Artigos ︎◆ Parte 2

Um toque a mais

No último mês, a segunda parte cinematográfica de “Relíquias da Morte” foi lançada em DVD e Blu-ray, dando-nos uma nova oportunidade para reassistir aos filmes e retomar antigas discussões.

Nosso colunista Luiz Guilherme Boneto agarrou essa chance e nos trouxe um texto com algumas comparações entre estas duas séries que, embora ainda sejam “Harry Potter”, acabam apresentando histórias um tanto quanto… diferentes. Confira a coluna aqui e responda: você imaginava no livro o mesmo que assistiu no filme?

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por Luiz Guilherme Boneto

São poucos os grandes sucessos literários que podem gabar-se de ter ganhado uma adaptação para o cinema. Dentre estes, “Harry Potter” foi um dos únicos que o obteve enquanto a série de livros ainda não estava completa; os filmes acompanharam e, por vezes, quase coincidiram, com o lançamento dos novos volumes. No que tange a adaptar uma série de estrondoso sucesso como esta, cujos fãs são em sua maioria milhões e milhões de jovens conectados à internet, não existe nada mais natural que as famosas e ácidas críticas, às quais eu próprio fiz coro muitas vezes. Hoje, porém, vejo os filmes de “Harry Potter” de uma forma diferente do que via no passado. Eles não foram feitos para desafiar a série literária, mudando fatos do enredo ao sabor do vento; na verdade, os filmes vieram para complementar e abrilhantar ainda mais o grande sucesso chamado “Harry Potter”.

O alcance de qualquer coisa é maior se essa coisa puder contar com imagens. Até 2001, “Harry Potter” não tinha imagens, até porque seus livros não têm gravuras, exceto nas edições americanas, e somente a cada início de capítulo. Mesmo assim, as vendas dos livros corriam numa curva ascendente, num início do glorioso sucesso. Com a divulgação de que “Harry Potter e a Pedra Filosofal” seria lançado nos cinemas em novembro, o interesse pela leitura da série só aumentou, e mais ainda após o tão esperado lançamento do filme. Eu próprio, devo admitir, só me interessei por ler “Harry Potter” no auge dos meus dez anos, após assistir à primeira adaptação para os cinemas. A crítica passou a acolher a série de um modo distinto e a aceitá-la como não mais apenas uma bem sucedida série literária, mas também cinematográfica.

Mas há quem diga: “as mudanças do enredo não se justificam”. Concordo muito com este argumento. Certas alterações no cinema decepcionaram demais. A caracterização de Dumbledore, por exemplo, está muito diferente dos livros; a partir de “O Prisioneiro de Azkaban”, o diretor adotou modos um tanto mais ríspidos, e principalmente, deixou de usar roupas e chapéus coloridas, como Jo o descreve nos livros. Suas barbas e cabelos passaram de prateados a um tom branco-amarelado, diferente do que eu imaginava de Dumbledore, e que era a sua descrição. Do mesmo modo, as aparições de Dobby em “O Cálice de Fogo” foram sumariamente excluídas do filme; quem deu a Harry o guelricho para sobreviver no fundo do lago foi Neville, e não o elfo, como acontece no livro. Há ainda quem pense que Voldemort e Belatriz não deveriam ter se desintegrado ao morrer no último filme, mas simplesmente caído no chão; eu próprio ouvi no cinema muitos comentários enraivecidos quanto a isso. Estes fatos e cenas estão entre tantos fatores alterados e cortados nas adaptações. Para um fã de carteirinha, é muito frustrante ver o livro lido e relido ser mudado, e os produtores de cinema devem entender o nosso comportamento. Afinal, quando vamos ao cinema assistir aos filmes, temos a ideia fixa de ver o produto de nossa imaginação retratado numa tela gigante. O que é preciso entender, contudo, é que cada um tem o seu modo de imaginar um determinado personagem, cenário ou passagem, ainda mais num livro que, como eu já disse, não conta com gravuras para auxiliar nesta tarefa (ainda bem). Se eu imagino as orelhas de Dobby muito grandes, por exemplo, e outro as imagina muito pequenas, decerto um de nós vai ficar decepcionado ao vê-las de modo diferente. Os diretores de cinema, acreditando justamente nisso, creio, e levando para as telas aquilo que julgam ser melhor, fazem cortes e alterações. Não sei o que levam exatamente em consideração ao fazê-lo porque não sou do meio, mas diferentemente do que eu fazia há pouco tempo, hoje creio que os cortes foram feitos porque se acreditava, por alguma razão, que seria melhor assim.

Seria difícil imaginar o que seria de “Harry Potter” sem o cinema. Provavelmente teria continuado a vender livros como água, porém certamente a série não seria tão completa como é hoje. As adaptações da série são um toque a mais no enredo encantador que enfeitiçou milhões de pessoas. Certa vez, J.K. Rowling declarou que Hogwarts sempre estará logo ali, para nos dar as boas vindas de volta para casa. Os filmes são mais uma oportunidade de recebê-las de coração, sensacionais, como só “Harry Potter” consegue ser.

Luiz Guilherme Boneto tem uma imaginação cinematográfica.