Filmes e peças ︎◆ O Enigma do Príncipe

Bruno Delbonnel recusou fotografia de Relíquias da Morte

Algumas entrevistas com os indicados ao Oscar deste ano vem sendo divulgadas online, e agora foi a vez da Academia trazer o jogo de perguntas e respostas com o diretor de fotografia de Harry Potter e o Enigma do Príncipe, o francês Bruno Delbonnel.[meio-2]

Bruno contou quais eram seus sonhos e ambiçoes quando criança e como descobriu que queria ser um cineasta, revelou quais obstáculos precisou superar para chegar aonde está, e citou alguns mestres da fotografia que o inspiraram. Sobre Harry Potter, ele comentou dos desafios enfrentados, o momento mais memorável em seu trabalho na sexta película, e o que pensa sobre ela.

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Ao assistir o filme agora, o que você pensa sobre ele?
É uma pergunta complicada. Estou feliz por tê-lo feito, acho que ficou bonito, mas agora estou em outro lugar. Quero tentar algo diferente. Provavelmente foi por isso que disse “não” ao último Harry Potter quando me perguntaram se eu queria fazê-lo. Acho que estava com medo de me repetir. Precisava seguir adiante.

A tradução da entrevista pode ser lida, como sempre, em notícia completa!

Enigma do Príncipe” está concorrendo à categoria Melhor Fotografia ao lado de “Avatar”, “Guerra ao Terror” – que atualmente corre perigo de ser desclassificado -, “Bastardos Inglórios” e “A Fita Branca”. A premiação será realizada no dia 7 desse mês.

BRUNO DELBONNEL
Questionário com os indicados ao Oscar

ABC
28 de fevereiro de 2010
Tradução: Sylvia Souza

Nome do indicado: Bruno Delbonnel

Indicado por: Fotografia em Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Quais eram seus sonhos e ambições quando era criança?

Meu primeiro sonho, quando tinha seis anos de idade, era o de ser um bombeiro, como qualquer criança…

Quando tinha por volta de 13 anos, queria ser pintor ou pelo menos um artista. De algum modo, a arte era tudo. Quando cheguei aos 16 ou 17 anos de idade, descobri de verdade o cinema. Em Paris havia muitos cinemas nos quais assisti a muitos, muitos filmes.

Então eu decidi, após descobrir os grandes mestres, que ser diretor era meu objetivo.

Quando você descobriu que era um cineasta?

Não sei se sou um cineasta.

Sei que dirigi um curta-metragem quando tinha 20 anos de idade e meu diretor de fotografia era Henri Alekan, que também foi o diretor de fotografia de “A Bela e a Fera”.

Quando o vi trabalhando, me dei conta de que não era um diretor. Mas em fotografia havia tudo que eu amava: composição, arquitetura, cor, música, ritmo…

Desde então eu tento ser um fotógrafo de cinema.

Uma grande quantidade de fotógrafos emergentes lerá isso, diga a eles que tipo de obstáculos você precisou superar para chegar até este ponto na sua carreira.

Acho que há dois tipos distintos de obstáculos. O primeiro é “quando” e “como” você começa. O segundo é sobre você mesmo como fotógrafo.

Quando comecei na França, 99% dos fotógrafos e assistentes de câmera tinham se formado em “Louis Lumiere”, que era e ainda é a principal escola para fotógrafos em Paris. Eu não me formei nesta escola, o que não é um grande problema, mas fez com que o caminho fosse mais árduo. Eu lembro de ter ligado para fotógrafos para conseguir emprego como carregador e de ter ouvido a mesma pergunta o tempo todo: “Você se formou na ‘Louis Lumiere’? Se não, não precisamos de você.” Justo.

Mas então o obstáculo agora era arranjar uma maneira de manter a fé e a confiança quando as portas se fechavam tão rapidamente?

Eu acho que esta situação do “obstáculo” não é tão interessante. Todos temos um começo bastante difícil que podemos chamar de “barreiras” ou “dificuldades”. (eu presumo que todos tenhamos…)

Eu realmente acho que o verdadeiro “obstáculo” é se tornar um fotógrafo. É se livrar de todas as influências dos mestres da fotografia, mesmo que você admire muitos deles. O obstáculo é o desafio da fotografia. Aprender que a luz é difícil de domar, porque a luz é viva. É sobre desafiar a si mesmo, encontrar seu próprio estilo, entender como você pode experimentar sem perder a emoção. É sobre encontrar o ritmo da luz dentro de um filme. É sobre encontrar um meio de utilizar a luz de um modo dramático, emotivo, poderoso, sutil. É sobre criar uma melodia com a luz… é sobre perder aquelas noções simples de efeitos de dia ou noite, para transformar em algo “poético” ou “abstrato”.

Acho que estes tópicos são os obstáculos porque são o que me mantém em movimento e tem a ver com meu modo de ver as coisas, meu modo de reagir com a luz a uma história.

E às vezes você atinge o obstáculo e cai. Você precisa admitir que pode cair.

O que (ou quem) inspirou você a fazer o que faz?

Acho que esta pergunta está ligada à anterior.

