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Fé, superstição, mágica e ciência

Apesar de ser um livro totalmente imerso do mundo da magia, é inegável que “Harry Potter” dialoga intensamente com os universos da fé e da ciência. Os limites entre essas áreas sempre foram extremamente difusos e alvo de discussões na Filosofia.

[meio-2]A nova coluna de Yuri Rigon faz um panorama de como a humanidade viu e vê o sagrado e o profano, e como pode haver um embate de ideologias dentro da mesma busca por sabedoria. Leia o texto, reflita… e deixe um comentário, claro!

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Por Yuri Rigon

No que você realmente acredita?

Nós, seres humanos, carregamos conosco a incrível necessidade de entender o que nos cerca. Portanto, nossa mente foi aprimorada pela evolução para buscar padrões de comportamento, ou seja, características e eventos do mundo que estão organizados de um modo não-aleatório, regular, em suma, a ligação entre causa e efeito.

Não digo que o homem peca só porque encara o mundo como uma equação matemática, exata, desprovida de qualquer tipo de subjetividade, afinal, está na nossa natureza buscar padrões. Caso não tivéssemos desenvolvido esse tipo de busca, não estaríamos aqui para discutir esse tema, por exemplo. O problema encontra-se na obtenção de um equilíbrio, de um meio termo que permita que você troque os pés firmes no chão (os padrões) pelo desconhecido ao qual não se deve temer, mas sim ter coragem para se enfrentar. É a partir dessa forma de lidar com o desconhecido que começamos a falar de fé, superstição e mágica.

Tratando-se superstição, devo, antes, falar-lhes sobre Émile Durkheim, sociólogo francês que em “The Elementary Forms of Religious Life”, de 1912, colocou a superstição em um contexto social, levando em consideração o estado cultural da ciência e da tecnologia. Esse estado cultural, por sua vez, influi no cérebro moderno tornando-o um investigador hiper-zeloso em suas tentativas de ligar causa e efeito. Assim, ele tende a interpretar coincidências, mesmo se dois eventos não estão ligados de nenhuma forma: esta é a fonte da superstição.

A fé, no entanto, não se sustenta em evidências, provas ou entendimento racional, natural do homem. Seria, portanto, o sobrenatural. É interessante ressaltar que o uso do termo “sobrenatural” só adquire sentido se presumirmos que uma sociedade compreende a ordem natural, as leis da natureza elaboradas pela ciência. Porém, é óbvio que nem todas as culturas fazem distinções entre o “sobrenatural” e o “natural”, de modo que Durkheim ofereceu uma outra distinção, a do sagrado – o componente da magia e da religião – e do profano, – o componente do secular e da ciência.

Distinguindo-se o sagrado do profano, chegamos à seguinte divisão:
O sagrado como componente da magia (a própria magia em si);
O sagrado como componente da religião (fé religiosa);
O profano como componente do secular e da ciência (baseado apenas no método científico).

Em 1954, Bronislaw Malinowski (que é considerado um dos fundadores da antropologia social) resumiu a relação entre magia, religião e ciência da seguinte maneira: “A ciência, o conhecimento primitivo, proporciona ao homem uma imensa vantagem biológica, colocando-o acima de todo o resto da criação…A fé religiosa estabelece, fixa e melhora todas as atitudes mentais nobres, como reverência pela tradição, harmonia com o ambiente, coragem e confiança ao lidar com dificuldades e ante a perspectiva da morte…A função da magia é ritualizar o otimismo humano, melhorar sua fé na vitória da esperança sobre o medo. A magia expressa o valor maior da confiança sobre a dúvida, da tenacidade sobre a vacilação, do otimismo sobre o pessimismo.”

Esse mesmo antropólogo ofereceu, ainda, uma visão pragmática da magia e da superstição como um modo de enfrentar as ansiedades da vida. “Tanto a magia quanto a religião surgem e funcionam em situações de estresse emocional: crises de vida, atrasos em esforços importantes, morte, infelicidade no amor e desejo de vingança. Tanto a magia quanto a religião abrem caminho para o escape dessas situações”.

Já conhecíamos a visão religiosa do mundo e a visão científica. Obrigado, J.K Rowling por nos apresentar a magia do mundo, usando-a para escapar com tamanha destreza dessas situações… E por nos levar junto nessa viagem.

Coluna baseada na obra “A Ciência de Harry Potter – Como a mágica realmente funciona” de Roger Highfield.

Yuri Rigon é nosso correspondente em algum lugar entre o mundo sobrenatural e o mundo científico.