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Harry e… Lennon?

Harry teve uma trajetória bem complicada, cheia de reviravoltas e sacrifícios que nenhum ser humano real seria capaz de suportar com toda aquela coragem, certo? Errado. Nessa coluna Igor Silva trata de um desses heróis reais, grande nome da música e um dos mais conhecidos pacifistas da história – e compara sua trajetória com a do nosso bruxo preferido. Confira aqui essa saga e comente!

Por Igor Silva

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Harry James Potter foi jovem de trajetória sofrida que perdeu os pais ainda na tenra idade e que, desde bebê, carregava nas costas um pesado fardo: uma profecia que jogava em suas mãos o futuro de toda uma organização social. Não foi o suficiente, dois tios insuportáveis ainda dificultavam sua vida e blá, blá, blá. Disso todo mundo já sabe, certo?

Mas e se eu dissesse que tem uma outra personalidade que em muito se assemelha ao nosso bruxinho? Você é capaz de adivinhar quem?

Se a sua resposta foi Hércules, Thor, Michael Jackson, você… errou! Na verdade, trata-se de um garotinho que, assim como o feiticeiro mais famoso do século XXI, usava óculos redondos, uma aparência franzina e que iria a revolucionar o mundo com sua música com letras politizadas: Johnny Winston Lennon, o Jhon.

Quando falamos de John Lennon, é muito comum associarmos o seu sobrenome ao mega star que, ao lado de McCartney, Ringo e Harrisson, foi herói, ativista, lenda e à personalidade que levou milhares de jovens ao êxtase absoluto entre os anos de 1959 a 1980. Entretanto, pouco se fala do jovem depressivo que vivia em Liverpool e que buscava em acordes um bálsamo para sua alma repleta de chagas abertas por uma mãe ausente e um pai do qual nem se lembrava do rosto.

As semelhanças começam logo na família. Assim como Harry, John foi criado pela tia, Mimi. Sua mãe, Julia, nunca foi efetivamente um modelo maternal e o abandonara logo criança.

Às margens do rio Messey, John Lennon olhava para os portos e parecia tentar enxergar um lugar onde se sentisse em casa.

Agora, é a sua vez de você estralar os dedos para criar um comentário/tese de que Hogwarts e A Toca eram lares para o bruxinho. Será que é isso mesmo? Arrisco-me a dizer que Potter mantinha com a instituição de ensino em magia era uma relação viciosa de dependência para se auto-afirmar como sendo ele mesmo.

Hogwarts jamais foi um lar e sim um padrão: é como se o protagonista pensasse: “Quando terminar o verão haverá um lugar em que não serei um estorvo para ninguém”. De certa forma, era lá em que ele podia ser “o Harry… só Harry”.

Essa teoria se confirma quando Hogwarts está prestes a fechar em “A câmara secreta”: é como se o mundo desabasse sobre os seus pés. Potter não consegue conceber uma vida sem a escola porque a escola é a sua vida: ambas estão ligadas com tamanha intensidade que fica difícil distinguir. Bem verdade que Harry viria a abandonar essa mesma Hogwarts mais tarde, mas pretendo desenvolver esse tema em uma coluna futura.

Outro fator parecido entre o bruxo do músico: suas diferenças. Ambos sempre foram diferentes em relação aos demais. Harry sempre teve as suas estranhices: conversas com cobras brasileiras (mesmo sendo um autêntico britânico), fazer crescer cabelo do nada, encolher o macacão do seu primo… John Lennon, por sua vez, tinha um talento e um ouvido excepcionais para a música. Sem conseguir influenciar colegas que com ele montavam bandas, não foram poucas as vezes em que seus grupos musicais frustraram, pois os outros integrantes não agüentavam a pressão ao perceber que tocar era para Lennon muito mais que um mero hobby.

Ambos viram suas mães falecerem sem nada poder fazer para salva-las: Harry, por ser um bebê e John por não ter a força do Superman e parar o carro que, “em um golpe seco como a explosão de uma vida em seu próprio silêncio”, tirou a vida de Julia Stanley.

Potter seria atormentado por anos a fio com a lembrança da Avada Kedavra derradeira. O fantasma da morte do cadáver de Julia imóvel, gelado e ensangüentado no asfalto perseguira Lennon até o último de seus dias. O seu trauma seria refletido em letras bem sugestivas nas músicas Julia, Mother (Mãe) e My little mother is dead (Minha mãezinha está morta).

Em termos de vendagens e revolução, não há como não notar semelhanças: ambos foram um estouro e ambos transmutaram uma geração. Tanto The Beatles como HP unificaram pessoas de diferentes culturas, níveis sociais, opções sexuais, crenças religiosas e políticas.

Tratando especificamente de Harry Potter, foram mais de 400 milhões de exemplares vendidos que, a cada vez que deixavam as estantes das livrarias para irem para nossas casas, levavam junto um universo com o qual construímos uma história de amor que perdurou por anos.

Nenhum de nossos “de estudo” titubeou em sacrificar-se pelo bem da maioria. Harry não pensou duas vezes em quase morrer e nem Lennon abandonou seus ideais pacifistas só porque o Presidente Nixon, ocupante da Casa Branca à época, baixara uma ordem de expulsão contra ele, Yoko Ono e Sean.

Onze da noite do dia 18/12/1980 era a hora marcada para o imortal finalmente morrer. Um suposto fã, Mark David Chapman tiraria a existência corpórea de John Lennon no planeta. Uma adoração tão incompreensivelmente extensa que fora capaz de assassinar a queima-roupa uma das maiores personalidades que o mundo já tinha visto. John nascera no amor e perecera na dor.

Aquele que destinara sua vida à causa da paz, que amou o mundo e soube criar o mais belo sonho da história, caiu por motivo fútil: violência.

Harry também de certa forma morreu em 2007, mas como John, escreveu seu nome para sempre nas páginas da eternidade. Eu, você e muitos outros provavelmente morreremos e cairemos no anonimato, mas Harry Potter e John Lennon serão lembrados daqui a 300, 4000 ou 5000 anos pelo marco que foram.

Se Rowling escreveu seu personagem ao som de Love me do ou Yesterday, isso jamais saberemos… Mas depois de pesquisar sobre a vida do maior ícone musical de que se tem conhecimento, chego a duvidar.

Entretanto, fico refletindo: a falta de afeto no meio familiar foi o responsável por moldar esses grandes líderes. A mesma regra se estende a uma lista com centenas de gênios como Eisten e Alexandre, o Grande. Será regra geral? O que os torna diferentes de tantos outros meliantes que, igualmente, foram maltratados pela família e acabaram em uma cela de segurança máxima ou condenados à morte?

Essa é uma pergunta para qual ainda não obtive resposta.

Imagine there’s no heaven
It’s easy if you try
No hell bellow us
above us only sky
Imagine all the people living for today

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hungry
a brother hood of men
Imagine all people
sharing all the world
You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day you’ll join us
And the world will be as one

Imagine – 1971

Igor Silva é estudante – e um sonhador.