As Relíquias da Morte ︎◆ Filmes e peças ︎◆ Parte 2

“Transição para um novo começo” – leia e comente!

Ah! Lá se vão 11 anos… É uma vida! Era a vida de Harry quando o conheci, um menino baixinho, magrela, descabelado, com óculos remendados, joelhos ossudos e uma vida cheia de segredos, com um destino maravilhoso, que eu fui descobrindo como se desvendasse um enorme mistério existencial, enquanto eu vivia no meio do turbilhão da Geração Potter.

Todos nós nos orgulhamos em falar como conhecemos a série, o que significou para nossas vidas, a importância da saga de Harry para nós quando perdemos alguém querido, quando terminamos um namoro, ou da alegria dos amigos feitos pela série, ou dos casamentos (sim! Eu conheço até história de casamento!)… Todos nós nos admiramos, ao olhar pra trás, e perceber quais pessoas nos apresentaram a série, e que não fazem idéia de como mudaram nossas vidas… Mas o que nos une, no fundo, são nossas semelhanças – encontrar, nas linhas escritas por outros, a descrição daquele sentimento quente, confortante, nostálgico, mágico e que na verdade é indescritível: o sentimento que o fã sente por aquilo que ama. E na verdade é este reconhecimento que a Jo alcançou, descrevendo com precisão àquilo que vai às almas dos adolescentes. Ela escreveu, na verdade, uma história universal que todos nós, cada um a sua maneira, viveu. É algo que pode ser apenas vivido, mas nunca totalmente explicado.

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Eu me lembro que foi amor à primeira leitura! Eu era uma criança que amava ler (e sou uma adulta que amo ler atualmente), mas nada tinha me prendido tanto, me cativado, me emocionado de todas as formas – com alegria, encantada com a criatividade que jorravam daquelas páginas, dos sapos de chocolate, dos feijõezinhos de todos os sabores, dos retratos que se mexiam e falavam nos quadros, assim como as fotos se movimentavam, me encantei com as aulas que Harry tinha, com Transfiguração, com Feitiços, Poções, Herbologia, História da Magia… O correio era por coruja, o esporte se jogava montado em vassouras, e existia um Ministério da Magia, uma rua cheia de lojas de varinhas e caldeirões, e um banco pra guardar dinheiro de bruxo! Nossa como eu me cativei com toda essa história. Hoje em dia já estamos tão habituados com esse mundo, que eles já fazem parte de nossos conceitos, que esquecemos como foi gostoso ler todos esses detalhes que fizeram o pano de fundo da série que amamos.

Eu estudava numa escola Waldorf – estudei a vida inteira em uma escola Waldorf – e lá tínhamos vivências com plantas e terra, com animais, e as matérias como Geografia, Matemática e História são passadas de formas tão lúdicas e gostosas que eu sentia que Hogwarts era muito parecida com minha escola, com a diferença de que na escola de Harry se faziam mágicas de verdade – contudo facilmente eu conseguia imaginar Herbologia e Trato das Criaturas Mágicas. E na escola eu já havia escutado, desde criança, várias histórias que envolviam bruxas e magia, e depois lendas gregas e nórdicas com os animais mitológicos – portanto já conhecia os hipogrifos, as fênix, os dragões, as sereias, já havia ouvido falar da Pedra Filosofal e dos alquimistas reais, conhecia os castelos medievais, conhecia elfos e fadas, também conhecia as histórias do Rei Arthur e do mago Merlin… Mas era a primeira vez que aparecia uma história onde contava que havia bruxos e bruxas do Bem, onde todos os elementos mágicos de várias histórias e lendas estavam juntas reorganizadas de uma forma cativante! E, pelo que parecia, o maior grau honorário de um bruxo era a Ordem de Merlin (preferencialmente a primeira classe), e isso era simplesmente demais!

