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A busca pelo paraíso perdido na fantasia

C.S. Lewis estabeleceu uma orientação moral e religiosa dentro da literatura britânica com seus livros infantis sobre o mundo de Nárnia, publicados nos anos 50. Quase 40 anos depois do último livro de Lewis ser lançado, Philip Pullman, com sua trilogia Fronteiras do Universo, rompe essa orientação.

[meio-2]Uma história dividida em três livros, repleta de ação, magia e personagens complexos que evoluem ao longo de suas experiências. Ciência, religião, bruxas boas escassamente vestidas, religiosos perversos, crianças mal comportadas que se transformam em heroínas, espectros, anjos rebeldes, mundos alternantes e toda sorte de criaturas estão envolvidos numa guerra que pode desmantelar a Criação e derrotar o próprio Deus. Uma temática bastante forte, sem dúvida. Quem vence? Só lendo a resenha de Natallie Chagas para saber!

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“A Bússola de Ouro”, “A Faca Sutil”, “A Luneta Âmbar” – Trilogia “Fronteiras do Universo”, de Philip Pullman

Tempo: para ler de um tiro só no fim de semana
Finalidade: para ficar na ponta da cadeira
Restrição: para quem não gosta de coisas moderninhas
Princípios ativos: fantasia; ciência; religião; Deus; magia.

Roger é amigo de Lyra. Seu desaparecimento leva a menina e seu dimon, Pantalaimon, a procurá-lo. Eles viajam para os reinos frios do Norte, onde vivem ursos de armaduras e bruxas-rainhas voam pelos céus congelados. Lyra possui um aparelho que auxiliará na missão, caso ela consiga decifrar suas mensagens misteriosas. Mas o equipamento contém segredos assustadores sobre a viagem e os perigos que os esperam em mundos distantes.

A leitura de “A Bússola de Ouro” prende a atenção do leitor desde o início. A história começa em Oxford, mas uma Oxford de outro mundo, que eu, particularmente, adoraria conhecer. A narrativa começa devagar, mas já com um “quê” de mistério, mencionando o Pó. No decorrer do livro, o leitor percebe que Lyra também tem um papel muito importante, tipo “a criança prometida ou esperada” ou algo assim. É uma obra cercada de motivos e temas cristãos, e faz uma alusão a uma parte da história da Criação presente em várias culturas: a guerra de um anjo (conhecido depois como Lúcifer) contra Deus e sua queda. Philip Pulman demonstra o mal que existe em cada ser humano ao colocar como pretenso destruidor da Autoridade (Deus) um homem. Poderoso, inteligente, com um ar belo e cativante, sim, mas somente um homem. É uma história que, como eu disse, prende a atenção do início ao fim, e que também emociona.

Will Parry tem 12 anos e acabou de matar um homem. Agora está fugindo, decidido a descobrir tudo sobre o pai que não conheceu. Ao mesmo tempo, tem que se preocupar com a mãe, que sofre de algum tipo de distúrbio. Sem querer, atravessa uma janela que dá para outro mundo, não a Oxford de Lyra, mas um lugar totalmente desconhecido, onde espectros devoradores de almas assombram as ruas de uma cidade e Lyra está à procura do Pó. Ambos se empenham em buscas diferentes que, sem saberem, estão misteriosamente ligadas.

Ele precisa encontrar um objeto secreto e poderoso, e acaba percebendo que pessoas de mundos diferentes matariam para possuí-lo. A Faca Sutil revela novos personagens e novos mundos, como se fossem dimensões paralelas. As coisas acontecem dentro da Oxford de Will e de Lyra, dimensões coexistentes, mas uma sem consciência da existência da outra. E é isso que Will e Lyra descobrem, ao passarem por mundos diferentes. Claro que o livro mostra Oxfords diferentes e outros mundos também diferentes. Passagens ou aberturas entre esses mundos sempre existiram, e Will, como novo portador da faca sutil (segundo objeto mais importante depois do aletiômetro), precisa aprender a lidar com elas. O leitor, nesse livro, passa a entender mais sobre o Pó. Somado as referências ao pecado primordial e a Eva (principalmente ela), a mente voa porque começa a aparecer uma amizade que pode se encaminhar para algo além entre Will e Lyra.

“A Luneta Âmbar” fecha a trilogia. Lyra desaparece e, em seu encalço, estão: Will, que quer ajudar a amiga; a Igreja, que a considera a nova Eva e, por isso, tenta eliminá-la antes da repetição do pecado original, e Lorde Asriel, comandante de um exército de anjos, humanos e pequenos seres alados que, ciente do poder revolucionário de Lyra, a quer ao seu lado. Se no segundo livro, a referência ao Paraíso Perdido de John Milton fica um pouco evidente, no último, é uma referência clara e total.

Nos livros de Pullman, Deus é chamado de Autoridade, Lyra faz referência a Eva, Will, a Adão, e a Cobra tentadora na árvore é uma cientista (antes, freira) Mary Malone. Lorde Asriel e vários outros personagens, inclusive anjos (referência aos anjos decaídos que acompanham Satã na guerra contra Deus), começam a guerra. O livro não retrata a guerra início-meio-fim, mas o leitor sabe quando começou e terminou. No último livro, há a explicação definitiva do que é o Pó, sua ligação com os dimons, a ligação existente estes e suas crianças (porque eles mudam de forma somente quando seus pares são crianças e quando assumem sua forma definitiva), e a ligação mais importante: entre o Pó, o ser humano enquanto criança e quando adulto e o dimon.

Uma das melhores trilogias que eu já li. Enquanto a coleção de Nárnia fala de Deus e Jesus Cristo, o Salvador, de uma maneira bem sutil, a trilogia “As Fronteiras do Universo” trata do momento da Criação, do pecado original e do anjo decaído de uma forma muito clara. Particularmente, adoro cosmologias e cosmogonias. Um dos meus livros favoritos é O “Silmarillion”, que faz muitas referências ao livro do Gênesis e ao poema O Paraíso Perdido (para quem não sabe, o poema de John Milton fala da queda do principal anjo de Deus, depois conhecido como Satã, e da corrupção de Adão e Eva e sua expulsão do Paraíso). Longe de mostrar que é preciso de intercessores entre o homem e Deus para se resgatar o paraíso perdido por Adão e Eva, a trilogia de Philip Pullman retrata o que seria a ação final do homem para ter o direito de pisar nos jardins do Éden novamente.

Resenhado por Natallie Chagas

429 páginas, Editora Objetiva, publicado em 2009.
*Título original: Northern lights.

359 páginas, Editora Objetiva, publicado em 2009.
*Título original: The subtle knife.

528 páginas, Editora Objetiva, publicado em 2009.
*Título original: The amber spyglass.