As Relíquias da Morte ︎◆ Filmes e peças ︎◆ Parte 1

Leia a primeira crítica à trilha sonora de Relíquias da Morte parte 1

O Movie Music UK divulgou a primeira crítica à trilha sonora de Harry Potter e as Relíquias da Morte parte 1, composta pelo músico francês Alexandre Desplat, e a ser lançada em 16 de novembro, três dias antes da estréia do filme. Confira um trecho a seguir:

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O que essa trilha tem a mais do que as outras em seu cânone é emoção: emoção desembaraçada, desavergonhada, que envolve o tom sombrio da história e se desenvolve com ele, emocionando o ouvinte com uma aventura poderosa e o forçando a sentir a dor de Harry com destreza equivalente. Para mim, essa é, sem dúvida, uma das melhores trilhas de 2010, e eu espero mais do que nunca que os serviços de Desplat sejam mantidos em Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte II no próximo verão.
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Leia a crítica traduzida na íntegra tem notícia completa.

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ALEXANDRE DESPLAT
Crítica da trilha sonora de Harry Potter e as Relíquias da Morte parte 1 – Compositor Alexandre Desplat

Movie Music UK ~ Jonathan Broxton
29 de outubro de 2010
Tradução: Antônio Kleber e Bruna Coden

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 – Alexandre Desplat

A conclusão da Saga Harry Potter é cinematograficamente um evento tão importante como foi literariamente quando o bastante esperado sétimo livro de J. K. Rowling, Harry Potter e as Relíquias da Morte, foi lançado em Julho de 2007 e quebrou uma miríade de recordes em vendagem de livros. O sucesso da franquia Harry Potter é bem impressionante: é reportadamente o responsável por ter quase que sozinho revitalizado o mercado da literatura infantil, trazido ficção fantástica fora da esfera nerd e dentro de uma corrente literária dominante e, é claro, fez de Rowling uma zilionária, graças não apenas das vendas dos livros, mas também ao forte merchandising, parques temáticos e, naturalmente, livros e trilhas sonoras baseadas em seu trabalho.

Harry Potter e as Relíquias da Morte, o sétimo filme na série, foi também dirigido por David Yates, e estrela Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint como Harry Rony e Hermione, os três protagonistas da saga. Iniciando-se imediatamente após os eventos relacionados à morte de Dumbledore e a ascensão de Voldemort no final do sexto filme, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, Relíquias da Morte mostra Harry, Hermione e Rony deixando a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts para procurar e destruir as Horcruxes remanescentes: pedaços da alma de Voldemort que foram escondidos dentro de objetos quaisquer em um esforço do bruxo por tornar-se imortal. Com Voldemort subjugando Hogwarts e reascendendo seu reino de terror no mundo bruxo, Harry e seus amigos tornam-se essencialmente fugitivos, desesperadamente tentando escapar da captura dos agentes de Voldemort. Eventualmente Harry toma conhecimento da existência das Relíquias da Morte do título, uma tríade de objetos mágicos extremamente poderosos onde, acredita Harry, irá ajudá-lo a balancear o poder ao seu favor, e eventualmente derrotar Voldemort de uma vez por todas. O filme foi dividido em duas partes, com a parte dois sendo lançada em Julho de 2011.

Harry Potter e as Relíquias da Morte gaba-se por ter possivelmente o mais impressionante elenco de atores britânicos em qualquer filme recente: ao lado dos veteranos da franquia Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Ralph Fiennes, Jason Isaacs, Helena Bonham-Carter, John Hurt, Brendan Gleeson, Jim Broadbent, Emma Thompson, Gary Oldman and David Thewlis, o novo elenco também gerencia a adição de estrelas como Rhys Ifans, Jamie Campbell-Bower, Ciaran Hinds e Bill Nighy. Realmente impressionante. Quem não retorna, entretanto é o compositor Nicholas Hooper, que decidiu não ter a oportunidade de orquestrar o final. Este lugar ao pódio foi tomado pelo compositor francês Alexandre Desplat, cujo status como um dos mais ativos compositores trabalhando na indústria cinematográfica hoje já é agora bem comentado e verdadeiramente estável.

