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Amor sem fronteiras, sexo sem limites

Caro amigo fã de Harry Potter, você lerá agora uma das colunas mais polêmicas que já tivemos na história deste site. Vamos descobrir mais (ou finalmente falar) sobre o mundo das fanfics. Porém, aquelas que não são muitos inocentes…[meio-2]A nova coluna de nossa editora Bruna Moreno conta a sua descoberta dos shippers mais incomuns da trama criada por Rowling. Você já imaginou, por exemplo, Harry/Snape? Pois é…

Portanto, leia e deixe seu comentário e não esqueça de falar qual é o seu casal (imaginário ou não) preferido. E também, claro, se já conferiu esse tipo de fanfic…

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Por Bruna Moreno

Posso dizer que sou uma ficwritter mais ou menos antiga (não velha!). Minha primeira fic foi aos onze anos, com a incumbência de tapar o buraco que o ainda não-lançado quinto livro deixava no meu coração. Com ela, peguei gosto pela coisa: meu passatempo preferido passou a ser imaginar as personagens comigo, no mundo trouxa, fazendo tudo o que eu fazia: Ron tentando usar controles remotos e Voldemort surgindo em plenas férias escolares. Para mim, situações inusitadas que sabia que jamais apareceriam nos livros já faziam parte da minha história preferida. Na minha cabeça, nada poderia me surpreender.

Eis que então, em 2005, eu descobri que internet era mais do que e-mail e RPG de sala de bate-papo. Eu dei uma história minha para minha melhor amiga ler e, na resposta, ela cochichou no meu ouvido: “você não sabe o que eu li esses dias… digita no Google ‘Harry Potter’ e ‘slash’. É: esse-ele-a-esse-agá. É bizarro”.

Eu digitei, claro. A tela do meu computador virou a maior das orgias. Foi bizarro.

De entrada, alguns conceitos

Fiquem sabendo os mais desavidos que slash não é o guitarrista do Guns N’Roses. É um termo de fanfiction que classifica uma história em que há relação afetiva (entenda-se: amorosa) entre homossexuais masculinos. É o equivalente para o termo japonês yaoi. Femmeslash, que vale para as homossexuais femininas, é o mesmo que o yuri dos otakus.

Agora vocês devem estar me achando uma purista preconceituosa por causa do meu “bizarro”, não é? Por favor, esperem pela minha explicação. Acontece que o que eu achei na internet não era só slash. Era lemon também.

Não, minha senhora, não era um limão, na verdade era um tremendo de um abacaxi — lemon é o termo ficwritter para as histórias que têm cenas detalhadas de relação sexual entre gays. Orange é o mesmo conceito, só que para lésbicas.

Aquela feira toda surpreendeu esta menina que achava que imaginar o shipper Harry/ Hermione era a coisa mais bizarra do mundo (se é que isso ainda é bizarro para mim…). Naquela noite, entrei em contato com um mundo totalmente novo, desapegado do canon e defensor do sexo sem limites: o verdadeiro universo das fanfics.

Prato principal: estatísticas

Vocês podem achar que estou exagerando. Se formos considerar o montante de histórias abrigadas pelo Floreios e Borrões, veríamos que, realmente, me enganei e muito: os três shippers que mais contêm fanfics são “canoníssimos”: Harry/ Gina, Ron/ Hermione, James/ Lily. Seria realmente assim se não fosse por um detalhe: esses são apenas três casais dentro de um conjunto de outros dezenove, dos quais catorze são, indubitavelmente, fandom.

“Mas, Bruna”, vocês diriam, “não é como se a Jo tivesse criado muitos casais. ‘Harry Potter’ não tem só a ver com esse tipo de amor, é um livro muito mais profundo que —“ Certo, certo, eu sei disso tudo e, ainda mais, concordo. Mas é que tem outro detalhinho… a fanfic mais lida do nosso site (até o momento da finalização desta coluna, veja bem), escrita por Julia Roquette Granger, intitulada “Harry Potter e o Perfeito e o Proibido” e dona de exatas 67926 visualizações, não tem um, nenhunzinho, shipper canon. Há!

O que eu tiro de tudo isso? Bom, eu até gosto de escrever canon… mas quando leio escondido do papai e da mamãe, leio fanon, lógico!

O Floreios não é exatamente o melhor lugar para eu falar da “feira da fruta”. Por isso, gostaria de pedir licença para falar do fenômeno que observo no outro site em que posto meus próprios textos, o Nyah! Fanfiction. Atualmente, ele é o maior do Brasil no seguimento, porque não abriga só fics de Harry Potter; sua especialidade é mais anime/ mangá. Todavia, nós temos um grande espaço lá, com 2463 textos potterianos. Destes, 14% envolvem casais homossexuais, que, sabemos, não são canon (não venham falar de Dumbledore agora!). Pode parecer muito pouco, mas lembro-lhes que nestas contas considero apenas os shippers de fanon homo, e não hetero. Isto só confirma minha conclusão de cima.

