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Tentativa de concluir algo acerca da condição dos elfos domésticos

Um dos personagens mais importantes no filme “Relíquias da Morte – Parte 1” foi o elfo Dobby, que havia aparecido apenas em “Câmara Secreta” nas telas, mas frequentou boa parte da história de Harry Potter nos livros. No entanto, o que a coluna de hoje do Potterish quer discutir é a posição dos personagens (e a falta dela na narração) em relação à escravidão dos elfos.

Enquanto a maioria dos bruxos via a escravidão de elfos como algo natural e parte da natureza daqueles seres, outros se revoltaram, como Hermione. No entanto, mesmo com a libertação de Dobby, a questão dos elfos não terminou com um tom muito positivo na narrativa. Afinal, qual mensagem Rowling quis deixar com essa parte da história?

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Confira a coluna de Mariana Nascimento e dê o seu pitaco!

por Mariana Nascimento

“Por que a autora os fez submissos? Serão referência à escravidão que houve no mundo real sob diversas roupagens? Em caso positivo — e daí o embaraço — por que há nos volumes que é da natureza deles a servidão? Nunca entendi a mensagem que se quis passar com isso, se é que existe.”

O comentário acima é de autoria do leitor Rodrigo Rodrigues a propósito da condição dos elfos domésticos, uma questão de “Harry Potter” que, de fato, é um tanto embaraçosa e merece ser investigada.

Nos livros, são apresentadas duas visões a esse respeito: a de Rony, para quem a natureza dos elfos domésticos é que os leva à escravidão, e a de Hermione, que defende que os elfos passaram por uma “lavagem cerebral” e por isso se submetem a toda sorte de trabalho e tratamento. Assim, por um lado, é possível relacionar o problema à natureza, e, por outro lado, atribui-lo a um processo social e cultural.

Porém, faltam elementos para que se tome partido de uma ou outra posição. Seria necessário obter dados sobre as origens dos elfos domésticos para determinar seguramente se, antes de viverem com os bruxos, eles já apresentavam tamanha disposição à submissão.

Sem tais informações, uma das opções é partir de hipóteses. Pode-se supor, por exemplo, que nos primórdios os elfos domésticos viviam separados dos bruxos. Para que a união desigual ocorresse, os elfos domésticos precisariam apresentar alguma utilidade para as pessoas. E talvez essa utilidade decorresse justamente de sua natureza obediente. Portanto, nesse caso, seria correta a visão de Rony, a de que os elfos domésticos são servos por natureza.

Mas também cabe perguntar o que esses elfos faziam com sua predisposição à obediência antes de se tornarem empregados dos bruxos (eles se submetiam a algum líder de sua própria espécie ou viviam em igualdade?), e se os bruxos ofereceram algum benefício a eles. A resposta a isso depende de outra dúvida: seria a submissão uma característica latente ou já manifesta antes do contato com os bruxos?

No primeiro caso, o trabalho para domesticar os elfos seria mais árduo, de modo que talvez fosse necessária a oferta de alguma vantagem a eles. No segundo, o esforço dos bruxos seria mínimo, o que afasta ainda mais a hipótese de “lavagem cerebral”, que tem como pressuposto um contexto em que os elfos fossem completamente avessos à submissão.

Contudo, a neutralidade e a omissão do narrador não permitem descartar a tese de que os bruxos impuseram a servidão aos elfos. Se essa visão for tomada como verdadeira, é possível supor que houve um processo semelhante à seleção natural – mas com interferência humana –, em que os elfos mais submissos ou mais persuadíveis foram escolhidos em detrimento dos mais rebeldes. Adotar essa teoria, porém, implica aceitar que havia elfos mais propensos à servidão, senão todos teriam resistido.

Além disso, a relação entre a interferência humana na vida dos elfos domésticos e a seleção natural (nesse caso, social) pode explicar a existência de um elfo como Dobby na medida em que ele pode ser tomado como remanescente dos elfos mais independentes e racionais, capazes de escolher a quem dirigir sua lealdade e seus serviços.

