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Helena Boham Carter em entrevista com Daniel Radcliffe

Daniel Radcliffe sentou-se com sua amiga e ex-companheira de filmagens Helena Boham Carter, para a edição de maio da revista Interview, onde eles conversaram sobre diversos assuntos.

A experiência e humildade de Helena, a gentileza de Daniel, uma conversa com tudo para dar certo, onde eles discutem a família, carreira, moda, trocam lembranças dos sets, e falam sobre os novos projetos da atriz, como o filme Sombras da Noite, do diretor e marido Tim Burton, e Grandes Esperanças, de Mike Newell.

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Você pode encontrar a entrevista traduzida na extensão. Para mais novidades, é só permanecer ligado no Potterish!

HELENA BOHAM CARTER E DANIEL RADCLIFFE
Helena Boham Carter por Daniel Radcliffe

Interview Magazine
05 de maio de 2012
Tradução: Marina Anderi e Mari Trevisan

Em Uma Janela Para o Amor (1985), Helena Bonham Carter, na época com 19 anos, teve um desempenho marcante como Lucy Honeychurch, a melancólica heroína de E.M. Forrester’s que escolhe entre amor e propriedade na Inglaterra Eduardiana. A jovem atriz, com seus grandes olhos, vestidos escuros e pele leitosa, trouxe perfeitamente à vida personagens tão literários como Lucy (sem falar das trágicas adolescentes Lady Jane Grey e Ophelia) que ela rapidamente se tornou o exemplo de protagonista dramática da época. Mas pelo final dos anos 90, Bonham Carter começou a interpretar personagens que não eram desse tipo, assumindo papéis consideravelmente mais rápidos e ousados do que as damas de lábios rosados de sua fase mais convencional de espartilhos. Quanto mais danificada a personagem, quanto mais desafiadoras as condições, melhor – ao menos é isso que Bonham Carter parecia estar falando ao pegar o papel de uma paraplégica em Livre Para Voar (1998), ao lado de seu namorado na época, Kenneth Branagh. No ano seguinte, de cabelo espetado e sendo uma fumante inveterada, ela interpretou o interesse amoroso, de Brad Pitt/Tyler Durden, de Edward Norton em Clube da Luta (1999) de David Fincher. Para esse papel, a atriz nascida em Londres demonstrou sua boa vontade em ficar mais obscura e um pouco maníaca. Faz também parte de seu charme ela não ter medo de ficar com aparência grotesca ou até ridícula. Pense no conjunto de dentes falsos que ela usou como a malvada Belatriz Lestrange nos filmes de Harry Potter. Ou sua complacência em se transformar em um primata, como fez para Planeta dos Macacos (2001), um filme que, embora não um marco alto em sua carreira, sinalizou o início de sua contínua relação profissional e pessoal com o diretor, Tim Burton. Em Bonham Carter, Burton achou a perfeita musa para a maliciosa e macabra fantasia fictícia. Na última década eles fizeram sete filmes juntos – e em mais do que alguns desses filmes as personagens de Bonham Carter tiveram um toque de loucura. Na verdade, algumas delas foram francamente assustadoras, como em Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007), onde interpretou a cúmplice do barbeiro, a cozinheira de tortas Sra. Lovett, e em Alice no País das Maravilhas (2010), como a Rainha vermelha.

Maldade sendo deixada de lado, a fascinante volúpia de algumas personagens de Bonham Carter nas telas não é tão diferente de seu estilo infame e extravagante na vida real. Seu gosto por se vestir de forma excêntrica, com vestes com várias camadas, tem por anos dado a ela lugar na lista dos melhores – e piores – vestidos. Como uma indicada para melhor atriz no Globo de Ouro de 2011 por seu trabalho em O Discurso do Rei, Bonham Carter andou pelo tapete vermelho usando um vestido cavado Vivienne Westwood com um tule florido e usando sapatos de cores diferentes: um vermelho e o outro verde. Previsivelmente, esse tipo de atitude irreverente teve sua partilha de depreciadores, mas foi precisamente esse estilo não-estou-nem-aí que inspirou Marc Jacobs a chamá-la para ser o rosto de sua campanha Outono 2011.

