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Sementes de Petúnia

No começo, era aquela mulher cara-de-cavalo. Depois, vimos que não; era mais uma cara de poucos amigos. Ao longo da série, percebemos que estava mais para… uma cara de quem comeu e não gostou. No final de tudo, não era nem uma, nem outra: eram todas.

[meio-2]Hoje, os leitores ficarão cara-a-cara com esta mulher que escondeu perfeitamente talvez o maior segredo de toda a série: Petúnia Dursley. É nossa colunista Brunna Cassales quem tenta explicar o que há por trás daquela cara tão amarrada — e enigmática. Confira o texto aqui e dê as caras nos comentários!

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Por Brunna Cassales

Uma das primeiras constatações que se faz ao começar a ler Harry Potter é que ninguém gostaria de ter uma infância como a do Menino-Que-Sobreviveu, crescendo sob o teto — e o desprezo — dos Dursley. Petúnia é o tipo de pessoa de quem ninguém gostaria de dar o azar de ser sobrinho. E logo a tia trouxa de Harry é classificada como uma personagem desinteressante se comparada ao fascínio que muitos outros personagens se destacam por exercer sobre os fãs da série.

O que me impulsionou a falar sobre Petúnia foi justamente a razão por trás de toda a sua antipatia. A Sra. Dursley em si pode não ser nada interessante, mas o que a levou a ser tão desagradável é passível de interesse, sim. Sua motivação não é justificável; porém, através dela, compreendemos porque Petúnia sente tanta aversão pelo Mundo dos Bruxos e desprezo pelo sobrinho.

NÃO ENTRE, ARRISCADO!

Quando soube da existência dos bruxos, a jovem Petúnia passou a alimentar a esperança de se tornar uma. Que fã não teria a mesma esperança se estivesse na situação de Petúnia? Ouvir falar sobre um Mundo Mágico, saber que de fato ele é real, sonhar em conhecê-lo e descobrir que não faz parte dele é frustrante. Disso, ninguém pode culpá-la. Há uma linha tênue entre o que Petúnia sentiu quando soube que havia esse Mundo Mágico lá fora e o que sentiu quando percebeu que não era parte dele. A curiosidade mesclada com a desconfiança acerca das informações que o pequeno Severo confidenciava a Lílian difere da rejeição que sentiu ao ter sua insistência em ser uma bruxa negada, mas ambos sentimentos são delineados pela inveja.

Embora não admitisse, Petúnia Evans não se conformou por não ter ingressado em Hogwarts como sua irmã. Ou melhor, não se conformou por não ter ingressado em Hogwarts no lugar dela. Nem a resposta bondosa de Dumbledore a seu apelo desesperado foi suficiente para conformá-la: só a deixou mais indignada. Assim, Petúnia Dursley descontou todas as suas frustrações no sobrinho. Ela não era uma bruxa, não tinha magia, não era o orgulho dos pais, então camuflou suas amarguras considerando Lílian uma aberração – aberração que ela tanto almejou ser.

As ruínas e o aviso que encontraria se fosse até os terrenos da Escola de Magia e Bruxaria com a qual ela sonhou comprovam que não adiantava insistir (movida por seu desejo invejoso) em ser algo que não tinha “vocação” para ser. Petúnia sempre foi essencialmente trouxa (em todos os sentidos, é claro).

A Mulher Perfeita da Rua dos Alfeneiros, nº 4

Apesar de terem sido criadas juntas, as irmãs Evans eram meninas — e se tornaram mulheres — muito diferentes. O modo como mostraram que fariam tudo por seus filhos é absolutamente diverso. Lílian foi a mãe que se sacrificou para proteger Harry quando ele ainda era um bebê, transmitindo a ele o valor que é a base de tudo: o amor. Enquanto Petúnia é a mãe que participou da criação de seu filho, mas preferiu estabelecê-la fazendo todas as vontades de Duda para suprimir as suas próprias.

A tia de Harry é um exemplo notável de como frustrações do passado podem influenciar toda a estrutura da vida de uma pessoa. Isso fica nítido através de seu esforço compulsivo em manter uma boa aparência de normalidade no cotidiano da família.

Cada uma das escolhas de Petúnia é um reflexo disso: o fato de ter se casado com Válter Dursley, um homem que lhe passa segurança por ser normal e complacente com seu ódio pelo que julga anormal, que também considera o seu filho o melhor menino do mundo e não enxerga — ou finge não enxergar — quaisquer coisas que ele faça de errado, e é intransigente com o sobrinho; a pacata vida de dona de casa, sendo a mulher que deixa tudo limpo e organizado, em perfeito estado, e está sempre atenta ao que acontece com os vizinhos… Tudo isso só reforça que Petúnia escolheu levar uma vida que mantém um pseudo-senso de perfeição para fugir do Mundo Mágico que a rejeitou, e que a personalidade e os princípios de moralidade de Petúnia e Lílian são tão diferentes quanto um trasgo é de um hipogrifo.

Apenas uma oscilação

Na constrangida despedida entre Harry e os Dursley, Duda surpreendeu todos ao reconhecer que o primo salvara sua vida. Após anos de hostilidade, Duda estendeu a mão a Harry e mostrou aos leitores que pelo menos algum dos Dursley se salvava. E a reação de Petúnia foi típica: ela rompeu em lágrimas e, não porque nunca mais fosse ver o sobrinho que havia salvado o seu filho, mas porque Duda estava tentando agradecer por ter sido salvo, e correu para abraçá-lo.

Talvez essa reação tivesse também outra razão — a qual ela estaria querendo esconder, quem sabe até de si mesma. Talvez Petúnia Evans Dursley tenha visto o comovente reconhecimento do filho como o ato que, bem lá no fundo de seu âmago, quisera ter a oportunidade de fazer com Lílian: a reconciliação. Algo que seu orgulho jamais admitiria que fizesse, mesmo que fosse possível.

Se realmente teve esse conflito interno ou não, Petúnia preferiu não se expressar muito mais. Ela não olhou para Harry até o último momento; entretanto, quando olhou, passou a ele a estranhíssima sensação de que estava oscilando. Apenas uma oscilação. Afinal, trata-se de Petúnia, uma personagem para a qual J. K. Rowling não poderia ter escolhido nome melhor. Deve-se, primeiramente, estranhar a alusão a uma flor… Mas tudo fica bastante claro quando se descobre que esta flor simboliza raiva e inveja, não beleza ou delicadeza ao que várias flores são comumente associadas.

No jardim de Brunna Cassales, florescem Lírios; mas as Petúnias já morreram.