi maravilhoso. Foi simplesmente animador. Pagford foi minha, apenas minha, por cinco anos. Eu amei isso. Escrevi esse romance exatamente como queria. E amei isso”.

Eu a cito de uma entrevista de 2005: “A primeira coisa que escrevo pós-Harry pode ser totalmente descartável e, você sabe, as pessoas vão compra-lo. Então você é deixado com essa insegurança total”. Rowling concorda vigorosamente. “Mas é verdade, não é? Absolutamente, isso foi meu pior pesadelo. No momento que eu disse que finalizei o livro, sabia o que iria acontecer. Iria acontecer uma guerra de ofertas, e eu poderia acabar com alguém que teve a carteira mais rápida, que comprou ele porque eu escrevi Harry Potter. Aquilo poderia ser o motivo.”

“Mas eu fui realmente sortuda nisso, porque tive um encontro com David Shelley, quem é meu editor agora, sem ele saber que havia um livro. Tivemos apenas uma conversa e eu pude perceber que ele estava na mesma linha de pensamento. Então eu mencionei vagamente o que poderia ter, sem dizer que estava concluído. Não teve leilão. Foi uma ótima forma de achar um editor”.

Ela jura que não se importa o quão bem o livro vai vender. “Não estou sendo esnobe sobre isso, mas eu me sinto desconectada desse tipo de expectativa”. Pode não ter sobrado ambição comercial, mas talvez ainda um ponto artístico para provar? Alguns críticos sempre torceram o nariz sobre o mérito da literatura Potter – “Numa escolha arbitrária de uma página do primeiro livro Harry Potter”, disparou Harold Bloom, “Eu conto sete clichês” e eu me pergunto se Rowling escreveu The Casual Vacancy com essas críticas em mente. “Não, eu realmente não sentei e pensei, agora é hora de provar que eu posso…”. Ela para e suspira. “Eu não acho que eu fisicamente poderia escrever um romance por essa razão”.

Para escrever um livro tão ambicioso sem ambição não foi nem uma contradição para Rowling, e nem mesmo uma escolha. “Eu simplesmente precisei escrever esse livro. Eu gosto muito dele. Estou orgulhosa dele e isso conta para mim”. Ela não considerou publicar sob um pseudônimo. “Mas de alguma forma é mais corajoso fazer assim. E, de certa forma, você sabe o que? O pior que pode acontecer é todos falarem, ‘Bem, isso foi um lixo, ela deveria ter continuado a escrever para crianças’ e eu posso aceitar isso. Então, sim, eu coloquei pra fora, e se alguém disser, ‘Bem, isso é chocantemente ruim – volte para os bruxos’, então obviamente não vou dar uma festa. Mas vou sobreviver. Eu vou sobreviver”.

Eu não duvido, mas a certeza dela tem o ligeiro zelo de uma convertida, então eu pergunto ela como ela pode ter certeza. “Porque eu não sou a pessoa que era alguns anos atrás. Não sou. Eu sou mais feliz”.