As Relíquias da Morte ︎◆ Filmes e peças ︎◆ Parte 1

Arthur Melo pondera escolha e opções para trilha de RdM

Na terça-feira, os fãs foram surpreendidos com a divulgação do responsável pela trilha sonora de Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 – o compositor francês Alexandre Desplat, dando fim, portanto, aos rumores sobre um possível retorno de John Williams.Hoje trazemos um artigo escrito pelo nosso crítico de cinema sobre essa escolha inusitada. Arthur Melo explica o possível motivo pelo qual Alexandre foi nomeado ao cargo, comenta sobre suas composições para diferentes longas, e dá sua opinião sobre vários sugeridos pelos nossos visitantes nos comentários.

Alexandre Desplat foi o escolhido. Isso é bom? Bem… a princípio, não. Foi uma escolha pensada? Na verdade, sinto cheiro de segunda opção. Não sejamos levianos. É óbvio que os produtores, depois de seis filmes e mais dois engatilhados, conhecem os gostos de seu público. Lógico que eles sabiam que a preferência de todos era o Williams. Então, asseguro que se ele não se faz presente agora é porque não deu. E se ainda não há um nome certo para a Parte II é porque fatalmente ainda o querem lá. E o fato de tentarem já é um bom começo.

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Confiram o texto na íntegra clicando em notícia completa! Para quem quiser saber mais sobre a carreira desse compositor, clique aqui e visite a nossa página dedicada ao Alexandre recém criada pelos nossos editores.

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE
Desplat. Certo. Vejamos.

Potterish.com ~ Arthur Melo
20 de janeiro de 2010

Vamos analisar isso tudo, certo? Desde que John Williams saiu do jogo após Prisioneiro de Azkaban, dois compositores participaram da franquia: Patrick Doyle e, mais recentemente, Nicholas Hooper. O primeiro mais agraciado pelo público do que o segundo. Pelo o que me lembro, as confirmações das presenças deles como responsáveis pelas trilhas dos filmes foram sempre adiantadas. Hooper, por exemplo, teve seu nome incluído na equipe técnica antes mesmo de Enigma do Príncipe entrar em produção. Qual o motivo de tanta demora para sabermos quem seria o músico a assinar as faixas dos dois últimos filmes da série? Confesso: achamos que seria John Williams. “Achamos” porque incluo aqui o Thiego Novais (tenho certeza de que sabem a quem me refiro) e a Érika Zemuner (@erikaczb), duas pessoas as quais sempre começávamos a falar sobre o trabalho de Williams na série quando o assunto era trilha sonora e o quão era certo que todo esse rebuliço devia estar girando em torno do nome dele. Eu até voltei a acessar os dois sites de Harry Potter religiosamente todos os dias só atrás dessa informação (algo que, convenhamos, a essa altura do campeonato, muitos fãs já não fazem mais). Erramos. Tudo bem que o fato de ainda não terem se pronunciado sobre o maestro da segunda parte da última história da franquia nos dá alguma esperança. Ou, ao menos, confirma que tentando eles ainda estão.

Agora é hora de partir para a discussão. Alexandre Desplat foi o escolhido. Isso é bom? Bem… a princípio, não. Foi uma escolha pensada? Na verdade, sinto cheiro de segunda opção. Não sejamos levianos. É óbvio que os produtores, depois de seis filmes e mais dois engatilhados, conhecem os gostos de seu público. Lógico que eles sabiam que a preferência de todos era o Williams. Então, asseguro que se ele não se faz presente agora é porque não deu. E se ainda não há um nome certo para a Parte II é porque fatalmente ainda o querem lá. E o fato de tentarem já é um bom começo. Mas, agora que o estrago já foi feito, o jeito é refletir sobre o que Desplat faz, poderá fazer e o que as outras opções do público (tomando por base o que tenho lido em comentários daqui e de outros sites) poderiam fazer.

