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Nós amamos odiá-los?

Saga terminada e o que resta a nós, leitores assíduos de Harry Potter, é fazer aquilo que sempre fizemos: desdenhar, defender ou odiar os personagens da série de J.K. Rowling – sempre alvo de críticas muitas vezes pouco construtivas. Esse é o ponto de nossa colunista Pâmela Lima, pondo em pauta o ódio que alguns fãs nutrem pela autora da saga e suas tantas criações. Não deixem de ler a coluna completa aqui e desejar sorte à Pâmela em seu novo cargo temporário – a partir de hoje, ela ocupará meu lugar na edição da área de colunas até janeiro, quando a correria do vestibular já tiver me deixado em paz. Vejo vocês em breve!

Por Pâmela Lima

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Uma das marcas mais envolventes de Harry Potter é o desenvolvimento dos personagens. Dos principais aos personages-cenário, todos instigam o leitor a pensar, escrever e se apaixonar. E como o ódio é um dos sentimentos mais humanos que existem, obviamente há aqueles personagens os quais despertam as nossas piores emoções. Por motivos diversos, o fandom tem seus preferidos para odiar. Cada um tem seu motivo e, principalmente, tem seu contra-motivo. Aquele aspecto que transforma o personagem em alguém formidável – ou, pelo menos, em alguém perdoável.

Muitos fãs caminham pelo trilho óbvio, odiando os vilões. Voldemort, Bellatrix, os Malfoy, os Comensais em geral. Suas razões são claras: todos esses personagens fizeram mal a alguém que não merecia. As ações deles levam a trama para o âmbito trágico (aqui no sentido usual de “tragédia”) e fazem Harry e todos os seus bondosos amigos sofrerem – inclusive alguns morrem. Mas eu não posso deixar de considerar esses vilões muito interessantes. O que faz alguém ser mau? O que levou Voldemort a se transformar no que é? Bellatrix era apaixonada por ele? Então alguém tão desumano pode sentir algo tão sublime quanto amor? E o que levou a família Malfoy e Peter a se juntarem a Voldemort? Tradição? Medo?

Outros fãs escolhem o lado oposto e acreditam que os personagens mais detestáveis são aqueles muito bons. Os mais comuns para se odiar: Ginny, Neville, Ron e Hagrid. Os membros da família Weasley – principalmente Percy – têm sido vistos pelo fandom atual como não tão interessantes. Alguns os acham muito comuns, outros pensam que Ron é um grosseiro e, os mais desavisados, acham que a Weasley mais nova é um tanto quanto promíscua. Já Neville e Hagrid ganham o mesmo argumento: são idiotas. Eu não gostaria de entrar no mérito da questão, mas é necessário: quando foi que bom coração virou idiotice? Até que ponto é normal odiar um personagem decente, justo, honesto e leal? De que forma Ginny pode ser vista como promíscua tendo apenas três namorados? Como o amadurecimento de Ron durante os livros não consegue desculpar sua grosseria em certos pontos?

Alguns leitores mais radicais conseguem nutrir ódio por personagens que vão de encontro aos seus casais favoritos. E a lista sempre cresce: ódio por Tonks, por Ron, por Hermione, por Astoria (sim, ódio a uma personagem que nem aparece), por Draco (por ter ficado com alguém que não aparece?), pela Ginny – muito comum -, por James Potter… E tudo isso leva ao último ódio, o ódio que quando bate chega com força e é quase impossível de controlar – impossível de controlar a vontade de bater em quem sustenta essa raiva.

Ódio a Joanne. Aquela mesmo, a Rowling. Aquela que escreveu o livro e criou personagens tão odiáveis, tão enjoados, tão bonzinhos, tão mauzinhos, tão apaixonantes, que formam casais tão adoráveis. Aquela que recebe as maiores críticas porque Dumbledore era gay, por não ter dito antes que ele o era, porque Remus não ficou com Sirius, não ficou com Tonks, porque Teddy ficou sozinho, porque Harry casou e foi feliz para sempre. Ela é a grande culpada por ter criado uma série que nos envolve a ponto de fazer com que odiemos o fato de alguns personagens não serem reais e que outros sejam tão próximos das pessoas que existem.
E apesar de esse, como os outros, ser um ódio gerado pelo amor, eu não consigo admiti-lo.

Pâmela Lima promete um bom discurso aos opositores da admiração a Rowling.