A última colaboração de Bonham Carter com Burton é o novo filme Sombras da Noite. O filme, que entra em cartaz esse mês, é baseado numa novela gótica do fim dos anos 60 de mesmo nome, e conta a história de um vampiro de 200 anos (interpretado por outro regular de Burton, Johnny Depp) que volta para casa para descendentes tão profundamente problemáticos que eles convidaram uma psiquiatra com problemas de bebida (Bonham Carter) para morar com eles.

Que ela esteja interpretando uma rosa inglesa ou uma bruxa sadomasoquista, Bonham Carter nunca deixou de ser interessante – como seu colega de elenco de Harry Potter, Daniel Radcliffe, sabe bem. Radcliffe visitou Bonham Carter, de 45 anos, em uma das duas casas que ela divide com Burton e seus dois filhos em Londres.

DANIEL RADCLIFFE: Você tem uma família de sucesso.

HELENA BONHAM CARTER: Você acha.

RADCLIFFE: Bem, você é descendente de um Primeiro Ministro, de vários políticos e de um influente diretor. E seu avô materno era um diplomata espanhol que ganhou o prêmio Righteous Among the Nations, o que é maravilhoso. E sua mãe é uma psicoterapeuta.

BONHAM CARTER: Uau. Você sabe mais do que eu.

RADCLIFFE: Mas esse meio social intelectual – como isso te iniciou? Porque você começou jovem.

BONHAM CARTER: Não teve nada a ver com de onde eu venho, no sentido de que minha mãe e meu pai nunca chegaram a nos pressionar de qualquer maneira. Não havia expectativas, o que foi ótimo. Mas eu era incrivelmente auto crítica e determinada. Graças a Deus eu me tornei menos auto crítica com o passar dos anos.

RADCLIFFE: Você se tornou menos assim mesmo? Isso acontece aos poucos?

BONHAM CARTER: Ah sim. Não se preocupe. É tão melhor quando você envelhece.

RADCLIFFE: Ah, graças a Deus.

BONHAM CARTER: Eu acho que você se desgasta fisicamente. Mas mentalmente, é tão mais
fácil.

RADCLIFFE: Eu com certeza sofro de um leve complexo de inferioridade quando entro num cômodo em que estão outros atores com qual nunca atuei, acho que você nunca fez isso.

BONHAM CARTER:Ah, eu tinha um grande complexo de inferioridade até ontem.

RADCLIFFE: Mas não hoje!

BONHAM CARTER: Todo mundo tem um complexo de inferioridade quando entram nunca cômodo. Mas quando você tem crianças e envelhece, isso não importa muito. Quando eu era jovem eu tinha muitos complexos de inferioridade. Eu tinha um porque não fui para a universidade. Eu tinha outro porque não treinei. Então isso fica cansativo. E você fica cansado.

RADCLIFFE: Certo. E então esse cansaço é na verdade o que finalmente te leva a dizer, “Ah,
dane-se.”

BONHAM CARTER: “Dane-se” é minha filosofia de vida.

RADCLIFFE: Penso que as pessoas veem sua carreira como quase ter duas partes, uma em que você interpretou esse tipo de ingênua. E então há a percepção de que na época em que você conheceu Tim [Burton], você começou a ficar estranha. Mas eu sei que você já era estranha bem antes disso.

BONHAM CARTER: Eu era estranha desde o início. É só que você não pode nunca esperar que as pessoas te entendam. E eu acho que isso realmente mexeu com a minha cabeça, sendo famosa enquanto jovem, quando você ainda não sabe quem é. Veja o quão ridícula eu era: algumas vezes eu leria um perfil escrito sobre mim para ver como eu era descrita e eu diria, “Oh, essa é quem eu sou?” Você nunca deve colocar sua auto definição nas mãos de alguém que te conhece há 15 minutos.

RADCLIFFE: Representar o mesmo tipo de papel é uma coisa estranha. Todas as personagens não são a mesma coisa. É muito fácil dizer que alguém é escolhido dessa forma.

BONHAM CARTER: Todos aqueles dramas de época usando espartilho. Mas o que foi muito bom sobre esses papéis é que eles vieram todos de romances. Eles forneciam, instantemente, uma caracterização mais sutil. Lembro que meu agente disse, “Você não pode fazer Por Onde os Anjos Não Passam [1991] e Retorno a Howard’s End [1992].” Eu respondi, “Por que não? Mostre-me um papel melhor.”

RADCLIFFE: A sua personagem em Harry Potter, Belatriz Lestrange, é uma das personagens mais assustadoras nos livros. Mas acho que é justo dizer que ela é muito divertida e bastante sexy também.

