Filmes e peças ︎◆ O Enigma do Príncipe

Potterish produz crítica da trilha sonora do sexto filme

Semana passada, o Potterish publicou uma análise do DVD e extras de Harry Potter e o Enigma do Príncipe escrita pelo nosso crítico de cinema Arthur Melo. Hoje trazemos uma crítica sobre a trilha sonora do sexto longametragem da franquia composta por Nicholas Hooper.Arthur faz comentários técnicos sobre algumas faixas e como elas se encaixam na cena na qual foram utilizadas, cita as músicas que foram cortadas da película e analisa até mesmo as que se encontram apenas na versão norte-americana do CD. Confiram um trecho.

22 – Journey to The Cave: Para muitos, a melhor faixa de toda a trilha sonora do filme. Não há muito como discordar. Entretanto, é válido salientar que as atenções só foram voltadas para a engrenada de imponência aos 01min34s, esquecendo-se completamente de um dos trechos mais belos da música: o início, que se estende por delicados, confortantes e ao mesmo tempo dolorosos 35 segundos. E, antes do refrão, a crescida fantástica compreendida entre 01min27s e 01min33s. Não é o tipo de música recorrente em muitas produções. Nota: 10.

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HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE
Crítica da trilha sonora

Potterish.com ~ Arthur Melo
29 de novembro de 2009

Não importa qual seja o autor. As trilhas sonoras da série Harry Potter são um quesito que poucas vezes deixaram de ser elogiadas e jamais passaram despercebidas. Isso não se aplica só aos fãs. Na verdade, eles são os que menos estão prestando atenção desde que John Williams deixou o posto de compositor (mas há rumores de que ele retorne para os dois últimos filmes). O que ocorre é que para o público em geral, o que determina se determinado aspecto de um filme é bom ou não é a indicação ao Oscar. De fato, até poderíamos tomar isso como base há alguns anos. Contudo, já se foi o tempo em que Oscar era sinônimo de qualidade, numa premiação em que só os melhores concorriam e venciam. Mas isto é assunto para outra pauta.

A análise a seguir é voltada para o trabalho do compositor Nicholas Hooper para a trilha sonora de Harry Potter e o Enigma do Príncipe; da melodia aos arranjos, e tecendo comentários do produto comercializado nas lojas.

Hooper é o terceiro e mais fraco compositor até o momento. Mas apesar de seu desastroso desempenho em Ordem da Fênix, que se salvava por uma ou outra composição agradável que funcionava e logo caía no esquecimento, o autor chegou a um patamar digno de aplausos. A trilha sonora é, felizmente, um dos melhores recursos em Enigma do Príncipe.

Usando uma melodia simples e harmoniosa e arranjos muito mais intensos e complexos do que em Ordem da Fênix, Nicholas Hooper se redimiu e entregou um excelente trabalho para o filme. Algumas faixas merecem o seu devido destaque. E é nelas que iremos nos basear.

A Trilha:

1 – Opening: a primeira faixa já ganha pela originalidade. Pela primeira vez em toda a série o letreiro cresce em frente ao público sem o acompanhamento do tema musical Hedwig’s Theme (e suas adaptações). E isso funciona muito bem. A composição resgata o sofrimento da morte do padrinho de Harry que dá início ao filme, e se sustenta até o início da ação, pontuando o tipo de filme menos fantasioso e mais duro que iremos assistir. E, ainda, já insere o plano musical da produção. Em seguida, muda completamente de postura para um acompanhamento de destruição que cumpre o papel, mas não é dos mais agradáveis. Nota 8.

2 – In Noctem: abusou do coral? Sim. Essa é a ideia. Infelizmente, a maior parte da canção sequer chega a ser executada no filme, devido a um corte da edição final (presente nos extras do DVD). Observada toda a cena como um todo, verifica-se uma falha. A faixa é lindíssima, mas não se encaixa. O tom do coral é agudo e firme demais para o tipo de cena que estava se desenvolvendo – a tomada da escuridão. A melodia se encaixa com brilhantismo, mas não alcança o objetivo. Um tom mais grave, mantendo o mesmo tempo, funcionaria. Acarretou em cometer um dos maiores erros que nenhuma trilha sonora deve se atrever: chamais mais atenção do que a cena. Uma edição dura, mas necessária. Contudo, é um prazer significativo ouvir a faixa no cd. Nota: 9.

