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Crise da identidade bruxa

Todo fã de Harry Potter já se sentiu muito incomodado com seu status trouxa , desejando com todas as forças que uma coruja pousasse na janela e lhe trouxesse o status bruxo. Mas o que, exatamente, torna um bruxo bruxo? O que, do ponto de vista social, traria a identidade bruxa? Bruna Moreno, nesse grande ensaio, fala sobre a definição de uma identidade para o mundo bruxo, e sobre como isso pode ser o agente causador do preconceito e das guerras. Não deixe de ler e comentar!

Por Bruna Moreno

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Há de se pensar que a senhora Wyler carregou os livros com certo tom pejorativo ao traduzir a palavra “muggle” para “trouxa”, não é? Recordem-se, por exemplo, da passagem do primeiro volume, em que Hagrid argumenta a favor da ida de Harry a Hogwarts. Ele diz: “Eu gostaria de ver um grande trouxa como você impedi-lo”, muito gentilmente, a tio Vernon. Não, francamente, eu não teria parado para indagar “o que é um trouxa?”; se eu fosse uma Dursley, teria pegado aquele guarda-chuva cor-de-rosa dele e enfiado no —

Bom, não há motivos para tanta violência, fiquem sabendo. A primeiro momento, pode até parecer que a palavra não funciona para a língua portuguesa. Talvez seja até melhor compilar aqui parte do verbete do dicionário Aurélio:

Substantivo de dois gêneros.
5.Gír. Pessoa tola, inábil, sem expediente, fácil de ser enganada.

“Inábil”! Talvez fosse a esse sentido que nossa escritora querida estivesse se referindo; sem dúvidas, foi nele em que Lia Wyler se inspirou para a tradução. Ah-ah (pigarro não-Umbridge), corrijo-me — realmente tia Jo estava pensando nisso, porque, em 2003, ao entrar no dicionário de inglês Oxford, a palavra “muggle” também tinha o mesmo significado: “a person who lacks a particular skill or skills” (a pessoa que não tem uma ou mais habilidades específicas).

Pois bem, agora é claro porque tio Vernon se calou para Hagrid. Deixando de lado o porte descomunal e intimidador do gigante, também não havia realmente muito a contestar naquele quesito: ele era mesmo trouxa, afinal lhe faltavam habilidades mágicas que seriam próprias, obviamente, dos bruxos.

A sociedade de Jo Rowling

E assim é dividida a sociedade de Harry Potter: existem aqueles que foram abençoados pelo milagre da magia, e outros bem menos sortudos e mais inábeis nesse ponto. Ora, consideremos: se todos fossem bruxos, não haveria necessidade da palavra “muggle/ trouxa”. Talvez o conceito de magia nem ao menos existisse.

Apesar de tão distintos, quase contrários, bruxos e trouxas são indissociáveis. Um não haveria porquê de ser nomeado sem o outro. A identidade de um se constrói fundamentalmente a partir do algo fora dela, uma outra identidade diferente que, mesmo praticamente oposta, lhe fornece condições de existência. Ser bruxo é ser não-trouxa, e vice-versa, afinal.

E o que é ser um ou outro? Talvez antes: o que é ser?! Bom, bom, não tinha planejado discussões muito filosóficas para esta coluna, então gostaria de pedir permissão para deixar isto de lado. E ser trouxa? Isso também me parece algo tão… tão insípido, não? Falar sobre nós mesmos num site sobre Harry Potter me pareceria deveras inadequado. Partiremos, pois, para a pergunta restante: o que é ser bruxo?

Claro que cada pessoa é uma pessoa. Jogar Draco Malfoy e Hermione Granger numa mesma caixinha rotulada “bruxos” poderia fazer os narizes de algumas pessoas entortarem (se é que jogá-los lá juntos seria a grande felicidade para alguns ficwritters). O que eu quero dizer é que existe uma imagem, um lugar a que eles pertencem, assim como compreendemos algo para “brasileiro” ou “patricinha”, por exemplo.

Poder-se-ia repetir que ser bruxo é só não ser trouxa. Ou se poderia também complementar com os símbolos que os rondam: as varinhas, as poções, os pergaminhos, as vassouras voadoras, os chapéus pontudos, a cerveja amanteigada do final de semana. Porém, a coisa é mais complexa. Ser bruxo na França implica considerar Beauxbatons como a escola tradicional, o que é diferente do que acontece na Inglaterra ou na Hungria, como sabemos. Ser bruxo no século XXI, tendo de escapar de radares e satélites trouxas, e com medo de fotos digitais comprometedoras vazando na rede mundial de computadores, certamente é muito diferente de ser bruxo na Idade Média, quando se tinha que fingir que coceguinhas de fogueiras ardiam para a morte. Enfim, ser bruxo não é algo fixo, porque identidade não é um conceito fixo, muito pelo contrário: é instável, construído sócio-historicamente, e por vezes incoerente (sobre isso falarei já).

Não seria possível fornecer uma resposta à questão, fique bem claro. Talvez este seja o grande problema em se pensar em identidade: a busca do “o que eu sou” — que movimenta o “o que eu serei”, “o que eu farei”, “de onde vim”, “para onde vou” — ao se tornar tão incerta e não-palpável, acaba por atrapalhar-se. Consideremos também, dentro da sociedade mágica de Jo, a mistura entre trouxas e bruxos ao longo dos anos. Casamentos entre as duas partes que geraram filhos das duas partes, imersos e expostos a ambos os mundos. Como delimitar quem pertence a qual?

