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Lia Wyler concede entrevista à revista SMK 2.0

Lia Wyler, tradutora dos livros da série Potter aqui no Brasil, concedeu uma entrevista à revista SMK 2.0, em parceria com o PotterHeaven, em que fala sobre trabalhar na tradução de Harry Potter (primeira parte da entrevista) e sobre o trabalho geral de tradução (segunda parte). Confira alguns trechos:

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Durante o processo de tradução dos volumes da série, qual foi o grau de interferência da autora J.K. Rowling?
“A autora não interferiu, mas o detentor dos direitos autorais, que não é a J.K.Rowling, e os revisores da editora inglesa e brasileira interferiram bastante”.

Qual foi sua primeira impressão da série Harry Potter? Imaginava que faria tanto sucesso?
“O meu espanto inicial ao folhear aquele livro feioso de quarenta linhas por página foi a sátira à classe média inglesa e suas reações a um gato comum, que lê placas de rua e consulta mapas, a pessoas de vestes extravagantes que se cumprimentam alegremente e ao telejornal que dá conta de estranhos fenômenos celestes. Mas, confesso, não registrei os sinais de que estava iniciando uma extraordinária experiência que me traria alegrias e mágoas e viria contrariar os teóricos trouxas que dizem que o tradutor é invisível dentro e fora do texto.

Quanto ao sucesso, foi surpresa para todos. Inclusive para a autora”.

Leia a entrevista na íntegra em notícia completa.

LIA WYLER
Entrevistamos Lia Wyler

Redação SMK 2.0

Parte I (Harry Potter)

SMK: Qual a sua rotina de trabalho ao traduzir um livro? Foi preciso algum tipo de tratamento especial com a série Harry Potter?

Lia: Cada tradutor tem uma rotina própria e embora os profissionais declarem não ler previamente o livro que vão traduzir, cada livro exige três leituras:

— a que se faz traduzindo;

— a que se faz cotejando (comparando o original e a tradução para verificar se há enganos ou saltos)

— e uma última leitura do texto já em português para verificar se flui satisfatoriamente.

Em uma série, o tradutor se obriga a repetir escolhas feitas anteriormente, ainda que saiba que estejam erradas ou existam outras melhores.

SMK: Durante o processo de tradução dos volumes da série, qual foi o grau de interferência da autora J.K. Rowling?

Lia: A autora não interferiu, mas o detentor dos direitos autorais, que não é a J.K.Rowling, e os revisores da editora inglesa e brasileira interferiram bastante.

SMK: Dando uma olhada para trás, qual diria ter sido o legado profissional que a série Harry Potter deixou em sua carreira?

Lia: A série HP foi um fenômeno mundial que produziu mudanças sociais em todos os países onde foi lançada – 68 em tradução. Em setembro de 2009 participei de um encontro de tradutores de HP organizado pela UNESCO em Paris e em três mesas redondas mostrei projeções de alguns desses efeitos mais visíveis no Brasil.

Trabalhar com uma série iniciada em 1998 e concluída em 2008 para mim foi um grande desafio que me tornou conhecida em todo o Brasil e no exterior — fiz traduções de conteúdo – e foi imensamente proveitoso profissionalmente.

SMK: Durante as traduções, chegou a ter um carinho especial por algum personagem da série Harry Potter?

Lia: Os gêmeos Weasley cujas travessuras lembraram a minha infância e a professora Minerva com a sua severidade externa e o coração de manteiga.

SMK: Qual a maior dificuldade que um tradutor encontra ao trabalhar em uma série tão grandiosa quanto a de J.K. Rowling?

Lia: A escassez de tempo e a ambição desmedida dos envolvidos.

SMK: Qual foi sua primeira impressão da série Harry Potter? Imaginava que faria tanto sucesso?

Lia: Vou repetir aqui o trecho de um artigo que escrevi para a Folha de São Paulo no décimo ano da série:

“O meu espanto inicial ao folhear aquele livro feioso de quarenta linhas por página foi a sátira à classe média inglesa e suas reações a um gato comum, que lê placas de rua e consulta mapas, a pessoas de vestes extravagantes que se cumprimentam alegremente e ao telejornal que dá conta de estranhos fenômenos celestes. Mas, confesso, não registrei os sinais de que estava iniciando uma extraordinária experiência que me traria alegrias e mágoas e viria contrariar os teóricos trouxas que dizem que o tradutor é invisível dentro e fora do texto.”