3 – The Story Begins: O início da faixa tem o arranjo adequado. Propõe uma situação de tomada de ação pelos personagens através de um tom emergencial. Ou seja, serve como uma luva como acompanhamento, mas não extrapola o seu papel. Isso, aqui, é um ganho, mais perde a força após 1min28s. Nota: 6.

4 – Ginny: Leve. Suave. O arranjo é iniciado em cordas e introduz um tema musical que mais tarde será resgatado na trama. Logo após, usa pela primeira vez o Hedwig’s Theme num contexto totalmente diferente do que vinha sendo usado. Para ouvir no CD fica destoante. Mas cumpre o papel no filme, o que é mais importante. Nota: 7.

5 – Snape & The Unbreakable Vow: Uma das faixas mais lentas da composição. Compreende com louvor toda a instabilidade da situação em cena. O arranjo não peca em sequer um segundo de execução e a melodia não poderia ser mais adequada. A trilha é quase que um diálogo com o texto dos personagens, não chama a atenção para si em momento algum e ainda consegue criar uma atmosfera densa. Interpolando os instrumentos de cordas com as teclas mais para o meio, ganha em pequenos detalhes, como a retomada delicada aos 1min35s. Nota: 10.

6 – Wizard Wheezes: O maior pecado cometido contra a trilha. Não há a mais vaga explicação para excluir da versão final do filme esta faixa e no lugar colocar Fireworks, de Ordem da Fênix, na apresentação da loja dos Irmãos Weasley. A faixa é simplesmente fantástica e muito mais energética para a cena do que a que foi usada. A composição é prazerosa, com um arranjo de primeiro cujo estilo jazz alcança o mesmo nível de exatidão que a empreitada de John Williams na cena do Bicho Papão em Prisioneiro de Azkaban. Resta apreciá-la no CD. Nota: 10.

7 – Dumbledore’s Speech: Uso do recurso temático. Repete a composição de In Noctem em arranjos diferenciados para se encaixar ao discurso do personagem. No caso, o agudo imprime o tom mais sereno de Dumbledore, mesmo quando diante de rostos cuja expressão visível é o temor. Nota: 8

8 – Living Death: Uma das mais bem trabalhadas faixas da trilha sonora. Pomposa e indiscutivelmente clássica, transmite ao mesmo tempo a calma do personagem Harry Potter em ação diante do trabalho escolar ao passo que serve de ótimo acompanhamento para o nervosismo dos demais alunos, além de funcionar magistralmente como o típico acompanhamento encurtador; aquele que acelera o tempo de ação e reduz em segundos algo que, na realidade, deveria durar horas (o preparo da do Poção Morto-Vivo). O arranjo é de uma sincronização ímpar para uma composição que a princípio é linear, simples, mas que engata com inserções de uma e até duas sub-melodias atuando em compasso com diferentes instrumentos da mesma tipologia em tons diferenciados (0min55s); o som é cristalino. O encerramento é um grave pontuado. Nota: 10.

11 – Ron’s Victory: A mais forte batida do filme. Resgata a faixa Quidditch: Third Year de Prisioneiro de Azkaban em seu refrão com algumas adaptações. O uso dos instrumentos de corda é predominante e reflete na música a velocidade e dinâmica do jogo de Quadribol, além de irromper com alguns acordes com a mesma violência que os jogadores em tela. Nota: 9

12 – Harry & Hermione: Doce. Calma. Esse é o começo, meio e fim da faixa. Nos primeiros trinta segundos, a composição fatalmente relembrará os primeiros sons de Hedwig’s Theme, mas a diferença é gritante e a nova melodia é adequada e agradabilíssima. A melodia, por sua vez, é belíssima. Peca apenas na sua repetição ao longo de quase toda a faixa. Mas volta a operar com veemência aos 02min19s. Finaliza, ainda, com uma exemplar desconexão aos 02min41s, se mantendo apenas em um instrumento, basicamente. Nota: 8

14 – Malfoy’s Mission: Outra bem arquitetada composição de Enigma do Príncipe. Tensa, abusiva das teclas e de sons doces que dão mais densidade à faixa. Seu desenvolvimento só se dá mesmo após 1h20s, quando retoma o uso do piano, deixando-o mais em evidência. Uma das faixas mais melancólicas e dramáticas da trilha. Não destoa em sequer um momento. Nota: 9