Alexandre Desplat, de longe, não é um autor ruim. Ao contrário. Sua trilha de Lua Nova é um dos quesitos que podem ser elogiados no filme, apesar de não se destacar (mas isso fora para atender a uma necessidade do longa). Dois de seus últimos trabalhos foram indicados ao Oscar: A Rainha e O Curioso Caso de Benjamin Button (excelente, aliás). Mas aí está um “porém” que é o real problema dessa história. Desplat é deveras habilidoso em criar melodias suaves, românticas e doces com louvor. Quando munido de um piano à sua frente, faz milagres. “Milagre” é a palavra certa para o trabalho dele na trilha do sem sal A Loja Mágica de Brinquedos, enquanto “sem sal” é a expressão digna para o próprio autor quando comparado a outros que se saem muito bem na composição de segmentos que acompanham um filme de fantasia com ação, o caso de Relíquias da Morte – Parte I. Quer um exemplo? Posso dizer que quando saí da sessão de A Bússola de Ouro, em 2007, um dos meus comentários depreciativos caiu sobre a trilha sonora absolutamente sem personalidade e apagada. Palmas para Desplat.

Visto isso, alguns leitores começaram a nomear os seus favoritos para a composição do próximo Harry Potter. Dentre absurdos e acertos, nomes como Steve Jablonsky, Harry Gregson-Williams, John Powell, Hans Zimmer e Howard Shore foram citados. Você provavelmente já ouviu o trabalho de alguns deles (ou todos) ou minimamente sabe que eles existem. Mas, humildemente pergunto: conhece o estilo deles?

Steve Jablonsky, como bem lembrado por aqui, foi o compositor da admirável trilha sonora do popular game The Sims 3. A composição é acertadíssima, a ponto de pela primeira vez não querermos desligar o som quando estamos construindo casas, criando Sims ou mobiliando os lares. E olha que as trilhas das versões anteriores já eram boas. Antes disso, ele já tinha realizado o acompanhamento musical do blockbuster Transformers. Desde 2007 eu defendo que, aliado aos efeitos visuais, é o único quesito impassível de reclamações no filme. Apesar de não ter tanta experiência quanto os outros autores citados no parágrafo anterior, Jablonsky criou refrões excelentes que dão gosto de ouvir o CD bem longe do filme. Mas seria uma boa escolha? Não. Apesar do talento, Jablonsky ainda precisa melhorar um pouco para acompanhar o que já fora desenvolvido na série Potter. O autor cria ótimos temas, mas só os utiliza; só. Não se habilita em diversificar estilos dentro de um mesmo trabalho.

Harry Gregson-Williams tem seu mérito. O compositor está atrás de As Crônicas de Nárnia – O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Vamos resumir: acertou em cheio. Os arranjos escolhidos, além de se assemelharem ao padrão da série de Hogwarts, são muito cautelosos. Desenvolve refrões como poucos e diversifica estilos muito bem. Seu trabalho em Nárnia até foi indicado ao Globo de Ouro, sem render vitória – mas a qualidade é sublime. Ao lado de John Powell, criou uma das melhores trilhas sonoras de animação já feitas: Shrek. E, se você já se aventurou em escapar do CD de canções e passou para o disco com as composições para o filme, sabe do que estou falando. Sozinho, Powell já é menos criativo que Gregoson-Williams. Não alcança muitos níveis elevados ou só o faz uma ou duas vezes dentro de um mesmo trabalho – o que é muito pouco. Dos dois, Harry Gregson-Williams seria o mais indicado para o posto em Relíquias da Morte. Mas, como eu bem sei que é esse o desejo de todo mundo, já esclareço: não faz o tipo do Oscar.

Pulei Hans Zimmer, vou para Howard Shore e depois ainda consigo passar por Michael Giacchino primeiro. Shore, como todos estão carecas de saber, se ocupou bastante com O Senhor dos Anéis, a trilogia completa. A trilha é boa? Muito, nem preciso comentar isso. Seria uma opção interessante? Sem dúvida. Atende ao estilo da série, ao gosto dos fãs e nem seria impossível de aceitar a proposta. Afinal, estamos pedindo o autor da trilha d’O Senhor dos Anéis, não o diretor da trilogia. E, bem lembrado: derrubou John Williams e Harry Potter e a Pedra Filosofal no Oscar de 2002. Dúvidas? Vamos para Michael Giacchino.