Pode ser que alguns leitores consigam se colocar ao lado da Hermione, enquanto outros apóiem a ideia de Rony. Porém, também é possível permanecer em cima do muro e assumir que a questão foi propositalmente relativizada: assim como a maldade de Voldemort, a obediência dos elfos pode ser inata e, ao mesmo tempo, potencializada por fatores sociais.

Aos fatos
Apesar de tais especulações serem um bom exercício de imaginação e raciocínio lógico, não superam o valor da análise literária, que deve se concentrar no que há de concreto no texto. Assim, deixando as suposições de lado, vamos aos fatos.

O problema da relação entre elfos domésticos e bruxos surge com a aparição de Dobby em “A Câmara Secreta”. O modo como ele se castiga sempre que diz algo capaz de incriminar seus “donos” aponta claramente para o caráter doentio da ligação entre as duas partes. De partida, o elfo é mostrado como vítima.

Antes de ser liberto, Dobby se vê dividido, obrigado a conciliar a imposição de servir aos Malfoy e a vontade de servir àquilo em que realmente acredita*. É fácil perceber a quem ele é realmente leal, já que corre todos os riscos para ajudar Harry. Dessa forma, o elfo ilustra perfeitamente a frase de Dumbledore sobre a escolha entre fazer o que é certo e fazer o que é fácil: por ter consciência a respeito da sociedade, Dobby não se deixa acomodar nem usa sua condição como pretexto para não agir, tornando-se, mesmo com suas trapalhadas, um exemplo das atitudes necessárias para que o mundo siga um caminho justo.

Já em “O Cálice de Fogo”, os elfos domésticos são trazidos ao centro das atenções novamente quando se descobre que são eles os responsáveis pela limpeza e pela cozinha de Hogwarts, mas a demora para que tal descoberta ocorra demonstra a falta de reconhecimento pelos serviços que eles prestam à escola. Diante disso, Hermione cria o F.A.L.E, em um engajamento solitário e, por isso, frustrado. Ao mesmo tempo, Dobby reaparece com os problemas de um ex-escravo: a não aceitação da sociedade e a consequente dificuldade de conseguir emprego.

O fracasso do F.A.L.E. e o desemprego de Dobby mostram a alienação da maior parte da sociedade bruxa quanto à situação desses seres. Em meio à omissão de quase todos, há a iniciativa individual de não ter um elfo doméstico, como no caso dos Weasley e dos pais de Harry. Contudo, isso não é suficiente, já que as famílias menos escrupulosas (como os Malfoy e os Black) ou mais conservadoras (como os Crouch) aproveitam-se da comodidade que é ter um elfo para explorá-lo e usá-lo inclusive em atividades ilegais.

No fim das contas, talvez a questão tenha permanecido indefinida porque não importava se a obediência cega dos elfos domésticos era um traço de sua natureza ou resultado de um processo de escravização inclusive psicológica. O que a história oferece de concreto é a atitude dos bruxos em relação aos elfos. Isso indica que, independentemente das origens do problema, o que importa é o que se faz com ele, como se procura resolvê-lo (ou não se procura). Nesse caso, *o mundo da magia, com seu ministério omisso e bruxos pouco engajados coletivamente, optou por aproveitar-se da inocência, lealdade e magia da espécie de Dobby, Monstro e Winky. Assim, a ruína do F.A.L.E. deve ser atribuída não apenas à mentalidade dos elfos (manipulada ou natural), mas também à dos bruxos.

Com tudo isso, uma possível conclusão é: se pode ser difícil não criar um paradoxo quando se tenta impedir que alguém recuse seu direito à liberdade (“vamos obrigá-los a ser livres!”), não deve ser impossível estabelecer medidas para impedir que outros se apoderem dessa liberdade e, assim, garantir que seus verdadeiros donos sejam tratados dignamente. E isso é ainda mais verdadeiro no caso do mundo da magia e, especificamente, dos elfos domésticos, para quem tudo pode depender de um jogo de palavras ou ordens.

*Semelhanças com a realidade não são mera coincidência.

Mariana Nascimento discutiu com Hermione quais eram os propósitos do F.A.L.E.