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Outra lição de igualdade

O protagonista e o vilão são homens, mas as mulheres têm uma enorme importância na trama de Harry Potter. Seja dando o conforto familiar necessário, como Molly fez tantas vezes, ou protegendo Hogwarts dos Comensais da Morte. Na coluna deste domingo, Luiz Guilherme Boneto lembra o papel de cada mulher na série e como Rowling soube valorizar todas.

Leia o texto e diga: quem é sua personagem feminina favorita de Harry Potter?

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por Luiz Guilherme Boneto

Os grandes fãs de Harry Potter, dentre os quais honrosamente me incluo, leram e releram a série inúmeras vezes. Diz-se por aí que, numa primeira análise de qualquer obra, seja ela livro ou filme, o receptor preocupa-se com o enredo e distancia-se dos detalhes, que podem ser melhor observados numa segunda avaliação. Nós, que de bom grado fizemos ao menos dez leituras de cada um dos livros, temos uma percepção aguçada de pequenos detalhes espalhados por toda a série, que não teriam influência no eixo central do enredo, caso fossem excluídos. As entrelinhas tornam Harry Potter ainda mais atraente e agradável de ser lido.

Sempre me chamou a atenção o papel feminino na série. Sem explicitar os fatos, Jo Rowling incluiu em sua série uma participação maciça das mulheres em cargos de grande importância. No mundo dos bruxos, elas são ministras da Magia, chefas do Hospital St. Mungus, diretoras de Hogwarts. Não há entre os personagens qualquer comentário citando o fato de uma mulher estar num cargo alto como algo “diferente”; há séculos, elas têm a mesma importância no mundo da magia. No Brasil, foi preciso que se passassem algumas décadas até que uma mulher ocupasse a presidência da República, e ainda assim, a representação feminina no Congresso Nacional segue acanhada. Não é preciso vir ao Brasil para constatar que os homens ainda são mais presentes: na própria Inglaterra, a política é majoritariamente dominada por eles. Contudo, logo ali ao lado, no universo criado por Jo, a presença feminina é marcante e natural.

Longe dos livros, em seu site na internet, a autora manteve atualizada por muito tempo a seção “bruxo do mês”, na qual dividia grandes feitos do mundo da magia entre homens e mulheres. Segundo o portal, Mnemone Radford, por exemplo, foi a primeira obliviadora do Ministério da Magia, nascida em 1562. Jocunda Sykes, nossa contemporânea, foi a primeira pessoa a atravessar o Oceano Atlântico numa vassoura. Por outro lado, em Hogwarts, duas das quatro casas foram fundadas por mulheres, justamente as que têm como características mais marcantes a inteligência e a lealdade: Corvinal e Lufa-Lufa.

Em sua peculiar forma de igualar homens e mulheres, Jo Rowling não se abstém de incluir em seus livros as vilãs, das mais diversas espécies. Temos Belatriz Lestrange, que fascina milhares de fãs ao redor do mundo, cuja lealdade a Voldemort se manteve o tempo todo intacta. Belatriz é de fato uma personagem única; até sua morte, ela se manteve do mesmo lado; talvez o fato de ser leal seja justamente o que a faz ter tantos fãs. Ela, contudo, pratica durante toda a série as crueldades mais indignáveis. É ela quem mata Sirius Black, o que lhe causou, digamos, alguns desafetos entre os leitores. Em “As Relíquias da Morte”, Belatriz protagoniza aquela que foi uma das passagens mais eletrizantes de toda a série: a tortura de Hermione na mansão dos Malfoy. Tanto no livro quanto no filme – que é o meu preferido entre os oito gravados – é possível que cada fã tenha sentido sua dor. Eu, que tenho uma identificação especial com Hermione, me senti mal por ela de forma ainda mais incisiva. Ao final, Belatriz é morta ao tentar assassinar Gina Weasley, como sabemos, naquela que se tornou uma das frases mais famosas dos sete livros, dita por Molly Weasley, que foi quem a matou, para deleite dos fãs: “Not my daughter, you bitch!”

Dolores Umbridge guarda a vilania como única semelhança com Belatriz Lestrange. Ao contrário de Bella, Umbridge foi concebida para ser detestada. Seu caráter discutível, o fato de que, para se dar bem, ela se aliava a quem quer que fosse, seu desembarque conturbado em Hogwarts, enfim. Haverá poucos fãs que declaram gostar de Umbridge. Ela nunca foi de fato uma comensal da morte, mas talvez, se assim lhe conviesse, ela seria. Isso faz de Umbridge uma personagem absolutamente sem lealdade, seja para o bem ou para o mal. Detestável.

Há, ainda, outras vilãs como Narcisa Malfoy, e a própria Tia Petúnia, para quem assim quiser considerá-la. Ambas, contudo, movem-se em determinados momentos pelo amor de mãe, uma característica unicamente feminina. Narcisa, inclusive, divide opiniões com sua atitude ao salvar a vida de Harry visando a de seu filho Draco.

No lado do bem, a presença feminina é abundante: Molly e Gina Weasley, Ninfadora Tonks, Minerva McGonagall, Fleur Delacour, Luna Lovegood e Hermione, é claro, são apenas alguns exemplos que podem ser citados como as grandes mulheres da série. Todas tiveram importância crucial na vida de Harry, e de igual forma, todas puseram suas vidas em perigo em prol de uma causa muito maior. Mais que isso, Jo Rowling imprimiu características únicas a cada uma delas. Não importa qual tenha sido seus destinos ao fim: seus papéis foram cruciais.

Mais do que introduzir de modo natural a marca das mulheres em sua série, Jo extingue preconceitos que estão profundamente enraizados em nossa sociedade; o machismo é um deles. Não me aventuro a dizer que, entre os bruxos, o machismo inexista. Contudo, diante de tantos exemplos e constatações, pode-se concluir que é muito menor. Nós não somos capazes de realizar feitiços na vida real. Mas somos perfeitamente capazes de compreender algumas lições que nos são passadas pela Jo. O preconceito nunca deve imperar entre aqueles que defendem o bem. Mais uma vez, Joanne Rowling mostra-se grandiosa e genial. Como sempre.

Luiz Guilherme Boneto adora todas as mulheres. Mas ama J.K. Rowling.