BONHAM CARTER: Quando eles me mandaram o papel, eu pensei, “O que vou fazer aqui?” Porque, na verdade, na página, ela não estava realmente lá, então pensei, “Bem, você tem de ser notada.” E Belatriz – as crianças morriam de medo dela. Então penso, “Tudo bem, tenho que ser assustadora.” Mas também, se você está com crianças, você quer se divertir sendo má.

RADCLIFFE: Você acha que tira muita inspiração de crianças? Porque eu tiro. Elas são muito honestas em como atuam e como são no mundo.

BONHAM CARTER: Oh, sim. Elas são. E também acho que há muito de Peter Pan em mim de qualquer forma. Eu nunca realmente quis crescer. Eu cresci muito jovem. Eu saí de casa quando tinha 13 anos – isso foi quando comecei a atuar. Papai estava muito doente – ele estava quase paralisado – então houve uma parte de mim que sentiu que eu deveria me tornar responsável.

RADCLIFFE: Você pensou que tinha de proporcionar. Ou ajudar, ao menos.

BONHAM CARTER: Sim. Eu estava tentando compensar pelo que aconteceu com ele. Eu não estava nem consciente disso. Tinha muito de uma vida sofrida porque ele estava paralisado. Eu achei que se eu fizesse algo, melhoraria a situação de alguma forma.

RADCLIFFE: Você provavelmente ajudou a melhorar em alguns aspetos.

BONHAM CARTER: De certa forma, ajudei.

RADCLIFFE: Você tem tido uma vida maravilhosa, e o que quaisquer pais querem mais do que estar extremamente orgulhosos de seus filhos? Ah, e falando nisso, parabéns. Você ganhou um BAFTA ano passado por O Discurso do Rei.

BONHAM CARTER: Obrigada.

RADCLIFFE: Isso é muito emocionante, e você estava aterrorizada antes do filme. Você estava filmando Potter e O Discurso do Rei ao mesmo tempo. Você estava trabalhando em dobro.

BONHAM CARTER: Eu estava trabalhando em dobro. Eu nunca realmente disse sim àquele filme. Eu disse não tantas vezes. [Diretor] Tom Hooper é implacável, então se ele quer algo, ele vai conseguir. Você acaba dizendo, “Ah, tudo bem, farei o filme.”

RADCLIFFE: Sério? Só por persistência?

BONHAM CARTER: É apenas mais fácil – e também o filme já tinha começado a ser filmado. Mas sabe, meu filho Billy perguntaria, “Você terá de ser a bruxa ou a rainha amanhã!” Eu pensei, “Bem, essa é bem mesmo minha vida.”

RADCLIFFE: Você tem de ser a bruxa ou a rainha amanhã – uma decisão a tomar. Quando pus o gravador na sua mesa, peguei uma pilha de correspondência, e o título do livro que estava embaixo da pilha foi revelado: What’s a Poor Girl to Do? Prostitution in Mid-Nineteenth Century America (O Que Uma Pobre Garota Pode Fazer? Prostituição na América no Meio do Século XIX).

BONHAM CARTER: [pronúncia do sul] Se tudo de errado, esse é meu plano reserva.

RADCLIFFE: Esse é seu acento sulista?

BONHAM CARTER: É por uma parte. Você tem de pesquisar coisas assim. Uma ótima coisa sobre nosso trabalho é que nos faz fazer coisas que normalmente somos muito preguiçosos para fazer. Estou orgulhosa de mim mesma por finalmente estar fazendo aulas de sapateado. Isso estava na minha lista de resoluções do Ano Novo. Eu pensei, “Apenas faça! Quando você vai arranjar tempo?”

RADCLIFFE: Absolutamente. E há um monte de pisos de madeira nessa casa, então você pode praticar. Qual a sua relação com musicais? Você cresceu ouvindo-os?

BONHAM CARTER: Eu amo musicais. Honestamente, eu sempre quis fazer um musical, e eu
sempre quis ser a Sra. Lovett [o papel dela em Sweeney Todd], então quando Tim disse, “Vou
fazer Sweeney Todd, mas você pode fazer uma audição se quiser, sabe…”

RADCLIFFE: Eu me lembro de você praticando seu canto.

BONHAM CARTER: Sim, você estava lá!

