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O Guardião das Chaves

Hagrid é, sem dúvidas, um dos maiores geradores de opiniões controversas na saga Potter: enquanto alguns dedicam ao grandão admiração e carinho, outros tratam sua imagem como a de um simples figurante atrapalhado e desnecessário na história de Hogwarts e mesmo na vida de nosso Harry. Pâmela Lima nos presenteia mais uma vez como uma análise brilhante, dessa vez mostrando aos fãs da série que o meio-gigante no qual Dumbledore tanto confiava é digno dessa confiança e de muito mais. Leia a coluna completa aqui e dê sua opinião!

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Por Pâmela Lima

O Guardião das Chaves

Para alguns bruxos a entrada no mundo da magia se dá na própria família. Aqueles que já nascem em família bruxa convivem diariamente, desde os primeiros passos, com feitiços sendo realizados dentro de casa e caldeirões espalhados pelo jardim. Já os nascidos-trouxas são avisados em seu décimo primeiro aniversário que estão convidados a entrar nesse mundo, onde poderão entender seus maravilhosos poderes. Sabemos que Severus Snape foi o primeiro a avisar Lily sobre seus poderes. E o fato de Snape não ser o garotinho mais apresentável da vizinhança e, mesmo assim, ter despertado a amizade de Lily, me faz pensar que o que uniu os dois, acima de tudo, foi essa apresentação.

É quase a mesma coisa que nunca esquecer o grande primeiro amor, ou nunca esquecer a primeira grande decepção. É como quando temos certeza de que sempre nos lembraremos do primeiro livro ou da professora que nos ensinou a ler. É a entrada para um mundo novo, dada por alguém que nunca conseguiremos odiar completamente.

E essa coluna é para falar do homem que levou Harry ao Beco Diagonal pela primeira vez e, consequentemente, nos levou até Hogwarts pela primeira vez: Rubeus Hagrid.

O guarda-caças

Hagrid é um meio-gigante, o que o torna mais alto, forte e resistente do que os humanos comuns. E a vantagem de ter esse tamanho todo é que, além de resistir bravamente em algumas batalhas, ele também tem mais facilidade de domar animais um pouco incompreendidos – como ele mesmo gosta de dizer. Testrálios misteriosos, orgulhosos hipogrifos e, seu preferidos, os dragões, fazem parte do quintal de Hagrid. Mas acima dessa vantagem física vem outra: ele sabe cuidar dos animais. Cuidar exige atenção, carinho, até certa dose de delicadeza. E mesmo que tenha todo o porte para ser a brutalidade em pessoa, ele consegue – obviamente derrubando metade das coisas que vê pela frente – tratar dos casos mais impossíveis.

E por isso logo ele, dentre todos os bruxos da Ordem da Fênix, foi escolhido para levar Harry até os Dursley e, após anos, leva-lo a Hogwarts.

A confiança de Dumbledore no guarda-caças data da época em que o diretor ainda dava aulas e Hagrid era um menino do terceiro ano, tendo sua varinha quebrada pelo Ministério da Magia. O meio-gigante foi acusado de um crime que não cometeu e ainda assim se resignou e fez de tudo para, pelo menos, proteger seu novo bichinho: uma acromântula (cuja morte foi muito chorada no sexto livro da série). Logo depois da expulsão o professor insistiu a Armando Dippet, o diretor, para deixar que Hagrid continuasse na escola cuidando dos animais.

Acredito que Dumbledore sabia que a culpa do crime não era do garoto. Que sabia que Tom Riddle estava no caso. Que, muito tempo depois, também sabia sobre o que estava escondido no guarda-chuva cor-de-rosa que o meio-gigante sempre levava. Mas a confiança e o vínculo criado entre esses dois grandes homens se davam por apenas um fato:

Dumbledore sabia que Hagrid era bom.

O Guardião das Chaves de Hogwarts

Bondade genuína e desinteressada é algo muito raro, inclusive em livros de ficção (que, de qualquer modo, devem retratar a realidade humana). A maioria das pessoas tem apenas momentos de bondade pura, em que fazem algo que não lhes trará benefícios diretos. Porém sabemos que o mesmo não acontece com Hagrid. Logo que ele chega à cabana em que os Dursley tentam esconder Harry o guarda-caças traz, em um dos bolsos do seu casaco peludo, o primeiro ato do bem: um bolo de aniversário, algo que o pequeno garoto nunca tivera. Ignore agora que o bolo era ruim.

Ele nunca esquecia um aniversário, nunca deixava de estar à mesa no Natal, nunca desrespeitou aqueles a quem era fiel. Mesmo com seu pequeno problema com a bebida, que o fez contar alguns segredos que não deviam ser revelados. No sétimo livro da série, quando se descobre que há um espião dentro da Ordem da Fênix, Harry não se atreve a pensar que possa ser o meio-gigante (e chega a afirmar que o ama).

Falando no Menino-que-Sobreviveu, esse sim tem uma relação interessante com Hagrid, que volta àquilo que falei no início do texto. Para Harry, Hagrid simboliza a magia. Tanto como professor, como amigo ou como organizador de eventos “Apóie Potter”, ele traz confiança. Diria que foi o primeiro porto seguro que Harry teve na vida, e que ele desejava passar o mesmo para os filhos. Sabemos, pelo menos, que Albus Severus estava convidado para um café com bolinhos na sua primeira semana de aula.

Vínculo forte, o desses dois. No primeiro livro Hagrid carrega o bebê-que-sobreviveu em uma só mão e, no sétimo, carrega o “corpo morto” do homem-que-sobreviveu-duas-vezes. Se pararmos para pensar, existe no mínimo um universo de conexões entre as almas dessas duas pessoas.

As melhores chaves

Por esses pequenos detalhes eu não posso deixar de me indignar quando vejo alguém dizer que ele é só mais um bobão na história, que não serve para nada, que só atrapalha ou que é apenas uma veia cômica.

Ele era um guerreiro. Um homem que desafiava as autoridades. Um domador das feras mais inimagináveis. Um ombro enorme e acolhedor para consolar Hermione quando ela foi chamada de sangue-ruim, ou para cuidar de Ron enquanto ele vomitava lesmas, ou para amparar o irmão gigante. E mais: para cuidar de um jovem órfão (como ele mesmo era) enquanto este dava os primeiros passos para se tornar a grande lenda do mundo da magia.

Hagrid representa a bondade, a amizade, o bom humor, a família que acabamos conhecendo ao longo da vida. Hagrid é aquele amigo que tira você das piores enrascadas e também é aquele avô que faz questão de alimentar todo mundo. Além disso, foi aquele que nos trouxe Harry e nos levou a Hogwarts em uma pequena jangada que atravessava o Lago Negro.

E por isso eu digo que, no chaveiro que ele guarda no enorme bolso do casaco, junto com as chaves dos portões de Hogwarts, está a chave do meu coração também.

Pâmela Lima se despede da edição de colunas dizendo que foi muito legal e desejando bom retorno à Isa.