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Uma janela para o passado

O tempo, conceito tão confuso e dificilmente explicável o qual rege o mundo e nos faz reféns de sua ação, é retratado de forma singular por mais um novo membro de nossa nova equipe, a colunista Brunna Cassales. Leia a coluna completa aqui e descubra os motivos por trás dessa ânsia em viajar pelos acontecimentos da nossa própria vida. Vamos brindar com suco de abóbora nos comentários ao texto de nossa quarta nova colunista!

Por Brunna Cassales

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O tempo sempre esteve ligado aos mistérios que o transcendem. O desejo desesperado de mudar algo no passado e a ansiedade para viver o próprio futuro não podem, infelizmente, ser supridos na realidade, mas a ficção nos faz apreciar modos bem elaborados pelos quais as pessoas podem viajar no tempo. Por intermédio de máquinas inteligentes e /ou jornadas no espaço, esse assunto ganhou força. Em Harry Potter, “virar o tempo” fugiu do padrão tecnológico com que a temática era predominantemente abordada. Retroceder algumas horas através de um objeto mágico e, assim, ter uma segunda chance, é uma das coisas que mais fazem com que nós, trouxas, sonhemos com o Mundo dos Bruxos.

Como se não bastasse o regresso físico, há a possibilidade de assistir lembranças próprias ou de outras pessoas de dentro delas, seja através de uma Penseira ou Legilimência, o que eleva, ainda mais, o nosso fascínio. Mas qual será o motivo da fixação que o ser humano tem em não se contentar com o presente? O que traz a vontade de retroceder é, obviamente, a memória, um tesouro que o cérebro guarda para nos fazer vivenciar novamente cada momento que é considerado importante. E querer se adiantar no tempo é natural, principalmente para quem gosta de planejar sua vida. Ok, é compreensível. Entretanto, isso não significa que toda a questão não seja intrigante. O tempo é um enigma que estabelece limites. Para quem abre a mente e é cativado por um universo fantástico, a imaginação não tem limites, vai além do raciocínio lógico e é coadunada com os mais diversificados sonhos – desde os singelos até surreais. E mesmo quem se limita a só ser impulsionado pelo que acredita ser real, teria muitas perguntas para alguém que lhe soubesse explicar o que é, de fato, o tempo.

A questão que mais interessa não é uma definição. É o papel que o tempo exerce na vida de cada um. É a diferença que um minuto, ou até mesmo segundos, podem fazer – o que resulta no desejo de retornar para um determinado fato, seja grave ou não, e mudá-lo. Não só se tornou comum, mas é na verdade um verdadeiro legado querer voltar e não estragar tudo: ou não magoar quem amamos, ou salvar esse alguém; ou, simplesmente, ter cautela. O difícil da relação do tempo com o arrependimento é aceitar o irreversível. Seja um desejo altruísta ou egoísta, querer transformar o que já não se pode é algo que fica intrínseco ao ser humano, faz parte do que somos. É como querer que o reflexo de um erro seja o que o conserta. Um espelho só vai refletir o que já vimos, o que já aconteceu. Através de uma janela, embora vendo o que já se está habituado a ver, poder-se-ia realmente enxergar um outro rumo, sem ir para outro lugar. Através de “uma janela para o passado”, como no nome da música de John Williams. Afinal, mesmo do presente é possível – e, por que não, mágico? – olhar para o passado e transformar o futuro.

Brunna Cassales jura ter um vira-tempo guardado a sete chaves em algum lugar.