É claro que muitos dos mestres da fotografia me inspiraram. Grandes fotógrafos como Gregg Toland, Giuseppe Rotunno, Gianni di Venanzo, Vittorio Storaro, Vilmos Szigmond, Gordon Willis, John Alcott, Henri Decae… (a lista é bem longa)

Fotógrafos modernos como: Roger Deakins, Bob Richardson, Harry Savides, Emmanuel Lubezki, Janusz Kaminski… (peço desculpas aos que não mencionei, mas não os esqueço). Sempre me impressiono com aqueles fotógrafos que tentam uma visão específica; que se arriscam muito.

Mas acho que minha maior fonte de inspiração está em outro lugar agora.

Eu tento usar o ensinamento de arquitetos como Frank Gehry e Peter Zumthor; músicos como Ligeti, Schnittke, Nono, Dusapin; artistas contemporâneos como James Turrell, Ólafur Eliasson, Bill Viola, Cy Twombly…

Luz é um tipo de arquitetura. Quando olho para uma construção de Frank Gehry, pergunto a mim mesmo se poderia desconstruir a luz do modo que ele “desconstroi/reconstroi” a forma de sua construção. O que isso significaria, então? O que poderia ser uma “luz desconstruída”? Eu poderia achar um ritmo na iluminação como há um na Arquitetura?

Luz é uma melodia. Eu poderia achar uma variação sobre um tema como um músico faz em uma canção. O que seria essa variação? O que poderia ser no meu mundo de “luz” este conceito de metal e madeira que você encontraria em alguma construção de Peter Zumthor? E “Abstração” na pintura? Poderia a luz ser totalmente abstrata? Como ela seria?

Eu não sei se me saio bem usando estas fontes de inspiração, mas sei que todas essas diferentes formas de arte me “alimentam” de muitos modos diferentes.

Eu sei que “Harry Potter” foi baseado em algumas dessas influências. Eu tentei desenvolver uma palheta “cinza” ou essa “variação de cinzas” baseada no roteiro, é claro, mas também nessas ideias vindo de diferentes influências além do cinema.

Qual foi o maior desafio que você enfrentou no filme pelo qual foi indicado?

Primeiramente acho que foi ser tão bom quanto os fotógrafos que me precederam em Harry Potter: John Seale, Roger Pratt, Michael Seresin, Slawomir Idziak.

Ser tão bom quanto, mas diferente.

Alguns dos cenários estão lá desde o primeiro filme da série. Como eu poderia iluminá-los de um jeito diferente? Esta pergunta trouxe outra baseada na própria série. Era o sexto filme, a história era menos sobre as grandes brigas e mais sobre os relacionamentos entre os personagens. Porém, o drama ainda está presente e achei que seria interessante ter essas histórias extremamente íntimas entrelaçadas a esse “humor” tão sombrio. Como se a própria escola fosse um personagem sombrio. Foi então que sugeri usarmos (novamente) essas variações sombrias de cinza. Felizmente David Yates e os produtores gostaram da ideia.

Então em termos de desafios técnicos, eu tinha esta ideia para a cena na ilha de cristal dentro da caverna, de adicionar luz em movimento. Eu queria ter algum tipo de dinamismo com a luz. A cena é bem estática na frente da bacia de cristal em uma ilha que não é tão grande. Eu achei que seria interessante e mais dramático se a luz estivesse flutuando, circulando sobre os rostos dos personagens; às vezes iluminando-os, às vezes escondendo-os de um modo muito aleatório e imprevisível.

Para isso, eu coloquei uma caixa leve de 6kW em uma cabeça remota no fim de um Technocrane (um telescópico na ponta de um guindaste) de 15,24 metros que eu estava operando. Foi uma ideia desafiadora porque era minha única luz e não havia volta; significa que o que estava escuro, estava muito escuro. Mas foi um desafio muito interessante (talvez eu seja o único que pensa assim…)

Qual foi seu momento mais memorável neste filme?

Acho que foi quando vi os “diários” desta cena da caverna e quando vi a luz desaparecendo no rosto de Dumbledore no meio de uma de suas falas. Para mim, isso subitamente adicionou tensão e drama somente com o uso da luz de um modo simples.

Mas houve outro momento, que foi trabalhar com Stuart Craig, o fantástico produtor de arte. Nós compartilhamos muitas ideias e seu entusiasmo foi incrível. E andar por seus cenários é algo que eu nunca tinha vivenciado antes em tal nível.

Houve muitos momentos memoráveis…

Ao assistir o filme agora, o que você pensa sobre ele?

É uma pergunta complicada.

Estou feliz por tê-lo feito, acho que ficou bonito, mas agora estou em outro lugar. Quero tentar algo diferente. Provavelmente foi por isso que disse “não” ao último Harry Potter quando me perguntaram se eu queria fazê-lo.

Acho que estava com medo de me repetir. Precisava seguir adiante.

Quem, dentre todos seus companheiros indicados, você está mais ansioso para conhecer?

Que tipo de pergunta é essa? Todos eles, é claro. Somos todos tão diferentes uns dos outros, que eu estou muito interessado em ouvir sobre suas abordagens na fotografia.

Algo que você gostaria de acrescentar?

Alguém sabe algum modo de fazer com que seu coração não bata tão rápido quando dizem “próxima categoria: fotografia”? É angustiante.