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Os valores em Harry Potter

Sete livros, todos com muitas páginas. Muitos personagens, tramas e lugares. Mas o que fica para os leitores? Quais são os pilares em que a história de Harry Potter se sustenta? Nosso colunista Breno Alvarenga responde essa questão com três valores.

São eles Família, o Bem e o Amor. O contraste entre a Rua dos Alfeneiros e a Toca demonstra o quanto o ambiente é importante na nossa formação, tanto quanto a forma que resistimos a nos corromper. Não deixe de conferir o texto na íntegra aqui e colocar sua opinião nos comentários.

Por Breno Alvarenga

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O mundo mágico de Harry Potter, criado por J.K Rowling, se assemelha ao nosso mundo trouxa de tal maneira que, sem a bruxaria na série, teríamos um belo retrato da nossa sociedade. É possível reconhecer, tanto nos livros quanto à nossa volta, órgãos públicos corruptos e ineficientes, censura nos meios de comunicação, a comodidade da sociedade diante dos seus problemas, a repressão, pessoas más infiltradas nas diversas camadas da população e o sonho de um mundo melhor. O que nos falta é lutar por um viver mais digno.

Se, nos livros, Harry Potter foi o escolhido para fazer isso, devemos nos portar em nosso mundo como os escolhidos, sendo que a profecia reveladora de tal incumbência seja a nossa índole. J.K nos deu pistas de como lutar pelos nossos direitos como cidadãos durante toda a série e, para isso, nos mostrou a importância dos valores em nossa vida, valores estes que nos permitem reconhecer a nós para nós mesmos e como seres dentro de uma sociedade. A seguir, analisarei três dos valores que acredito terem sido essenciais durante a jornada de Harry Potter: a família, o bem e o amor.

A família
Harry Potter deve sua vida à sua família duas vezes: primeiro, por ter sido concebido pelos seus pais e, segundo, ao ser salvo da morte devido ao amor de sua mãe. Sem o elemento família, a história do menino que sobreviveu pararia antes mesmo deste ser chamado assim.

A família traz consigo um belíssimo e inexplicável sentimento: o de amar alguém que quando em outra situação não teríamos a disposição de conhecer. Quantas vezes ouvimos “meu irmão não tem nada a ver comigo, mas eu o amo”? Essa convivência quase que obrigatória nos leva o observar, compreender, acompanhar e admirar a jornada dos familiares, enquanto nos outros nos contentamos em julgá-los como dignos de nos acompanhar pela vida em um encontro ou dois. É na família que encontramos a segurança de estar de volta, o alívio de ter apoio quando a única companhia é a solidão e a certeza de ser amado independente de suas fases e humores. Pelo menos é este o estereótipo de família.

Na série, encontramos um inesquecível exemplo deste estereotipo familiar: Os Weasleys. A união desta família é tão grande que nos dá a impressão de que é esta a única forte e duradoura relação que conseguem manter. Os Weasleys são incapazes de fazer amigos. Têm a necessidade de incorporar todos de sua convivência em sua família. Tonks, Sirius, Lupin, Hermione, Harry e diversos outros personagens foram, ao longo dos livros, fazendo parte da grande família Weasley. Foi na Toca que todos encontraram refúgio, amor, atenção e uma bela refeição. Harry, órfão, só tivera como um exemplo familiar os Dursley, onde era tratado como um indesejável. Sua necessidade de ter uma família foi, em grande parte, suprida pelos Weasleys, que o acompanharam durante sua jornada como o escolhido.

O Bem
Aristóteles dizia que os homens bons têm a necessidade de agir virtuosamente, desejando ao outro, seu amigo, aquilo que deseja a si mesmo. Estas ações virtuosas despertam nos demais, segundo Aristóteles, a vontade de agir da mesma forma, se tornando também, com o tempo, um homem bom. A ideia de Bem, portanto, se torna mais concreta quando há uma união de forças.

Durante toda a série há essa ideologia mostrada. A jornada de Harry no último livro não teria sido, provavelmente, tão satisfatória sem a companhia de Rony e Hermione. A Ordem da Fênix e a Armada Dumbledore são ainda exemplos da união de forças em prol de um bem maior. Esta ideia é bem representada no filme “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, quando, aos poucos, as luzes das varinhas vão se direcionando ao céu contra a Marca Negra, que é logo destruída. Na batalha de Hogwarts, em “Relíquias da Morte”, a união do bem atinge sua maior intensidade e esperar que a série tivesse um outro final seria esperar que J.K traísse os valores que ela mesma deixou claro acreditar durante toda a obra.

É sabido que quanto mais se pratica o bem, melhor se torna a pessoa. Esta, portanto, melhor para os demais, se torna melhor consigo mesma. A luta pelo bem é incessante, mas nunca em vão. Quem luta pelo bem, luta pelo crescimento da alma, enquanto quem luta pelo mal, só satisfeito estará quando atingido o objetivo final. A diferença está na trajetória: enquanto o primeiro tem todo o aprendizado nela, o segundo a tem como um obstáculo obrigatório. No entanto, o bem é filho de outro valor:

O Amor
É clichê e pedante dizer que o amor é o pai dos sentimentos, mas é uma verdade. O elemento família se constitui e mais forte se torna com o amor entre os envolvidos. Ser e praticar o bem é amar o outro e a si mesmo. O senso de justiça vem do amor ao espaço e aos bons convívios a nossa volta. A felicidade é o resultado de amar a própria jornada, estando satisfeito com esta. Enfim, amar é abrir os olhos todos os dias, uma vez que o maior amor que pode existir é amar a sua existência e, portanto, a sua capacidade de ter amor por tudo mais.

A jornada de Harry Potter se inicia com amor de seus pais, se reinicia com o amor de sua mãe e se constrói com mais amor. Amor pelos amigos, ao acreditar que podem ter uma vida melhor e mais justa. Amor pelo espaço à sua volta, uma vez que luta por deixar transparecer sua melhor faceta. Amor por si mesmo, ao querer despertar em si cada vez mais o bem e se dar o direito de viver plenamente e em segurança.

Para os olhos de muito, Harry Potter não é literatura e é algo fútil e longe da realidade. Olhos cegos de preconceito, penso eu. Mas estes comentários passam despercebidos por mim. Só eu tenho o imenso prazer de reconhecer o crescimento que a série me proporcionou, com seus valores e ensinamentos. Calo-me ao ouvir isto, porque tenho a alegria de saber que tenho olhos cegos de mágica. Mais alegre ainda de reconhecer que essa mágica está dentro de mim e no mundo que enxergo com meus novos olhos. Posso petrificar lembranças, estuporar sentimentos ruins e explorar minha essência com um bom lumus máxima.

Breno Alvarenga ama sua famíla e pratica o bem com seus belos textos.