Em meio a esse contexto, responde-se à diversidade com mais procura pela identidade, uma que seja mais “verdadeira” que a nova. Contesta-se a crise evocando origens, quer sejam históricas ou biológicas, de modo a se alcançar algo mais certo, unificado e homogêneo. Mas, ei, isso não lembra alguma coisa? Um grupo especial que procura mostrar — e realmente acredita nisso! — a importância do sangue-puro e a inferioridade dos trouxas e de outras criaturas mágicas?

Os comensais da morte

Pois é. A família Black e todos os seus prolongamentos e derivações, Malfoys, Lestranges e etecétera, todos encontraram seu lugar sob o sol quando Tom Marvolo Riddle resolveu decretar guerra aos trouxas, nascidos trouxas, lobisomens, gigantes, sereianos, elfos domésticos e… segue a lista. A justificativa era a mesma dada à crise de identidade pela qual passavam: bruxos de sangue-puro seriam mais poderosos, e sua magia estaria se diluindo pelas veias mestiças. A sustentação do argumento tinha viés tanto biológico — que reforçava os casamentos intra-sanguíneos e criava uma hierarquia entre as raças, em que duplamente humana e mágica estaria no topo — quanto histórico — remontando à época em que a dissimulação bruxa era maior e em que, portanto, a magia bruxa era plena e não havia os ditos “sangues-ruins”; seria o ápice da “bruxidade”.

A desesperada produção de uma cultura bruxa unificada e homogênea leva à busca desta comunidade imaginada, a qual, embora não exista — já que a identidade não é fixa, lembram-se? — é crida. É como se os comensais (e adeptos, os comensais menos extrovertidos) acreditassem ser possível ressuscitar uma antiga identidade bruxa, mais certa que a atual, e, mais ainda, serem também os responsáveis por esse retorno.

Neste ponto, eu me arriscaria a responder parcialmente à pergunta que propus acima: para os seguidores de Voldemort, e para ele próprio, ser bruxo é mais do que ser não-trouxa — é ser anti-trouxa.

Não, não, talvez eu esteja me apressando ao afirmar isso. E Snape, e sua invejável paixão eterna por Lily Evans? O que ele é?

Papéis

A pergunta completa deveria ser: o que ele era perto de Lily e longe de Lily? Ou, o que ele era com Dumbledore e com Voldemort? Pois eu digo e repito, para que a coluna não pareça confusa: identidade é um conceito instável, modelado sócio-historicamente. Por isso, não posso dizer que existia (e não existe mais, snif) somente um Snape, mas vários — o Snape-aluno, o Snape-professor, o Snape-filho, o Snape-amante-de-Lily, o Snape-que-odiava-Tiago, o Snape-comensal, o Snape-comensal-traidor e assim por diante. Cada um desses Snapes é um papel assumido por ele.

Não pensem que quero dizer com isso que ele seja falso ou hipócrita. Por mais que essas identidades sejam díspares (e aqui que entra aquela parte do “identidade incoerente”), elas convivem dentro de uma mesma pessoa, que as assumirá em determinados momentos e/ou situações. Ora, o Snape que convivia com sua mãe não era o mesmo que convivia com Petunia Evans, embora na época ele vivenciasse os dois; o Snape que era aluno deixa de existir após a formatura de Hogwarts, abrindo possibilidade para o Snape-professor.

Esclarecido isso, voltemos à pergunta: o que raios Snape é? Anti-trouxa ou só não-trouxa?

Bom, para ser não-trouxa basta ser bruxo. Ok. Para ser bruxo anti-trouxa, pelo menos em algum instante da vida, ele precisaria ter sido, necessariamente, comensal ao mesmo tempo. Aí que a coisa enrosca, porque ser comensal não é só ser anti-trouxa; é, na realidade, estar na crise de identidade bruxa, elegendo o sangue puro como o único “correto” e merecedor de existência. Ser comensal é ser anti-trouxa e anti-sangue-ruim.

Snape nunca, nunquinha da Silva, poderia ser anti-sangue-ruim. Ele amava Lily!

Identidades desmascaradas

Voldemort era o ápice do anti-sangue-ruim, tanto que ocultou seu próprio passado mestiço e se deu um novo nome, negando, assim, sua condição pré-comensal (se fôssemos considerá-lo Comensal Mor). O mesmo fez Barty Crouch Jr, ao excomungar o pai; Bellatrix Lestrange, ao falar mal de sua família; e Pettigrew, ao trair os amigos.

De modo avesso, Snape jamais deixou de nutrir seu amor platônico. Jamais negou sua condição pré-comensal. Jamais pôde ser, verdadeiramente, Comensal da Morte.

Se formos parar para pensar, o mesmo aconteceu com Lucius Malfoy, que nunca deixou de valorizar a família, e com Regulus Black, que não conseguiu deixar Kreacher para trás. Agora fica fácil de ver porque todos eles viraram a casaca…

Um adendo

Quem não tem medo de usar a palavra há de vincular a crise de identidade à pós-modernidade. E quem a usa quase sempre há de tingi-la com certo grau pejorativo.

Pois é. Seja na ficção ou no mundo real, nunca é bom ser comensal.


Referências

Além da própria série e dos dicionários Aurélio e Oxford citados acima, me baseei também no texto de Kathryn Woodward, do livro “Identidade e Diferença — a perspectiva dos estudos culturais”.

Leitura acessível até a parte da viagem na maionese — ops, quero dizer, da psicanálise.

Bruna Moreno é estudante de Letras, Jornalismo e analista nas horas vagas.