RADCLIFFE: No quinto Harry Potter filme. Eu me lembro pensando, “O que vai acontecer com Tim se ela não conseguir o papel?” É importante dizer que você também estava fazendo audições para [Stephen] Sondheim [um co-autor do musical original que foi consultado para o filme de Burton]. E isso é incrivelmente difícil. Como foi a experiência?

BONHAM CARTER: Foi um dos piores aborrecimentos do nosso casamento. Não que sejamos casados, mas é muito difícil-

RADCLIFFE: Ah, vocês não são casados?

BONHAM CARTER: Não, na verdade. Não através de qualquer tipo de… Mais por preguiça, na verdade.

RADCLIFFE: Bem, filhos são um grande comprometimento, não são?

BONHAM CARTER: É, nossas casas são casadas.

RADCLIFFE: Sim! O que eu amo. O interessante de quando eu falo sobre isso com as pessoas da minha idade, elas ficam, “Isso é um pouco estranho.” Eu conto para as pessoas que têm filhos, e eles ficam com tanta inveja! [os dois riem] Eles estão todos incrivelmente com inveja de sua situação.

BONHAM CARTER: É bem legal de se ter. [em um sotaque sulista] Se você pode sustentar ter duas casas unidas…

RADCLIFFE: Não parecem duas casas. É uma ótima ideia – vocês dois obviamente precisam do seu espaço.

BONHAM CARTER: Você definitivamente precisa de seu espaço.

RADCLIFFE: Isso é tão brilhante. Então, você pode falar sobre Sombras da Noite? Porque eu não conheço realmente a série—

BONHAM CARTER: Eu não a conhecia. Eu sabia que Tim costumava correr para sua casa quando ainda era estudante para assistir Sombras da Noite, que era essa novela – meio que uma novela gótica – bem de baixa qualidade, mas tudo acontecia por volta de 1970. É basicamente sobre Barnabus Collins, um vampiro infeliz — um vampiro relutante.

RADCLIFFE: Ah, legal! E você interpreta a Dra. Julia Hoffman?

BONHAM CARTER: Eu interpreto a psiquiatra residente, que é alcoólatra. E tem essa família estranha… Barnabus Collins é ressuscitado de seu caixão e volta para sua família. Ele esteve longe por 200 anos. E acho que a Michelle Pfeiffer é sua sobrinha-neta por sete vezes.

RADCLIFFE: Excelente.

BONHAM CARTER: Foi um pouco preocupante quando eu li , porque há uma parte sexy entre bruxas. No começo do filme, antes da distribuição dos papéis, Tim disse, “Acho que devíamos parar um pouco, porque você trabalha com todos esses outros diretores, mas nunca com atores diferentes.” Eu disse, “Tudo bem, entendo perfeitamente. Vamos ser maduros sobre isso”. E então [o produtor] Dick Zanuck – ele é um homem maravilhoso. Tem 77 anos, é o filho de Daryl Zanuck, e ele produziu sons, sensações – Tubarão, A Noviça Rebelde; quer dizer, ele é uma lenda. Então estou no tapete vermelho do Globo de Ouro, infelizmente vestida de modo casual, e Dick se aproxima –

RADCLIFFE: Ah, foi por isso que você usava sapatos diferentes?

BONHAM CARTER: Sim. Mas sabe, foi bom, porque o que fazer para andar no carpete por uma hora e meia? Então eu pensei, dane-se. Olhei o vestido e pensei, vai ser bem recebido, então vamos nos distrair. Pelo menos dá para ter um pouco de controle, entende?

RADCLIFFE: Francamente, isso é inspirador.

BONHAM CARTER: Então o Dick chega até mim e diz, “Você leu o texto?” e eu digo, “Sim, mas ele não quer que eu esteja no elenco.” “Não, não. Você vai ser a médica… ” eu respondi, “Angélique, a bruxa sexy, certo?” ele disse, “Não a Angélique. Você vai ser a Dra. Hoffman.” A Doutora Hoffman! Uma psiquiatra alcoólatra.

RADCLIFFE: Muito bem, então você tinha visto as outras atrizes?

BONHAM CARTER: Bom, sim, porém eu também pensei: “O que uma psiquiatra alcoólica tem que te faz pensar na Helena?”

RADCLIFFE: Então, estou intrigado. Como é se você tem um dia realmente ruim no set? será que é isso que faz o fato de ter duas casas fantásticas? Tenho certeza que sim. Por que eu não gostaria de voltar para casa com diretores.

