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Nós já sabemos o final

Meia-noite do dia 15 de julho de 2011. No Brasil inteiro, milhares de fãs tiveram a oportunidade única de desfrutar da última pré-estreia de um filme de Harry Potter. Eu, Bruna Moreno, fui uma delas.

Na minha coluna de hojeque contém um pequeno spoiler para quem ainda não assistiu e outros imensos para quem não leu –, compartilho com vocês um pouco do que vivi ontem na cobertura de Campinas-SP e tento justificar o que leva fãs “doidos”, como eu, a enfrentar uma pré-estreia.

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por Bruna Moreno



Exatos dez anos atrás (sim, não se enganem: Pedra Filosofal estreou em 2001) fui ao cinema pela primeira vez sozinha com minhas amigas. Tomamos para nós toda uma fileira e, no auge da nossa pré-adolescência incontível, (achávamos que) sussurrávamos tudo o que esperávamos encontrar na tela. Lembro-me como se fosse ontem o baque frio no meu estômago ao ver a placa escrita “Privet Drive” e Dumbledore caminhando sublime pela rua escura; lembro-me, instantaneamente, do pensamento eufórico que não me deixava prestar atenção direito em nada: “Não acredito que estou vendo o filme do Harry Potter!”.

Não é força de expressão dizer “lembro-me como se fosse ontem”. Acontece que, sim, exatamente ontem vivi tudo novamente. Já passava da meia-noite quando o símbolo da Warner, como sempre, invadiu o começo do filme. Desta vez, porém, ele estava diferente, e não era somente o efeito (diga-se de passagem, muito bom) 3D: ele trouxe em mim a velha euforia dos meus onze anos. Tenho certeza de que deixei muita coisa do começo passar, mas não era como se eu pudesse evitar; minha cabeça não parava de ecoar o mesmo pensamento: “Não acredito que estou vendo o último filme do Harry Potter”.
Desta vez, sem exclamação.


Doze horas antes

Cheguei ao cinema às 13h, sem a vã impressão de que eu seria a primeira. Claro, eu estava certa: a minha fila já avançava para além de uma primeira curva. Sentei e mal contive minha alegria quando, ao retirar o pacote com os jornaizinhos do Potterish, já fui abordada por pessoas que já o “tinham visto no site e queriam um, por favor”. Os campineiros foram abençoados por mim com 300 exemplares, cinco vezes mais que ano passado ― quantidade que durou pouco mais de quatro horas, e que se mostraria insuficiente para cobrir as oito (sim, eu disse oito) salas de cinema reservadas para a pré.

A fila da sala 15, a minha, era uma das quatro da direita do cinema. Foi com muita surpresa que eu descobri as quatro outras salas de versão dublada do outro lado, depois de algumas horas entre distribuição de jornaizinhos e fotos. Muitas fotos, porque acho que nunca vi tantos bruxos (leia-se: cosplayers) ao vivo juntos na minha vida! Não pude deixar de lembrar a minha última coluna (hiperlink) e de sentir um pinguinho de arrependimento por, mais uma vez, não ter preparado a minha roupa (aliás, Sheila Vieira, em resposta a sua pergunta, eu voltaria a tingir meu cabelo e encarnaria uma modesta Lily Evans à procura de um digno Snape).

Contudo, isso se dissipou aos poucos. É impossível querer se comparar a um Harry de lentes verdes, ou a um Voldemort com maquiagem fúnebre, ou a uma senhora perfeita Sibila ― isso sem contar Neville, Olho-Tonto Moody, Minerva, Dumbledore, Tonks, Bellatrixes, Comensais, Lunas, Hermiones, estudantes e mais estudantes (a única casa prejudicada foi, inexplicavelmente, a Lufa-Lufa ["Lufa-Lufa não!”, disseram ao Chapéu Seletor presente]) ― mais que fãs, eles eram os personagens! Eu me senti em Hogwarts.