Não é lá um novato. Já vem fazendo boas composições há algum tempo. Os Incríveis é um excelente exemplo. Já foi indicado ao Oscar (chegando até a comandar a cerimônia ano passado) por Ratattouile, se saiu muito bem em Missão Impossível III, mostrou criatividade em Star Trek, Speed Racer e no recente Up – Altas Aventuras (uma trilha simples e repetitiva que lhe rendeu o Globo de Ouro no último domingo). Entretanto, seus melhores trabalhos se resumem a criações que se destacam mais nos arranjos do que nas suas melodias bonitinhas e confortáveis. Faz o estilo do Oscar, mas mesmo sendo o responsável pelas lágrimas de alguns em Up e pela euforia em Star Trek, não seria muito indicado para fundir essas duas vertentes numa só composição para Harry Potter.

Já chego em Hans Zimmer, mas é que parece que todo mundo se esqueceu do ótimo Thomas Newman. Wall-E, Desventuras em Série, Beleza Americana, Estrada para a Perdição e Procurando Nemo não lhe dizem nada? Todas elas são trilha sonoras bem diferentes entre si. Todas indicadas ao Oscar. O compositor, de fato, preenche os requisitos da premiação, se esse é o desejo tão ardente dos seguidores da série Harry Potter. E, ainda, é excepcional para criar temas, acompanhar sequências de ação e distribuir injeções de emoção quando quer sem destoar. Os refrões são impecáveis, os arranjos bem equilibrados e como marca registrada tem a originalidade infalível para mesclar estilos dentro de um mesmo trabalho. Se John Williams não puder retornar na Parte II, declaro aqui o meu outro favorito, ao lado de Howard Shore.

Hans Zimmer. De início já descarto. Ótimo compositor. Mas não serve. Não para Harry Potter. Curiosamente, as composições mais apreciadas do maestro pelo grande público foram as menos significantes quando o assunto são as premiações. Kung Fu Panda, Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas, Piratas do Caribe 3, Os Simpsons – O Filme, O Código Da Vinci, Anjos & Demônios… a lista é extensa. Só ganhou o Oscar até hoje por O Rei Leão, de 1993, e tem muita gente que nem sabia que ele compôs este. Zimmer tem um estilo que é reconhecido em todas as suas trilhas sonoras. Sua preferência por instrumentos de cordas é alta e clara, os sons metálicos nunca ficam de fora e seus refrões e melodias ao longo de suas trilhas, muito bem elaborados, funcionam mais fora do filme do que dentro. Seus trabalhos são bem recebidos pelo público em geral por conterem um perfil mais pop (não no sentido musical da palavra, obviamente). Suas intenções são demarcadas até demais: emocionar aqui; se assustar aqui; criar tensão aqui; inserir romance acolá. O resultado são faixas eletrizantes que entretém ao ouvirmos em separado do filme, mas que geralmente nada deixam para as entrelinhas ou simplesmente ficam desencaixadas. Experimente ouvir uma composição do autor antes de assistir ao filme em questão. Imagine que tipo de cena aquela trilha deve acompanhar. A preocupação do maestro em expressar o que quer é tão exorbitante que termina fazendo muito estardalhaço por pouca coisa. Ok, é uma delícia ouvir os acordes ora intensos, ora doces românticos de Piratas do Caribe 3. Mas no CD, em separado do filme. É por isso que, talvez, muita gente tenha desgostado do trabalho do Nicholas Hooper; que já comentei aqui no Potterish. Estavam esperando faixas movimentadas e repletas de “ação sonora” (vamos empregar assim) e se depararam com uma postura que prefere focar nas melodias suaves, melancólicas e mais aquém com o espírito do filme. Funcionou para Enigma do Príncipe, mas foi bom se afastar de Relíquias.

Se imaginássemos uma possível disponibilidade de Howard Shore ou Thomas Newman para assumirem a composição dessa primeira parte de Relíquias da Morte, então sim, é um erro optar por Desplat. Contudo, esse erro, até o momento, é mais comercial do que artístico, por motivos já expressos aqui. Até porque, ninguém ouviu a trilha do filme ainda e, bem ou mal, Alexandre Desplat não é amador. Felizmente, ele pode nos pegar de surpresa, sim. Se não acredita, compare Nicholas Hooper versão 2007 com a versão 2009 e use isso como medida. Ah, e claro: dê uma atenção momentânea às trilhas de Benjamin Button e A Loja Mágica de Brinquedos (atenção rápida às faixas 2, 3 e 4).