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Um traidor entre nós

Cerca de dois anos atrás, J.K. Rowling atiçou nosso gostinho pelos inseparáveis Marotos com um breve prefácio. Com ele, pudermos ver além de memórias de penseiras. Ainda assim, muitas perguntas não foram respondidas.

Um exemplo é a curiosa, e complexa, relação de Tiago, Sirius e Pedro com seu amigo-lobisomem. Poderiam preconceitos terem ultrapassado a barreira da amizade? Mariana Rezende explora e analisa esta questão em sua nova coluna – aliás, a primeira do gênero “especulação” desde 2008. Leia e especule à vontade.

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por Mariana Rezende

O tema da coluna de hoje gira em torno de dois personagens: Sirius e Lupin. Calma! Não pretendo divagar novamente sobre as possíveis orientações sexuais de ambos. Dessa vez, minha área de interesse é outra — mais especificamente, o período pré-morte dos Potter.

Todos nós sabemos que foi por insistência de Sirius que Rabicho passou a ser guardião do segredo; todos nós sabemos, também, que Sirius não compartilhou seu plano com o quarto maroto por suspeitar que fosse ele o traidor. Mas por que Lupin se tornou o principal suspeito? Os motivos nunca foram explicitados no decorrer da história, e me parece superficial supor que Sirius o taxasse como traidor simplesmente por critério de eliminação. Deveria existir outro — quiçá outros — motivos para escorar a sementinha de desconfiança que, em meio a fadiga mental causada pela guerra, criou raízes e provou ser uma verdadeira praga.

A transição de estudantes admirados para jovens adultos afetou-os de diferentes formas. Sirius, não precisando se preocupar com as contas graças à herança que ganhou de seu tio, mergulhou de cabeça na luta contra Voldemort. Lupin, não dispondo de parentes generosos com o pé na cova, teve que ser sustentado por James, já que ninguém parecia disposto a empregar um lobisomem — principalmente com as Forças das Trevas disseminadas pelo país. Até aí, tudo bem. Uma dificuldade financeira não bastaria para justificar alta traição, inclusive porque seria no mínimo contraditório querer matar justamente a pessoa que o ajudava financeiramente… A não ser que o outro lado oferecesse vantagens ainda melhores. E é aqui que a coisa começa a complicar.

Por mais diferente que fosse de seus pais, Sirius nasceu e cresceu cercado pelo discurso tradicionalmente preconceituoso da família Black. Trouxas eram vistos como vermes, assim como elfos domésticos e qualquer outra criatura desprovida de sangue puro. Sirius, como pudemos testemunhar, não compartilhava das mesmas crenças. Ele considerava Lupin um de seus melhores amigos e não se afastou ao descobrir a licantropia, participando do plano de usar a animagia para acompanhá-lo durante as transformações. Tendo isso em vista, parece-me pouco provável que Sirius desconfiasse de Lupin por causa do probleminha peludo, mas as consequências por carregar tamanha chaga não podem ser subestimadas.

O preconceito contra lobisomens abala todas as áreas da vida de um infectado: desde as relações sociais e amorosas até a exclusão no mercado de trabalho, resultando em uma vida sub-humana às margens da sociedade (não é de se admirar que a grande maioria dos lobisomens tenha se unido em uma comunidade independente e, por vezes, radical). Sirius assistiu todas as dificuldades enfrentadas por Lupin durante anos e, ao ficar ciente de que alguém estava passando informações para o outro lado, poderia tê-las julgado fortes o suficiente para subjugar o caráter e a lealdade do amigo. Alguém tinha que ser o espião. Lupin tinha todos os motivos.

Para completar o quadro que tento traçar aqui gostaria de analisar algumas falas da cena na Casa dos Gritos do terceiro livro, que sempre me chamaram muito a atenção. Transcreverei certas partes que considero mais significativas para facilitar a vida de todos nós:

(Páginas 295 e 296)
— Ora, ora, olá, Pedro — saudou-o Lupin educadamente, como se fosse frequente ratos virarem velhos colegas de escola à sua volta. — Há quanto tempo!
(…)
A varinha de Black se ergueu, mas Lupin agarrou-o pelo pulso, lançando-lhe um olhar de censura, depois tornou a se virar para Pettigrew, com a voz leve e displicente:
— Estávamos tendo uma conversinha, Pedro, sobre os acontecimentos da noite em que Lílian e Tiago morreram. Você talvez tenha perdido os detalhes enquanto guinchava na cama…
— Remo — ofegou Pettigrew, e Harry observou que se formavam gotas de suor em seu rosto lívido —, você não acredita nele, acredita…? Ele tentou me matar, Remo…
— Foi o que ouvimos dizer — respondeu Lupin, mais friamente. — Eu gostaria de esclarecer algumas coisas com você, Pedro, se você quiser ter…

(…)
— Ninguém vai tentar matá-lo até resolvermos algumas coisas — disse Lupin.

(Página 302)
— ENTÃO VOCÊ DEVIA TER MORRIDO! — rugiu Black. — MORRER EM VEZ DE TRAIR SEUS AMIGOS, COMO TERÍAMOS FEITO POR VOCÊ!
Black e Lupin estavam ombro a ombro, as varinhas erguidas.
— Você devia ter percebido — disse Lupin com a voz controlada —, que se Voldemort não o matasse, nós o mataríamos. Adeus, Pedro.

Depois de ter passado treze anos sozinho, acreditando que seus amigos estavam mortos e que um deles fora o assassino bandeado para o lado de Voldemort, a calma e a objetividade de Lupin chegam a ser assustadoras. Ele assumiu o controle da situação, evitando uma possível tragédia ao conter o temperamento explosivo de Sirius. Essa frieza, por vezes sarcástica, seria essencial para um espião que pretende ser bem sucedido — como Snape de fato o foi, mesmo não tendo sobrevivido —, característica que Rabicho não possuía ou pelo menos não teve habilidade para colocá-la em prática ao ser encurralado (o que mostra que seu sucesso como espião se deu mais pela descrença geral em vê-lo como uma possível ameaça do que por suas qualidades evasivas).

Resta saber se essa frieza foi um resultado inerente da maldição ou então dos anos que Lupin enfrentou sozinho; um mecanismo de defesa diante de tanto sofrimento. Resta discutirmos, afinal, por que Sirius não confiou em Lupin para ser o guardião do segredo. Por que a amizade construída durante os anos de escola não foi suficiente para consolidar a confiança entre eles? Por que Sirius preferiu escolher Rabicho, mesmo sabendo que o garoto jamais resistiria a Voldemort caso fosse descoberto? Será que na hora decisiva, de vida ou morte, Sirius se viu influenciado por preconceitos que julgava não possuir? Ou será que, na verdade, ao insistir que Rabicho fosse o guardião ele estava tentando preservar tanto a vida de James como a de Lupin também? Essas são questões que permanecem sem respostas, mas que servem para refletirmos sobre a extrema complexidade dos personagens de J.K. Rowling.

Mariana Rezende defende Lupin com unhas (ou garras) e dentes (ou presas).