As minhas férias de verão há mais de 10 anos atrás foram quase que só Harry Potter. Eu ficava horas e horas sentada em minha cama (meio deitada) lendo os livros, e o meu prazer era tão grande que eu ficava corada como se estivesse exposta ao sol, e quente como se tivesse corrido de um lado pra outro durante uma tarde inteira. Lia, lia, lia… Só parava quando minhas entranhas começavam a se contorcer de fome, ou pra tomar banho quando o calor estava insuportável. Quando eu descia pra almoçar minha mãe comentava que escutava uma risada ou outra, e achava engraçado e construtivo que eu estivesse tão empolgada assim com esses livros. Ao terminar o almoço, eu dizia:

– Preciso ir voltar lá pra cima pra ler, parei numa parte muito boa.

Depois de um tempo minha mãe começou a comentar “Pelo jeito todas as partes são boas, por que você sempre diz isso”.

Quando minha mãe e minha irmã subiam pra dormir, eu pegava meu livro e descia pra sala e lia até meus olhos arderem de sono. Normalmente coincidia de os momentos mais aterrorizantes eu ler bem quando estava de noite, e eu estava sozinha. Lembro que nas partes de mistério ou apuros o meu coração batia tão depressa contra minhas costelas que eu era capaz de ouvir as batidas – não precisava das descrições detalhadas de Jo sobre o medo de Harry, por que eu estava me sentindo exatamente igual a ele nessas partes. Eu estava dentro das histórias.

Quando eu estava quase terminando a leitura de Prisioneiro, fui dormir mais ou menos à uma da manhã com a cabeça zunindo porque Perebas era Pettigrew e o responsável por que os pais de Harry tinham morrido. Apenas não agüentei mais e fui pra cama. Levantei às 5h00 morrendo de vontade de continuar a ler e terminei o livro. Então peguei um papel e um lápis e escrevi, pela primeira vez, algo sobre Harry Potter. Escrevi uma “lista de coisas de Harry Potter que seriam legais se existissem” – e nesta lista continham coisas como boneco de Harry, boneco de Rony e boneca de Hermione, mas também continha sapos de chocolate, que contenham algumas figurinhas de bruxos famosos, mesmo que elas não se mexessem como as figurinhas mágicas. A lista também incluía varinha e roupas de bruxos, além de Bicuço, Fawkes e Edwiges de pelúcia… Tudo em sonhos de uma garota de 13 anos, mas eu não sabia o que estava acontecendo no mundo Potter. Eu mal podia imaginar que, de fato, aquela minha lista se realizaria. E comecei a reler o livro quase imediatamente, deliciando-me com o fato de que Harry estudava a Inquisição sobre o ponto de vista dos bruxos, e como havia meios de os bruxos enganarem os trouxas. Deliciava-me com o fato de meu herói ficar feliz que é seu aniversário pela primeira vez… e com todas as cenas tensas entre Rony e Hermione. Eu tinha exatamente a idade deles, havia passado por um ano em que havia MUITA lição de casa, eu passava as tardes estudando e fazendo redações – entendi perfeitamente a Hermione, sabia por que ela estava cansada e estressada e compreendia seu amor por Rony, por que eu era apaixonada pelo meu melhor amigo e tinha um Draco em minha vida, que eu de fato tive coragem e lhe dei um tapa na cara certo dia.

E então havia fixado-se algo que sempre se repetiria – madrugadas lendo, chorando, rindo, tão mergulhada na série como se eu estivesse passando por aquilo que lia. E acredito que estava mesmo. Todos nós, que nos entregamos ao prazer da leitura e nos vinculamos à série com nosso amor, na verdade vivemos tudo com Harry, Rony e Hermione; não realmente, mas psiquicamente, emocionalmente. E isto é de fato uma vivência, especialmente na idade pela qual passamos por isso – a adolescência, quando nosso caráter está sendo moldado pelas emoções (assim como nosso caráter é moldado pelos valores familiares na infância e pelos ideais na vida adulta, são as emoções que nos moldam na adolescência).