Quanto ao sucesso, foi surpresa para todos. Inclusive para a autora.

SMK: Qual livro da série que mais gostou de traduzir? E o que, pessoalmente, gostou de ler?

Lia: O primeiro livro da série, pois descortinou um universo único que não será igualado no próximo meio século. Tradutor não lê para curtir infelizmente.

Parte II (Tradução)

SMK: O que te levou a querer ser tradutora profissional?

Lia: Não sei.

SMK: Você já trabalhou com diversos gêneros de tradução, como livros de romance, textos científicos e verbetes de enciclopédia. Há alguma preferência?

Lia: Os livros de divulgação científica e os de boa ficção.

SMK: Qual foi o trabalho mais prazeroso de fazer em toda a sua profissão, e pelo qual sente mais orgulho?

Lia: Fogueira das Vaidades do escritor norte-americano Tom Wolf, que exigiu conhecimentos de várias áreas em uma época em que não havia as facilidades da Internet. Poderia dizer o mesmo dos três primeiros volumes da série Harry Potter.

SMK: Atualmente existem diversos tradutores amadores na internet que fazem traduções em sites de fãs, por puro amor ao ídolo. Traduzem entrevistas, artigos, e até mesmo livros que não foram trazidos para o Brasil. O que você acha disso? Acredita que atrapalhe o trabalho do tradutor profissional, ou pode cooperar para a valorização do mesmo?

Lia: A Internet é um veículo novo com regras novas e a sua contribuição só poderá ser julgada dentro de alguns anos quando todos os seus efeitos puderem ser avaliados e pesados.

Caminhamos aceleradamente para a adoção do inglês como língua mundial. A redução do léxico de todas as outras línguas, a adoção de vocabulários ilógicos, exceto em inglês, são alguns desses sintomas que já podem ser observados.

SMK: Você atua no mercado há muitos anos. Como é o mercado na área de tradução no Brasil, e qual foi a maior dificuldade que você enfrentou? O que você deixaria como dica àqueles que se interessam em trabalhar no ramo?

Lia: É difícil quando se traduz há 40 anos falar do mercado de tradução no Brasil. O de vinte anos atrás? O atual? A maior dificuldade que o tradutor sempre enfrentou ao longo de todo esse tempo foi a má remuneração e a exigüidade de tempo. Por outro lado, expande-se diariamente o conhecimento instrumental do tradutor — será que os novos tradutores estão acompanhando essa evolução? A minha dica? Informar-se cada vez mais para ser capaz de fazer opções onde quer que se ofereçam.

SMK: Sabemos que hoje você oferece oficinas sobre tradução, de diferentes gêneros, e também é professora de universidade, mas ainda está com algum projeto de tradução que possa contar pra gente?

Lia: Atualizando: não ensino mais em universidades – é muito cansativo e pouco compensador em termos de remuneração e convívio. Por ordem de importância, traduzir, dar oficinas, apenas duas agora (ambas visam a fluência), vejam no meu site www.liawyler.com, e escrever artigos sobre aspectos menos conhecidos da tradução me manteem ocupada.

SMK: Para finalizar, gostaríamos de agradecer sua disposição e atenção para conosco, e pedir se poderia falar um pouco mais sobre suas oficinas para os leitores jovens da SMK que tenham interesse em participar.

Lia: Obrigada pela oportunidade de fazer um comercial! rs. As oficinas – uma a cada dois meses — reúnem apenas 6 participantes por vez e teem 8 horas de duração. As sessões de duas horas compreendem projeções, discussão de recursos utilizados e exemplos reais.

Conteúdos:

Oficina 1 — Fluência: macro e micro contextos; figuras de estilo; gêneros literários e fontes de pesquisa.

Oficina 2 — Diferenças na abordagem de textos técnicos e literários: procedimentos de tradução; registros; aspectos verbais.