Primeiro as primeiras coisas: como Nick Hooper antes dele, e como Patrick Doyle antes de Nick, a trilha de Desplat não faz nenhuma referência óbvia ao material temático das trilhas anteriores, com a exceção de pinceladas à famosa ‘Hedwig’s Theme’, de John Williams, encaixadas em um par de momentos do álbum. Isso deixará loucos os fãs de Williams, especialmente os que clamavam pelo retorno do compositor para orquestrar o final, mas o ponto no qual centrei minha crítica para a trilha de Harry Potter e o Enigma do Príncipe no ano passado é ainda relevante aqui: o Harry Potter do livro 7 não é o Harry Potter do livro 1. Ele não é o menino inocente com os olhos arregalados solto em um novo e fantástico mundo. Ele é um jovem adulto profundamente problemático, atormentado por seu passado, rodeado pela morte de seus amigos e família, subjugado pelas pressões de uma profecia antiga, que precisa lutar até a morte para salvar o mundo que o tomou como um salvador. Por isso, faz perfeito sentido que a volúvel e caprichosa natureza das primeiras trilhas tenha sido necessariamente suplantada por uma música mais obscura e madura. Corujas, jogos de quadribol, e rivalidades de pátio de escola não são mais as maiores preocupações de Harry, e é por isso que a música que Williams compôs para acompanhar esses momentos é agora menos importante para a história. Esta é uma história – e um trilha sonora – sobre perigo, angústia, arrependimento, e sacrifício, e a música de Desplat inevitavelmente reflete tudo isso.

A música de Desplat é totalmente orquestral e coral, interpretada com gosto pela Orquestra Sinfônica de Londres e vários coros, ao lado de vários especialistas em instrumentos solo, variando do comum (violões e gravadores), ao ligeiramente não usual (um bandolim, uma flauta de bambu shakuhachi) perpendicularmente ao peculiar, mais notadamente um theorbo, que é uma espécie de alaúde de pescoço longo no estilo barroco. Uma coisa que eu adoro na trilha é que ela é, de toda forma, uma trilha de Desplat: ela apresenta muitas de suas marcas de estilo pessoal registradas, do uso de instrumentos de sopro como percussão, à interpolação de um pulso musical em ondas para adicionar mais tom à certas sequências, o uso de ritmos precisos do tímpano, e vácuos específicos nos instrumentos de corda e metais, que serão imediatamente reconhecidos para qualquer um que tenha acompanhado a carreira de Desplat. Estou muito contente por ele não ter sido forçado a suplantar sua identidade musical de forma a preencher as necessidades do filme, e, ao contrário, puxou a trilha para a direção correta ao seu gosto, adicionando apenas as doses necessárias de magia ao todo.

A canção de abertura, “Obliviate”, desenvolve gradualmente uma seqüência com tons altos e baixos apresentando logo depois um novo tom, mais nobre, com cordas e solo de violoncelo, antes de adentrar na primeira de várias seqüências com alta carga dramática em que a orquestra estica suas pernas: ” Snape to Malfoy Manor” (Snape chega à Mansão Malfoy), apesar de correr por pouco menos de dois minutos, apresenta uma maravilhosa sensação de escuridão, pressentimento e energia resfolegada. Diferentes seções da orquestra se sobrepõem em um borbulhante contraponto, apoiadas pelo tom pioso dos clarinetes, flautas transversais, harpas melódicas, suspiros quase sublimes durante uma respiração barroca, vocalização do coral e o fluxo metálico da melodia. É tudo muito maravilhoso.

O filme tem uma boa meia dúzia de sequências de ação nocauteantes, começando pela incrível “Sky Battle” (Batalha no Céu), e indo em direção à canções como a tumultuada “Death Eaters” (Comensais da Morte), a áspera “ Fireplaces escape” (Fuga nas Lareiras), e a cacófona “ Destroying the Locket ”( Destruindo o medalhão). Qualquer um que esteja familiarizado com a música de ação de Desplat oriunda de trilhas de filmes como Firewall, A Bússola de Ouro e O Escritor Fantasma, mais cedo neste ano, ficarão excitados com o tom explosivo dos intrumentos de corda que salta e cai escalas com energia ilimitada, e que neste momento é acompanhado por todo o tipo de caos e acentos do coral. “Sky Battle” apresenta uma seqüência de momentos maravilhosos por trás da ação, que soa como uma versão desconstruída e ligeiramente fora de ordem de ‘Hedwig’s Theme’, mas que rapidamente é usurpada pela vivaz e chamativa orquestra que a rodeia. Esta canção, mais que qualquer outra, deve finalmente acabar com o mito ridículo de que Desplat só sabe criar valsas bonitas e não tem a habilidade de escrever um material mais robusto.