“Me diga uma última coisa”– disse Harry – “Isso é real? Ou esteve acontecendo apenas em minha mente?”

“Claro que está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isso significaria que não é real?”

Ouso dizer que, de certa forma, foi tudo real (não, eu não estou louca!)… Mas as emoções que nós vivemos, cada um sabe de si, são ou não são reais? Nossa geração viveu tão intensamente o que essa série causou em nossos corações, em nossas mentes e almas – que, segundo Dumbledore seriam as mesmas coisas – que construímos um mundo maravilhoso, com filmes que se superam a cada ano por uma década, com um Parque Temático e um mundo de comércio, com uma multidão de fãs que levam suas vidas normais, mas que nessa época do ano, chegando ao final de uma Era, sentem o grito sufocado em seu peito – OBRIGADA JO!!! – e mesmo esse grito não é suficiente pra retribuir tudo o que recebemos de bom no dia em que abrimos um livro de Harry Potter pela primeira vez, ou quando assistimos a um dos filmes pela primeira vez, ou qualquer outra forma que a série tenha chegado até nós.

O fim, na verdade, foi em 2007, como muitos fãs tem dito ultimamente. Em 2007, após um espetáculo magnífico e vários dias de luto pelo final da série, eu costumava dizer que ainda teríamos três filmes, o parque temático, a enciclopédia… Que nada havia acabado. Era tudo por que estava querendo adiar esse momento…

Apesar de que sempre amei mais os livros do que os filmes, sempre considerei a série cinematográfica um complemento maravilhoso pro meu amor de fã, seja pra elogiar, pra criticar (coisa que fã adora fazer!); eu sempre senti que existe uma “áurea” boa em torno de Harry Potter, que atraiu pessoas maravilhosas para trabalhar em seu progresso – desde a Jo, até os produtores e atores, todos fãs da série e que trabalharam com amor e dedicação – que, apesar dos cortes e mudanças que nos enfurecem, dá pra perceber o carinho com que cada filme é feito. E o que falar de Dan, Rup e Emma? Os personagens, os atores e os fãs cresceram todos juntos – somos todos a Geração Potter, inclusive eles. Independente das minhas críticas há muitos anos atrás, quando não gostava da atuação do Dan e achava que a Emma fazia uma Hermione patricinha e o Rup fazia um Rony paspalho – coisas fundamentadas para uma fã dos livros – na verdade precisamos agradecer a eles por terem sido fiéis aos personagens que amamos por tanto tempo, dedicando esforços e não largando os filmes no meio do caminho. Alguns podem afirmar que pelo cachê deles seria fácil continuar, mas acho que a Jo tem razão – eles, no final, acabaram apresentando traços dos personagens que interpretaram por tanto tempo, são pessoas sensíveis, alegres, saudáveis, engajados socialmente, com consciência ampla… Enfim!

E entre os fãs resta a dúvida: o que será depois? Esses mega eventos de cosplay, pré-estréias, estréias, grifinórios, sonserinos, lufanos, corvinais, Harrys, Hermiones, Dobbys, Belatrizes, Voldemorts, Lunas, Lupins… O que será depois?
O parque temático abriu no ano passado, e está lá pra quem quiser ir, curtir outro aspecto da série. A enciclopédia não veio, mas veio Pottermore pra maravilhar a todos e qualquer fã obcecado pelos detalhes como eu vai curtir essa novidade gigantesca da nossa “ídala” – mas ficar na internet buscando suculentas informações novas é como ler os livros, ou seja, uma vivência única e totalmente pessoal. E os encontros gigantescos? O fim cinematográfico de uma série que fez mágica na literatura e nos cinemas, sustentando-se por uma década com recordes de bilheterias, se aproxima. Os fãs querem saber se Harry Potter vai se resumir somente a internet.

