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Outra chance

Durante os sete anos da jornada de Harry e seus conhecidos, os personagens acertaram e erraram diversas vezes. Nenhum deles é perfeito e, por isso, os leitores se identificam tanto. No entanto, um dos ideais das obras de J.K. Rowling é que sempre há tempo para se arrepender e consertar o passado.

A coluna de Mariana Nascimento mostra como cada colega, professor e parente do bruxo passaram por diversas provações e nem sempre tomaram a decisão certa. Mas a vida ofereceu outra chance a todos eles. Além de uma boa discussão, o texto faz uma retrospectiva interessante sobre a história. Leia e deixe seu comentário!

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Por Mariana Nascimento

Todos sabemos que “Harry Potter” não acaba no primeiro livro. Ao chegarmos ao final de “A Pedra Filosofal”, não precisamos nos desesperar, pois aquele final será seguido por outro começo, algo que se repetirá outras seis vezes.

Assim como nós, leitores, temos seis chances de reencontrar o mundo da magia e, consequentemente, algum contentamento, os próprios personagens têm oportunidades de recomeçar. Esse é um modo, aliás, de interpretar a profecia de Trelawney: “um não poderá viver enquanto o outro sobreviver”. Há uma diferença entre os verbos “viver” e “sobreviver” que explica por que seria inaceitável se Harry fosse morto por Voldemort: se este vencesse, Harry terminaria sua vida tendo apenas sobrevivido, e não vivido, sem ter tido a chance de aproveitá-la plenamente, sem ser constante e injustamente perseguido. E a chance de percorrer um caminho melhor é algo que não foi negado a nenhum personagem.

O primeiro exemplo disso é Hermione. A menina “enxerida” de 11 anos e metida a sabe-tudo acaba irritando Rony, mas recebe dele e de Harry a chance de mostrar que podia ser uma boa amiga. É claro que essa chance não lhe foi dada de graça: foi preciso enfrentar um trasgo para ganhá-la. E o que seria de Harry e Rony se eles não tivessem acreditado no lado cordial de Hermione? Por também terem se beneficiado dessa amizade, a chance dada à garota foi, em retrospecto, uma chance (ou muitas chances) que eles deram a si mesmos.

Rony também teve sua segunda chance quando foi desculpado por pensar que Harry colocara o próprio nome no Cálice de Fogo. Alguns livros depois, colocou a amizade em risco ao abandonar Harry e Hermione em meio à busca pelas Horcruxes. Dessa vez, sua atitude pareceu mais grave, tanto que a sensação de Harry foi a de que algo se partira entre eles para sempre, mas Rony pôde colocar tudo no lugar, enfrentando seus medos e quebrando a única coisa que merecia esse destino: o medalhão-Horcrux.

Até mesmo aquele que parecia nunca ter errado precisou rever seus conceitos. Dumbledore não escapou aos equívocos inerentes à condição humana, mas conseguiu superá-los e colocar-se a serviço de uma causa melhor. O fato de ele ter abandonado sua posição inicial, isto é, de defesa do poder dos bruxos sobre ou trouxas, talvez explique seu hábito de confiar em quem muitos não confiariam. Afinal, sua experiência lhe ensinou que é possível que se tome outro caminho quando há vontade e oportunidade.

Um momento em que Dumbledore mostra o que aprendeu sobre segunda chance é quando aconselha Harry sobre o modo de lidar com Monstro. Basta que Harry siga o conselho e passe a tratar Monstro decentemente para que o elfo doméstico comece a exercitar seu lado bom.

Porém, nem todas as chances são aproveitadas adequadamente. Existem aqueles que transformam a oportunidade oferecida por alguém em atitude contra esse alguém. A sujeira é tanta que tais pessoas podem ser comparadas a ratos, embora os pobres roedores não possam ser acusados de erros morais. Tratando-se de Rabicho, pode-se argumentar que ele não teve de fato uma chance de recomeçar, pois se não fugisse, seria mandado para Azkaban. Porém, o problema é que Rabicho não só fugiu da justiça como voltou a se aliar a Voldemort – ou seja, colocou-se contra Harry, aquele que o salvou da vingança de Sirius. No fim, ele se tornou um exemplo de que fazer a escolha errada e desperdiçar uma oportunidade de melhorar podem significar a morte pelas próprias mãos.

Por fim, Voldemort. Depois de toda a destruição que causa, ele recebe a notícia de que tem uma chance de melhorar seu destino, bastando que se arrependa. Trata-se de uma ideia claramente cristã e que se refere ao caminho de Voldemort pós-morte. Caso se arrependesse, Voldemort salvaria “apenas” sua alma (ou o que tivesse sobrado dela), e não sua vida terrena. A sua morte pela dor do arrependimento seria o modo de compensar o mal que fizera neste mundo. É como se o estrago feito por ele fosse tão grande que a única solução possível era eliminar sua fonte ou “cortar o mal pela raiz”, não havendo saída para Voldemort a não ser no plano espiritual. Mas ele não quis colaborar e por isso perdeu sua última chance. Afinal, aceitá-la seria mudar, ter flexibilidade, e Voldemort é o radicalismo em pessoa.

Desse modo, até o pior dos piores tem sua chance de se redimir. No mundo da magia e no mundo cristão, quando todas as oportunidades são desperdiçadas nessa vida, ainda há chance de salvação no além. Mas independentemente de acreditarmos em magia ou no cristianismo, há algo de reconfortante nisso tudo: é que não precisamos nos desesperar, pois havendo a chance de voltar atrás, de reconsiderar nossas atitudes e de mudar, quase nada (principalmente as coisas ruins) precisa durar para sempre. Como nos indicou Dumbledore, isso só depende de nossas escolhas.

Mariana Nascimento dará uma segunda chance se você não concordar com o texto dela.