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O segredo de Hermione

Não questione nem bata o pé, não adianta: cada um de nós tem seu personagem preferido e acredita fielmente que ele merece sua devida homenagem. No caso de Luiz Guilherme Boneto, a relação está mais para paixão que para admiração… mas quem somos nós para dizer que a querida Mione não merece todos os sentimentos do mundo?

Usufruindo muito bem do espaço que tem como direito, nosso colunista explica todos os motivos que fazem a bruxa mais inteligente para sua idade ser muito mais do que isso. Confira o texto aqui e aproveite para responder as duas perguntas propostas por Luiz Guilherme nos comentários.

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Dia desses, propuseram-me na internet uma tarefa hercúlea. Perguntaram-se, a bem da verdade numa dessas redes de conversa online, qual meu personagem de ficção favorito dentre todos os livros que li até hoje. A pergunta, veja bem, é facílima de se responder: Hermione Granger, o principal expoente feminino da série “Harry Potter”. Poucos personagens sequer chegam perto dela em meu conceito; Hermione é simplesmente tudo de bom. Os poucos com os quais me animo além dela estão também em “Harry Potter”, e em meus 20 anos, diria que não li uma quantidade de livros a ser chamada de pequena, embora ainda falte uma infinidade que eu gostaria de ler antes de morrer.

Contudo, quando eu já me via feliz diante da minha resposta pronta e simples, eis que veio a questão: “Defina Hermione em uma palavra”. Ora, bolas! Quantas palavras teria a saga de sete livros? Como poderei definir logo ela em uma palavra? “Inteligência” seria óbvio demais. “Coragem”, talvez? “Amizade”? Talvez esta última seja adequada; este é exatamente o sentimento maior que nutro por Hermione, porque é um dos valores a mim ensinados por ela e seus amigos num momento da minha vida em que eu estava formando valores e caráter. Não que Harry Potter tenha sido o único responsável pela minha formação, porém, a série teve papel absolutamente decisivo. Talvez, se eu não tivesse passado a me interessar pela leitura graças ao produto da mente genial de J.K. Rowling, eu não escolhesse a carreira que escolhi, não teria o mesmo desempenho escolar, dentre outras coisas que parecem simples, mas formam um intrincado conjunto dentro da mente.

Vamos voltar à questão posta pela minha amiga, em pleno sábado à noite. Eu, que justamente fazia um dos trabalhos universitários mais difíceis do semestre naquele momento, fui obrigado a me desviar dos pensamentos acadêmicos e postar-me em devaneios diante da pergunta. Uma palavra para definir Hermione Granger… Pensei em muitas frases de efeito, mas minha amiga, irredutível, queria apenas uma palavra. Seu personagem preferido é Severo Snape, cujo “charme está na maldade”. Uma palavra para defini-lo? “Inteligência”. Eu talvez não conseguisse classificá-lo assim tão facilmente, quanto mais a Hermione. Ora, talvez a minha mente seja por demais limitada para conseguir dar uma palavra, apenas uma, que demonstre minha admiração pela personagem de ficção mais sensacional com a qual já cruzei.

Naquela noite, contudo, a pergunta da minha amiga permaneceu em aberto. Julguei impossível de ser respondida de maneira satisfatória, ao menos para mim, e, felizmente, ela aceitou a minha justificativa. Hermione é muito mais do que uma palavra, uma frase, um livro inteiro. Ela é a representação da série de livros mais fantástica que eu já tive o prazer de ler e reler. É o exemplo de amizade, de lealdade, de companheirismo, de coragem, de inteligência acadêmica e para a vida. O que teria sido do trio sem Hermione, especialmente em “Relíquias da Morte”? Quantas vezes ela passou por cima de coisas que julgava importantes para si mesma, em nome da amizade?

Durante toda a série, Harry, Rony e Hermione demonstraram a maneira mais simples de se levar uma amizade tão complexa. Ela, descendente de trouxas, com uma criação totalmente diferente de Rony, oriundo de uma família quase totalmente composta por bruxos (lembremo-nos do primo contador da Sra. Weasley) e mais ainda de Harry, um garoto mestiço e criado por tios trouxas e extremamente rabugentos. Unindo três pessoas tão diferentes em seus livros e criando laços tão sólidos da mais pura amizade entre eles, J.K. Rowling nos propõe pensar valores muito complexos. Num mundo em que não se aceita os diferentes, os três bruxinhos mais importantes da ficção demonstraram que o ser humano pode passar por cima de qualquer preconceito, principalmente diante do final de Rony e Hermione, que todos sabemos qual é. Ela, sem dúvida, é quem melhor passa tais valores entre os três.

“Harry Potter”, como uma série, não seria o mesmo sem Hermione. Todos os personagens são importantes, cada um tem seu papel determinante na história. Mas ela é a mais fundamental, crucial do início ao fim. Com seus defeitos muito humanos e suas qualidades excepcionais, a essência de Hermione é espetacular, e eu tomo a liberdade de intitular esta coluna tal qual um dos capítulos que leva seu nome na série. Como bem disse J.K. Rowling, em artigo escrito para a coluna “Written By”, publicado pela revista “Writers Guild” e traduzido na sequência pelo Potterish, em abril de 2011: “Primeiro, Steve [Kloves, roteirista dos filmes] virou para mim enquanto pedíamos a comida e disse baixinho, ‘Você sabe quem é meu personagem preferido?’. Eu olhei pra ele, que era ruivo, e pensei: ‘Você vai dizer Rony. Por favor, por favor, não diga que o Ron-Ron é muito fácil de amar’. E ele disse: ‘Hermione’. Neste ponto, por baixo do meu exterior reservado, suspeito, eu simplesmente derreti, porque se era a Hermione, ele entendeu os livros. Ele também, em grande âmbito, me entendeu”.

Diante de tão conclusiva declaração, apenas posso finalizar com uma palavra para resumir Hermione nos sete livros e oito filmes que compõem a saga. Sim, com várias semanas de atraso, a minha amiga vai ficar sabendo por este canal a palavra que ela gostaria que eu tivesse dito naquela noite fria de sábado, que resume Hermione Granger como um todo, e o que hoje, exatamente, eu gostaria de poder dizer a ela: “Obrigado”. Nada mais justo. Nem mais óbvio. Mas para mim, o que basta.

Luiz Guilherme Boneto já avisou: Rony que se cuide.