Pessoalmente, acredito que sempre haverá as convenções – e sempre haverá novos fãs de Harry. Mas ninguém que não curtiu Harry Potter até hoje poderá dizer que fez parte de tudo isso, que acompanhou passo a passo e viveu tudo o que viver num processo pode trazer. Nesta sexta-feira (e alguns felizardos na quinta) estaremos entrando com expectativa em uma sala de cinema pela última primeira vez…

Em um piscar de olhos me vem tantas memórias em minha mente – quando eu lia a série em voz alta para minha irmã mais nova, quando li Ordem da Fênix em inglês por que não agüentava mais esperar pra ler o livro, e só assim aprendi a falar em inglês… Quando fui pela primeira vez num EP, quando fiz cerveja amanteigada e tortinhas de caramelo para meus amigos no meu aniversário, quando comi feijõezinhos de todos os sabores, quando vencia os quizzes (e as perguntas mais detalhadas e absurdas), o Baile de Inverno, o Quadribol, os amigos, os rostinhos de cada um deles, as discussões no Ish e o dia felizardo em que nós defendemos o ship Rony/Hermione… As fanartes que amava ver e descobrir, as fanfics que escrevi tentando descobrir o que aconteceu com meus heróis nesses “19 anos depois”…

Desejo a todos que tenham um filme maravilhoso, que enquanto os heróis defendem Hogwarts na batalha, vocês possam reviver tudo o que os últimos 10 ou 11 anos significaram pra vocês (e na maioria dos casos trata-se de metade das nossas vidas). Como diria uma amiga minha, levem suas toalhas tamanho Hagrid para as salas de cinema… Vocês vão precisar! Basta lembrar-se de Fred, de Lupin e Tonks, de Snape dizendo “olhe para mim”, de Harry entrando na Floresta Proibida sentindo que seu coração quer bater todos os batimentos de uma vida durante o percurso – e os nossos corações o acompanhando no mesmo estado – de Sirius, Lupin, Tiago e Lílian aparecendo, de Neville gritando “Me juntarei a você quando o inferno congelar. Armada de Dumbledore!”… Basta lembrar-se de Alvo Potter entrando no Expresso de Hogwarts e da locomotiva vermelha virando a curva… Sem nos levar junto! Sem nos levar junto!!!

A Geração Potter agora são os jovens adultos, ou os jovens no final da adolescência. Mas cada um de nós carregará Harry Potter consigo para sempre, por que ele é o Menino-Que-Sobrviveu, e como Lupin sabiamente disse, ele “continua a ser um símbolo de tudo por que estamos lutando: o triunfo do bem, o poder da inocência a necessidade de continuar resistindo.”

Nós vivemos num mundo onde os valores estão tão trocados e ressecados e de repente aparece uma série tão mágica, mas que no fundo fala de amor – de amor ao próximo. Se pudermos tentar, minimamente, reconstruir nosso mundo como Harry, Rony e Hermione fizeram, então podemos sentir que carregamos, realmente, um pouquinho da série conosco para sempre. Neste sentido, iniciativas como a HP Alliance são louváveis. E, claro, a Jo não deixa de tocar numa verdade profunda, que é tratada de forma tão superficial hoje em dia – a família é a base da sociedade e se cada fã de Harry Potter tiver um final feliz como seu herói, isto é, filhos e família, e poderem educá-los com os princípios cristãos que a série ilustra de forma tão criativa, então estaremos contribuindo pra próxima geração, fazendo a nossa parte. E nunca deixem de ter esperanças, pois histórias criativas e emocionantes como esta que mudou nossas vidas só são realmente válidas se nos motivam, de alguma forma, a querer transformar aquilo que ainda não está bom. Por isso precisaremos sempre trabalhar e ter esperança.

Um fim sempre é a transição para um novo começo. Lembrem-se que TUDO ESTAVA BEM.

Pratyahara Cottens Mascarenhas, 23 anos, São Paulo – SP.