“Ministry of Magic” (Ministério da Magia), “Detonators” (Detonadores) e “The Locket” (O Medalhão) são um trio inteligente de peças que se colocam por trás da infiltração de Harry no Ministério para recuperar o Medalhão de Régulo Black, tomando-o de Dolores Umbridge. “Ministry of Magic ” é toda brusca, uma peça sonora apressada e centrada em sua importância, que corre com marchas barulhentas enquanto a percussão trabalha, mas que mascara um núcleo mais sombrio. O piado dos intrumentos de sopro em „Detonators“ parecem ter o mesmo senso de aparente inocente pincelada que qualquer produto Weasley de respeito teria, mesmo que as estrondosas pancadas nos tímpanos e o lamento em cadeia subsequente sugiram o perigo inerente à situação. “The Locket” por si próprio revisita a ligeiramente açucarada canção que Hooper deu à personagem de Umbridge, em Ordem da Fênix, embora dessa vez sua verdadeira natureza seja subitamente revelada por apresentá-la serpentina, escorregadia e mais do que ligeiramente enganosa.

A música feita para a sequência onde Harry e Hermione visitam a casa de infância de Harry – Godric’s Hollow -, que inclui “The Exodus” (O Êxodo), “Godric’s Hollow Graveyard” (Cemitério de Godric’s Hollow) e “Bathilda Bagshot” é o máximo que [a trilha de] Potter já chegou ao completo horror. “The Exodus” é uma peça atormentada de um violino fora de tom, clarinetes com subidas sinistras e acordes [com instrumentos de] corda impressionantes, enfatizando o perigo prestes a devastar os amigos. “Godric’s Hollow Graveyard” é inundado com uma sensação palpável de tristeza ao que Harry finalmente visita os túmulos dos seus pais: o solo principal de violoncelo e os tons do bandolim, combinados com o tema agridoce e tenro, dá à sequência um tom atrativo – embora triste -, enquanto os ecos do piano dão à cena um som harmônico que se equipara ao inverno em sua frieza. As coisas acabam na música “Bathilda Bagshot”, que aplica camadas de tensão acima de tensão acima de tensão, exacerbadas por explosões angustiadas de uma flauta de madeira sakuhachi (um dos sons prediletos de James Horner), antes de estourar em uma orquestra tremenda e brutal logo ao final.

“Captured and Tortured” (Capturada e Torturada) apresenta elementos sintetizadores completamente enervantes e escritos de percussão atroadores, que socam e golpeiam antes de se tornarem outro lamento de cordas remoídas e sopros choramingantes. Eventualmente, [a música] explode na partitura da última cena de ação, “Rescuing Hermione” (Resgatando Hermione), que é repleta com mais uma sequência de cordas rápidas que parecem produzir energia sem esforço algum.

No outro lado da escala, um tema tenro e nobre de metal [um instrumento musical de sopro] feito para a Ordem da Fênix apresenta [a música] “Polyjuice Potion” (“Poção Polissuco”), antes de se direcionar a uma série de sequências caprichosas e leves, que apresentam tons de flauta proeminentes e uma harmonia deslumbrante de sons que mantém o leve semblante da mágica e travessura das partituras anteriores. É a última vez em que haverá mágica e travessura por um bom tempo. A única parte que chega perto desse estilo é “Lovegood”, a música para o encontro de Harry com o dúbio Xenofílio Lovegood, o qual suas revelações relacionadas à natureza das Relíquias direcionam Harry em sua busca. A música do Lovegood é ligeiramente peculiar e um pouco exótica, misturando todos os tipos de percussão agitada, baixos quase ásperos de flauta e um tema principal de uptempo [estilo de música com batidas a mais de 120bpm] para ilustrar um personagem importante, mesmo que um pouco desconcertado. É ligeiramente reminiscente da música que Desplat escreveu para a igualmente excêntrica Gyptians em A Bússola de Ouro, mas sem o senso de diversão e aspereza.

Das outras músicas de nota, “The Will” (“O Testamento) é uma composição textural, cheia de mistério e incerteza, que retrata um coro quase etéreo contrabalanceado por acordes ternos de violão e flautas garganteadas nervosamente, relembrando com ternura a bondade de Dumbledore, mas temperando-a com uma sensação inesperada de perigo. Depois, “Dobby” tem o seu próprio tema principal, uma dança brincalhona de bandolins, o antes mencionado theorbo, e gongos leves de percussão que resumem sua natureza travessa e que constroem um momentum surpreendente ao que [a música] se desenvolve.