E não só por isso. Havia um sentimento forte no ar entre as risadas e abraços espontâneos, algo compartilhado entre conhecidos de longa data e apresentações momentâneas: a amizade. Eu revi pessoas de eventos anteriores, amigos que fiz com Harry e amigos por causa de Harry, sem contar aqueles com que reencontrei na surpresa com um sorriso feliz de “você também gosta!”. Na bagunça da organização e entre piadinhas potterianas, eu, moça tímida, me peguei conversando com pessoas que nunca tinha visto na vida ― mas que sei que entendem perfeitamente o perigo de um Rabo Córneo Úngaro ou a sutileza de pêlos de unicórnio em uma varinha, o que é extremamente valioso para mim.

Sinceramente, nunca poderia imaginar que, na região de Campinas, poderia haver mais de mil fãs de Harry Potter, e que todos, depois de conversas animadas e brincadeiras de doze horas de fila, poderiam se calar num silêncio uníssono após o apagar das luzes do cinema.

Durante
Li todos os livros cinco vezes cada (sim, minha adolescência foi bastante potteriana). Exceção: Relíquias da Morte, lido apenas uma vez. Pode parecer exagero de fã descontrolada e sem vida falar que o motivo é a dor no coração por causa do fim, mas afirmar outra coisa seria mentira. Não posso com despedidas. Não posso com a morte.

Claro que também há aí uma carga pessoal. Relíquias é, mais do que o Enigma do Príncipe (embora esteja em seu nome), uma história essencialmente de Snape ― o personagem cuja fala eu pronunciei, num mover de lábios sincronizado e inesquecível, no primeiro filme: “Mr Potter. Our… new… celebrity”. Mais uma vez, não posso com despedidas. Não posso com a morte de meu personagem preferido.

Também não posso mentir e dizer que sou tão fã dos filmes como sou dos livros. Eu os assisti todos no cinema, mas ainda acho que a expressão de Daniel é tão boa quanto a de uma batata (critiquem à vontade). Eu chorei do terceiro livro em diante; em filmes, nunca chorei. Nunca. Nem com a morte de Dobby (talvez seja eu a batata).

No entanto, não foi com surpresa que me peguei com o olhar embaçado noite passada. Acho até que deixei escapar um soluço, nada de que possa me envergonhar (afinal, fui eu e o cinema inteiro). Eu sabia que choraria porque sabia o que aguardar ― sabia o que Snape falaria, o que Harry veria, o que Voldemort encontraria. O peso de saber o final, ao contrário de ser um alívio, tornou-se um martírio.

Ainda que tenha evitado ler a morte de Snape novamente por muitos anos, eu queria assistir ao filme, e assim eu a encontrei mais uma vez. Tudo o que senti durante a leitura voltou, e eu chorei como se tivesse dezessete anos, deitada na cama de madrugada com a mão na boca para não acordar ninguém com os meus soluços.

Não serei desagradável a ponto de contar spoilers. Mas saiba que, qualquer que seja seu personagem favorito, qualquer que seja sua cena inesquecível, quando você assistir ao filme, este filme em particular, tudo voltará; culpa do peso de saber o final ― não só do filme, mas dos personagens, do enredo, das vidas fictícias e reais que se construíram ao longo de tantos anos.

E dói.

Como nós somos tontos!
Na fila, ouvi um passante falando: “Mas eles já sabem o final. Para quê ficar doze horas na fila de uma sessão de cinema à meia-noite?”. E pior, acrescento: para depois ficar chorando e voltar para casa com expressões inconsoláveis de saudade.

A melhor resposta que tenho para isso é que essa afirmação está errada. Nós não sabemos o final. Bom… ao menos se depender de mim, jamais acabará. Quero continuar encontrando as pessoas da fila do cinema, ter vontade de fazer cosplay, escrever muitas fanfics. Se depender de mim, Snape existe e ainda continua vivo.

Se depender de nós, Harry Potter será para sempre.

Mas se eu tiver que contar um spoiler só…
… será uma pequena indignação pelo fato do James Potter da Warner não usar óculos na infância. Quero pensar que sua miopia tenha se originado de um feitiço de Snape bem lhe dado no meio da testa. Pronto! Ao menos um acontecimento bom em sua vida.

Bruna Moreno enfrenta agora um quadro “severo” de angústia pós-filme.