Pouco mais de metade (56%) das fics slash ou femmeslash contém lemon ou orange. Além do que, são 7,5% do total as fics que descrevem relações sexuais homo, contra 4,2% das que têm relação sexual hetero.

O que infiro desse monte de números (vocês nem imaginam como esta garota de Humanas suou para fazer contas de porcentagem!) é: se for para escrever pornografia, o mais gostoso é fanon (huuuum!), e não canon.

De sobremesa, salada de frutas

“Mas é claro, né, Bruna?”, vocês novamente diriam, “’fanfiction’ significa ‘ficção do fã’; portanto, vai privilegiar shippers fanon, e não canon”. Ai, acho que não me expressei muito bem até aqui. A grande questão não é uma história com, por exemplo, James/ Sirius ou Neville/ Gina, que até permitem uma justificativa por meio do plot original.

Não, não, eu estou me referindo a fanfics como aquela que li naquela fatídica noite de que lhes contei no começo desta coluna. Nela (jamais me esqueço), teve Harry/ Hermione, Ron/ Hermione, Lupin/ Hermione, Sirius/ Hermione, Snape/ Hermione (é, a Hermione estava muito carente naquela história), Harry/ Ron, Lupin/ Sirius, Snape/ Sirius… foi uma completa salada de frutas, com direito a leite condensado (baldes de leite condensado…) e cereja na ponta.

De onde, eu lhes pergunto, de onde vem tanta imaginação para criar casais como esses? E por que eles são tão populares?

Digestão

A primeira vez que li Harry/ Snape (sim, isso mesmo, eu não digitei errado) confesso que fiquei com o estômago um pouco revirado. Depois de tantas vezes que começava a ler uma história e ela acabava com esse shipper, ele não me parecia mais tão estranho. O rancor entre os dois inimigos se transformando em amor se tornou muito natural. Hoje… bem, hoje é um dos meus shippers preferidos. Eu sou um dos exemplos de cima, que escreve bem mais canon, mas, que quando vai ler, prefere fanon.

Escrever canon é muito legal. É como se você pudesse se pôr no lugar da própria autora, reformular cenas que você gostaria que fossem diferentes, imaginar o que poderia ter acontecido numa passagem que não pudemos alcançar pelos olhos de Harry, reescrever o passado que Rowling só nos relatou, não nos permitiu viver.

Mas fanon também é demais! Você tem a oportunidade de recriar todo o universo potteriano, desfazer aqueles casaizinhos que você mais odeia e fazer nascer um amor mais seu, talvez mais verdadeiro, selecionar uma simples fala de um personagem e dar a ele uma personalidade totalmente nova, ou talvez só menos recalcada.

Slash e femmeslash, que particularmente vêm ganhando mais espaço, são ainda mais interessantes. Nascidos da maior liberdade de expressão que a internet e a própria sociedade vêm nos dando, são maneiras de liberar nossas próprias paixões: representam o amor mais sincero, que não precisa ficar fixo a regras de gênero arbitrárias.

Antes da conta, um cafezinho, por favor

Gostaria de finalizar esta coluna com um trecho de uma das minhas fanfics preferidas, intitulada “A entrevista coletiva”, da ficwritter Magalud, que me deu completa autorização para esta publicação (você pode achá-la facilmente na internet, e eu recomendo que você vá procurá-la depois). O enredo dela se passa dentro de um programa de entrevistas, em que os personagens confrontam a própria Jo a respeito de seus finais. Não se preocupem, a parte que pus não mostra spoilers — só o verdadeiro espírito dos nossos textos favoritos.

“[…]

ROWLING: Mas agora é tarde demais! Os livros estão escritos, os casais formados… Está tudo definido. Vocês vão ter que se conformar com o jeito que as coisas são.
HARRY POTTER: É o que você pensa. Agora que você não vai mais escrever histórias sobre a gente, estamos livres para realmente ficar com quem nós amamos e com quem nos ama de verdade. Vamos embora, pessoal.
HAGRID: É! Amor sem fronteiras! Sexo sem limites!
LULA GIGANTE: Blurb! Glub! Blurb!
SIRIUS BLACK: Seremos amados como realmente somos, sem censura, sem lições de moral!
LUCIUS MALFOY: E os Slytherin e Death Eaters, claro, sabem tudo sobre perversões e taras sexuais.
ROWLING (chocada): Do que vocês estão falando? Para onde estão indo?
TODOS OS PERSONAGENS: Para os fãs!!
LILY POTTER: Nas fanfics, viveremos para sempre!
REMUS LUPIN: Com quem realmente amamos! Nada de casais forçados, que surgem do nada!
HERMIONE: Eu posso amar o Harry!
DRACO: Eu posso amar a ruivinha gostosa da Ginny!
GILDEROY LOCKHART (saltitante): Eu posso ter minhas memórias de volta e ser mais gay que um boá de penas se eu quiser!!
ROWLING (espumando): Fanfics! Fanfics! Eu odeio fanfics! Vou processar todos!”

Pobre Jo Rowling… espero que ela dê conta de todos nós.

Bruna Moreno fez com que nunca mais leia uma fanfic com os mesmos olhos.