Também há diversos momentos de grande paixão emocional. “At the Burrow” (N’a Toca) tem um belo sentimento de nostalgia, especialmente nos momentos onde um solo de trompa ocupa o lugar principal e mantém um despeitoso sentimento trágico ao que a música continua, até mesmo quando você acha que as cordas irão explodir em um tema romântico de larga escala. O tema para “Harry e Ginny” não é de maneira alguma diretamente romântico, apoiando-se, ao invés, no sentimento de afastamento que o casal sente ao serem forçados a se separar. As performances de piano de Desplat nessa peça reforçam essa noção por se manterem ligeiramente indecisas e ébrias; bonitas, mas de maneira alguma felizes.

O solo de violoncelo retorna na bela e devastadora “Ron Leaves” (Rony vai embora), que é o máximo que uma música de Harry Potter chegará no quesito emocionalmente poderosa e sombria. Depois, “Ron’s Speech” (O Discurso de Rony) revê um material com tema similar, mas com um aspecto mais tenro e gentil que enuncia amizade fraternal e determinação. A conclusiva “Farewell to Dobby” (Adeus, Dobby) com sua execução pesarosa e tenra de violoncelo, me faz salivar com o prospecto da música que Desplat talvez escreva para o estupefante e angustiante final da parte II.

A única coisa possivelmente negativa sobre Harry Potter e as Relíquias da Morte é a falta de um único tema que identifica o filme em si. ‘A Pedra Filosofal’ tinha uma grande quantidade de temas, ‘A Câmara Secreta’ tinha “Fawkes, the Phoenix”, O Prisioneiro de Azkaban tinha “A Window to the Past”, O Cálice de Fogo tinha “Harry in Winter”, e assim por diante, Relíquias da Morte é um pouco anônimo em termos de algo para se recordar. Até mesmo Hedwig’s, o único tema musical e definidor da série inteira, aparece brevemente em apenas três composições: “Polyjuice Potion”, “Sky Battle” e “The Will”, a despeito da reivindicação de Desplat de que ele tentou incorporá-lo em intervalos regulares. As ideias musicais de Desplat são todas excelentes, mas nenhuma delas é impactante da maneira que seria esperado: são partituras de grande ressalto, mas você não as ouvirá em um concerto e amantes do cinema não irão sair do cinema assoviando o tema principal.

Essa crítica da trilha sonora de Harry Potter e as Relíquias da Morte: parte I é do lançamento formal, que apresenta 26 amostras e tem a duração de generosos 73 minutos. Em adição a isso, há dois lançamentos adicionais: um set edição limitada do disco bônus, que inclui seis amostras musicais adicionais (“Voldemort”, “Grimmauld Place”, “The Tale of the Three Brothers”, “Bellatrix” e “My Love is Always Here”) e um álbum digital deluxe da trilha sonora que incluirá três trilhas a mais, além das 26 originais, embora não esteja claro se essas são as três das seis [trilhas] do set do colecionador.

Então, dei mais uma crítica cinco estrelas para uma composição de Alexandre Desplat, o que não tenho dúvida alguma que levará alguns leitores a me acusarem de propensão, ou previsibilidade, ou qualquer outro termo depreciativo que surja em suas mentes. Não escondo o fato de que eu acredito que Desplat seja, honestamente, a voz musical mais emocionante a surgir na indústria de trilha sonora para filmes desde a virada do milênio, e, para mim, Harry Potter e as Relíquias da Morte parte I apenas reforça essa visão. Desprezando reclamações relacionadas à consistência com os outros filmes da série, ou a falta de tema principal proeminente nessa trilha, eu sinto honestamente que essa trilha é uma das grandes conquistas de Desplat, e destaca tudo o que eu amo sobre o seu trabalho; as texturas orquestrais, o uso intricado de instrumentos inesperados em cenários inesperados e a transparência de suas orquestrações. Mas, o que essa trilha tem a mais do que as outras em seu cânone é emoção: emoção desembaraçada, desavergonhada, que envolve o tom sombrio da história e se desenvolve com ele, emocionando o ouvinte com uma aventura poderosa e o forçando a sentir a dor de Harry com destreza equivalente. Para mim, essa é, sem dúvida, uma das melhores trilhas de 2010, e eu espero mais do que nunca que os serviços de Desplat sejam mantidos em Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte II no próximo verão.