BONHAM CARTER: É. Ele é muito estressado. Diretores são estressados. O nível de stress – é uma batalha. Quero dizer, tudo o que pode dar errado, dá errado. Mas mesmo assim, o bom de trabalhar com o Tim – quando você está envolvido com ele – é que eu posso ver que ele está se divertindo no set. Mas se eu não pudesse ir no set, acharia, por seis meses, que ele era suicida.

RADCLIFFE: Certo. É sempre muito sexy, muito atraente, ver a pessoa que você ama se dar bem em seu trabalho.

BONHAM CARTER: Eu sei. Eu amo isso. É ótimo. É algo muito saudável de se fazer, de vez em quando. Por que, de outro jeito… ele não sabe cozinhar, mas é ótimo para dirigir filmes.

RADCLIFFE: Ele não é muito útil em casa, mas sabe fazer filmes bons.

BONHAM CARTER: E eu penso, “Oh, porque você trabalha com ele mesmo?” Mas faz sentido para mim. Tive dois filhos com esse homem. Não faz sentido algum ir ao outro lado do mundo para fazer alguma outra coisa.

RADCLIFFE: Não, faz muito sentido!

BONHAM CARTER: E também, ele é o Tim Burton. Ele é um gênio. Você não pode lhe dar o fora só porque você sai com ele e tiveram dois filhos.

RADCLIFFE: Não, com certeza.

BONHAM CARTER: Seria loucura.

RADCLIFFE: E esse seria um motivo bizarro.

BONHAM CARTER: Seria perverso.

RADCLIFFE: Com certeza.

BONHAM CARTER: Seria completamente errado – e estúpido.

RADCLIFFE: Absolutamente estúpido. E agora, voltando ao que você disse sobre os Globos de Ouro, e os seus sapatos que não combinam: moda. Você esteve trabalhando com Juergen Teller?

BONHAM CARTER: Para a Marc Jacobs. Foi o resultado desses dois sapatos.

RADCLIFFE: Mesmo?

BONHAM CARTER: Marc disse “Vamos deixá-la usar sapatos diferentes.” Juergen Teller é um fotógrafo fantástico. Ele é brilhante.

RADCLIFFE: Uma das poucas coisas que eu odeio no meu trabalho são as sessões de foto quando você está posando, eu sempre acho que você se sente meio idiota.

BONHAM CARTER: Bom, sabe o que era bom com Juergen? Ele é tão rápido. Nós só colocamos um pouco de música para tocar e dançamos. Eu tenho sido tão fotografada que agora sinto que fiz bem todas as expressões.

RADCLIFFE: Há um número finito de rostos.

BONHAM CARTER: Há um pequeno número de rostos, e eu não quero me tornar super ciente do que causa uma boa impressão porque pode ser criativo se você tem um bom fotógrafo. É um relacionamento. É muito instigante. É como dançar com alguém.

RADCLIFFE: Você poderia se descrever como ser no mundo da moda? Sei que você tem um estilo muito próprio , é claro.

BONHAM CARTER: Tudo que eu gosto é de me vestir. Eu amo me vestir. É como o que fazemos para nosso trabalho, somos pagos para nos vestirmos. Então eu continuo fazendo isso em minha vida, e quando me visto um pouco, a roupa muda meu humor. Acho que eu me transformo em outra pessoa, aí você pega a foto e diz “Não é bem isso que eu imaginava…”. É a decepção depois. É por isso que parei de me ver porque para mim, “Eu ainda sou eu mesma!”

RADCLIFFE: Fale sobre a sua ponta em Grandes Esperanças [adaptação do diretor Mike Newell que logo estará disponível]

BONHAM CARTER: Senhorita Havisham – quer dizer, é fantástico. Eu fiz por causa do vestido,
também. É porque ela, a Senhorita Havisham, é a noiva. Foi um pequeno cachê – eu amei, no entanto. E eu adoro o Mike e a energia que ele tem.

RADCLIFFE: Ele é o homem mais inglês que você vai conhecer, de certo modo. Então você fez o
papel só por causa do vestido? É a história de uma mulher que está sempre com um vestido de noiva.

BONHAM CARTER: Sempre esperando, sim. Ela levou um fora. E ela fica em seu vestido de noiva só esperando, esperando.