17 – Farewell Aragog: Não fosse pela comicidade da cena, seria uma das faixas mais difíceis de suportar. É, talvez, uma das melhores definições em música instrumental para saudade. O ar medieval predomina por toda a composição e vai ganhando força ao longo. Ao finalizar, consegue suprir todo o efeito risível da cena e por no lugar a tristeza sentida por Hagrid. Uma cooperação fantástica com a imagem. Nota: 9

20 – When Ginny Kissed Harry: Não poderia ser diferente. Romântica. Essa é a definição de When Ginny Kissed Harry. Totalmente baseada em cordas dedilhadas, a faixa só falha em prosseguir com o mesmo refrão por toda a sua execução, sem qualquer desenvolvimento. Mas a delicadeza e o caráter mais meloso garantem o êxito. Nota: 7

22 – Journey to The Cave: Para muitos, a melhor faixa de toda a trilha sonora do filme. Não há muito como discordar. Entretanto, é válido salientar que as atenções só foram voltadas para a engrenada de imponência aos 01min34s, esquecendo-se completamente de um dos trechos mais belos da música: o início, que se estende por delicados, confortantes e ao mesmo tempo dolorosos 35 segundos. E, antes do refrão, a crescida fantástica compreendida entre 01min27s e 01min33s. Não é o tipo de música recorrente em muitas produções. Nota: 10.

26 – Dumbledore’s Farewell: A despedida de Dumbledore é, apesar dos pesares, a passagem mais sofrida dentro da série no cinema. Não era nem necessário, mas a trilha colabora – e muito – para dar a carga emotiva. Resgatando o tema central proposto no logotipo crescente do início do filme, a faixa retorna em tom mais pesado, grave, com um arranjo mais robusto e crescente, formado quase em sua totalidade por instrumentos de cordas friccionadas que fogem do tom agudo tão batido em tentativas de extrair a emoção. Mantem-se, portanto, em seu lugar de tom adequados e alcança o nível desejado. Nota: 9

27 – The Friends: Bem parecido com o tema que encerra Ordem da Fênix, só que melhor. Com um refrão cuja melodia é muito mais agradável, altera aos 0min50seg o instinto de apoio dos personagens entre si e evidencia a situação psicológica do trio na tela no momento, principalmente Harry. Não deveria, mas atrai certa carga dramática e saudosa da mesma forma como Farewell Aragog. Nota: 9.

29 – Big Beat repeat: Faixa bonus disponível apenas para os CD’s americanos e britânicos da trilha sonora, que vem com um aplicativo para baixar o faixa e uma versão em 5.1 canais da trilha completa. A canção é destoante, de fato, de todo o gênero da trilha do filme. Talvez por isso até tenha ficado de fora e não seja considerada parte da trilha oficial de Enigma do Príncipe. Trata-se da música que toca na cena em que Rony é contemplado com a gritaria e agitação dos alunos da Grifinória após sua vitória no Quadribol. Rock e eletrônica, a música até é bacaninha. Mas para por aí. Nota: 6.

Desde sua saída, os fãs clamam pelo retorno de John Williams. De fato, nenhum autor conseguiu captar a mensagem da mesma forma e não conseguiu elaborar até agora temas tão fortes quanto “Hedwig’s Theme” ou “Buckbeack’s Flight” na série Potter. Contudo, se Hooper repetisse a mesma qualidade técnica e, principalmente, artística de Enigma do Príncipe nos próximos dois filmes, seria muito bem-vindo ao posto de volta. O que não vai acontecer, segundo o próprio compositor. Para quem se vê entristecido com a ausência de Williams, ao menos vale pontuar que, indicada a Oscar ou não, a trilha de Enigma do Príncipe convence. E até se encaixa com certa perfeição em algumas preferências da Academia para seus indicados anuais. Se o filme vai conseguir chegar aos cinco finalistas ou não, só aguardando pra ver. Mas, se for por justiça, as chances são mais do que suficientes.

E só como um lembrete, vamos deixar claro que numa possível exclusão total de John Williams na série Potter até o seu fim, não vamos achar que Hans Zimmer, John Powell ou Michael Giacchino são os mais indicados para o lugar. Afinal, por mais legais que tenham sido seus trabalhos em Kung Fu Panda/Piratas do Caribe, Happy Feet e Star Trek, respectivamente, há um certo abismo entre ser legal ouvir uma trilha no CD e a música se encaixar com perfeição nas cenas ou o estilo do autor bater com o do filme. E isso, sim, é o que conta. Mal acostumados estávamos nós com um compositor que fazia as duas coisas. Pelo menos o Hooper, só dessa vez, fez.