RADCLIFFE: Você vai ser muito incrível como ela.

BONHAM CARTER: Bom, eu realmente amei. É engraçado, por que eu nunca quero me repetir – e eu pensei. Ah, é só uma versão mais velha da Belatriz, sem o cabelo. Mas você sempre começa às avessas.

RADCLIFFE: Você conseguiu tirar o melhor desses personagens impactantes.

BONHAM CARTER: Eu espero. Pois isso é tudo que posso fazer.

RADCLIFFE: Vale a pena contar para o leitor o motivo pelo qual eu e você nos conhecemos um pouco mais, eu conheço um monte de outros atores porque as mesmas pessoas fizeram nossos cabelos e maquiagem todos os dias, então estaríamos trocando de lugar.

BONHAM CARTER: E tem as histórias e muitas outras coisas. Eu fiquei uma boa parte do tempo me certificando que ninguém iria entrar, para que você pudesse dar uma espiada para fora da janela.

RADCLIFFE: Essa é outra pergunta meio chata – as pessoas sempre estiveram te perguntando as mesmas coisas monótonas que me fazem sobre ser estereotipado.

BONHAM CARTER: Eu sei…

RADCLIFFE: É um teste de persistência.

BONHAM CARTER: É só teimosia, isso é tudo.

RADCLIFFE: E é a persistência e a constante busca por boas pessoas para se trabalhar, e você pode olhar para trás e ver que você tem um grande currículo que mostra uma imensa versatilidade.

BONHAM CARTER: Bom, veja, você pode surpreender as pessoas com muito mais facilidade se elas pensarem que sabem tudo sobre você. É na verdade uma ótima posição para se estar. Eles acham que sabem tudo sobre você, mas você tem espaço suficiente para manobrar. Você pode fazer tudo o que quiser. Você pode se reinventar totalmente – ou não.

RADCLIFFE: Para mim, parece ser sobre acostumar plateias a me verem em coisas diferentes. Nunca vai ter uma parte que vai me separar totalmente dos 10 anos na parte que eu amei, entende? E eu nunca iria querer ficar totalmente separado dela.

BONHAM CARTER: Acho que com o passar do tempo você irá, querido.

RADCLIFFE: Mesmo?

BONHAM CARTER: Honestamente, as pessoas têm memória muito curta. Com certeza.

RADCLIFFE: Aí é que está. Acho que isso acontece com a maioria das pessoas. Em 10 anos,
espero, vou ser apenas outro ator aparecendo em filmes.

BONHAM CARTER: Você vai ser diferente. Você vai ser diferente daquele que você era. Você está crescendo constantemente. Você sempre terá sua juventude, no entanto, se você quiser. Mas você pode consolidar. Você pode mudar de direção. Não importa. Mas o melhor é que você faça isso porque ama.

RADCLIFFE: É isso mesmo. E ultimamente, eu não acho que vou parar de amar logo.

BONHAM CARTER: Não. Pode ser que sim. Você pode acabar dirigindo.

RADCLIFFE: Eu adoraria.

BONHAM CARTER: Você tem muita energia, eu suspeito, só para atuar. E a sua escrita?

RADCLIFFE: Eu continuo, com certeza. Estou trabalhando numa ideia para um script no momento.

RADCLIFFE: O que você gostaria de fazer no seu tempo livre?

BONHAM CARTER: No meu tempo livre? Aprender sapateado. Fazer alguma coisa com as crianças. Criar vínculos. Lembrá-los, “Oi, eu sou sua mãe”. [risos] O tempo livre é para ser gasto com as crianças, é claro, mas se eu tiver tempo livre sem elas, eu não sei.

RADCLIFFE: Você acha que ter filhos te deu uma boa desculpa para jogar muitos jogos que você nunca quis parar de jogar, mas a sociedade diz que você deve?

BONHAM CARTER: Sim. Você realmente volta no tempo. Acho que se você tem um filho, você tem que mostrar-lhe como amar a vida e que coisas boas se tem para fazer – você sabe, o pedacinho perfeito. É isso que eu realmente gosto de mostrar a eles. Como você faz o pedacinho perfeito? Texturas diferentes, temperaturas diferentes – sorvete e chocolate quente. Então gostamos de fazer poções misturando tudo. Eu amo isso. E amo o que recebo de volta deles, que é imaginação e brincadeira.