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Ele não tem o Sinistro

Quando começou a ter aulas de Adivinhação, Harry já teve sua má sorte prevista por Sibila Trelawney. A professora afirmava que ele tinha o Sinistro, o presságio da morte. Ele realmente presenciou muitas fatalidades, mas todas foram sofridas por Harry, como a morte maldita e triste que o grande cão negro prevê? Bruna Moreno fala nessa coluna sobre a influência de pessoas queridas ao nosso herói, e sobre como suas mortes causaram dor sem cura… ou não. Confiram aqui esse novo ponto de vista sobre um dos temas mais correntes em Harry Potter!

Por Bruna Moreno

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Em primeiro lugar, preciso fazer um agradecimento. A inspiração para esta coluna foi não menos que outra coluna deste site, a do Breno, intitulada “Veia pulsante antes do silêncio eterno”. A temática e o ponto de vista forte do autor fizeram idéias pipocarem na minha cabeça, e tanto elas martelaram que não pude contê-las dentro de mim por muito tempo. Antes que qualquer um pense o inverso, eu deixo claro: esta coluna não é uma retaliação ao Breno e ao seu texto, somente outro ponto de vista.

Menos dois

No primeiro de seus anos de vida, Harry certamente foi feliz. Tinha um casal de pais apaixonados um pelo outro, por ele, pelos amigos, pela vida e por seus ideais. Lily teria sido uma mãe forte e James, um pai companheiro. Talvez Harry não tivesse tido tantos problemas com Dudley, e tivesse até engordado um pouco mais nos joelhos. Mas os acontecimentos tomaram o lado da tragédia, e os Potter mal tiveram a chance de ser uma família.

Não lhe restava nada dos pais, nem ao menos uma foto três por quatro de cada. Não poderia ter resquícios de lembranças de suas vidas e mortes, afinal era muito novo. Harry sentia saudades? Particularmente, duvido. Não seria possível sentir falta de alguém que, na prática, nunca chegara a conhecer. Ao longo de sua infância, certamente ele foi percebendo a diferença entre seus tios e pais, entre o comportamento dos Dursley com ele e com o “filho de verdade”, e não tenho dúvidas de que isso tenha lhe trazido feridas. Não por causa da falta em si, mas sim da inveja daquilo que a maioria tinha normalmente, e ele, não. Ter pais, para Harry, talvez fosse só uma questão de sorte.

Até os onze anos considero que ele tenha ficado imune aos efeitos da perda. O cenário muda, entretanto, com a apresentação do Espelho de Erised. Pela primeira vez na vida, tem a oportunidade de ver toda sua família a seu lado, narizes e cabelos iguais ao seu, acenando e sorrindo. Dumbledore lhe revela que o espelho mostra seu desejo mais íntimo. E qual outro poderia ser, a não ser o de ter apoio ao seu lado num ambiente novo como era a sociedade bruxa, e ter a garantia de que ele não era o único Potter no mundo? Harry sente a alegria momentânea dessas certezas e a tristeza de saber que tudo não passa de uma ilusão. O sentimento de perda lhe aparece fino como um fio, pois não é suficientemente forte: Harry é capaz de abandonar o espelho ao menor pedido do diretor, como se as figuras pertencessem somente ao outro lado do reflexo, e não a este mundo.

Porém, no terceiro ano, a realidade se torna mais tangível: seus pais deixam de ser apenas histórias lendárias de bruxos admirados e passam a realmente existir dentro de sua mente. Isso começa com a presença incontrolável dos dementadores aos arredores do castelo. A cada novo encontro com um deles, as memórias dormentes em seu inconsciente voltam à tona e Harry passa a ouvir os últimos momentos de vida de seu pai e, principalmente, de sua mãe. Seu sono se torna freqüentemente aturdido com os gritos desesperados e a voz vingativa. Neste primeiro momento, a perda se torna real, pois é novamente vivenciada. E tanto vem o sentimento de perda que Harry começa a alimentar a vingança por aquele que supostamente teria matado seus pais, Sirius Black. Acredito que esta seja a primeira vez em que Harry realmente se vê como herdeiro de James e Lily, e comece a sentir de fato a amargura da saudade.

Isto talvez seja contestado com as sombras saídas das varinhas-irmãs no Priori Incantatem, no episódio do cemitério com Voldemort no quarto ano, afinal aqui os sentimentos de Harry não são explícitos, e ele não parece ficar nem bem nem mal com a imagem dos pais. O menino sente dificuldade em relatar os acontecimentos a Dumbledore, mas mais por causa da morte de Cedric e do sofrimento aparente de Sirius. Uma explicação que dou a isso é o modo como seus pais apareceram: não como figuras sofredoras, mas como ajuda àquele momento difícil de luta — quase o mesmo dispositivo do Espelho de Erised, com a diferença de um plano tridimensional, mas com a semelhança da momentaneidade fácil de ser deixada.

Menos três

Sem dúvidas Sirius representou um papel bem mais importante na vida de Harry: ele foi sua fonte de afeto mais certa, forte e próxima do que poderia ser a de um pai. O laço entre eles, no entanto, foi desenvolvido de modo bem diferente, já que não havia contato freqüente e nem passado compartilhado. Sirius via em Harry não um filho, mas a continuidade da vida de James, apontando sempre as semelhanças físicas e sonhando com as psicológicas; Harry via em Sirius não um pai, mas a esperança de uma vida diferente, melhor e mais parecida com o que poderia considerar normal.

Logicamente a morte do padrinho foi uma perda terrível, e me atrevo a dizer que tenha sido a primeira a efetivamente sentir. A culpa e o sentimento de vingança são os dois elementos que justificam minha afirmação: primeiro há a revolta contra Bellatrix, quem, no entanto, ele não consegue ferir propriamente; posteriormente, contra Dumbledore, a quem ele ataca ferozmente; e, por último, contra si, acusando-se por sua impotência em proteger o ente e depois em contatá-lo (cá entre nós, ele realmente deveria ter dado mais atenção à Hermione…).

Agora sim, a saudade existe. É possível perceber como tocar no assunto do assassinato do padrinho lhe incomoda muito mais do que falar do de seus pais, como acontece, por exemplo, no começo do sexto livro, ao sentir o coração afundar e procurar esconder seus sentimentos dos outros quando começa uma conversa a respeito de Tonks e Sirius. Lembrar de alguém que realmente esteve presente, por quem nutriu sentimentos carinhosos e lhe deu esperanças é infinitamente mais doloroso, e é essa a real dor da perda — mas ainda não a de um ente querido.

Menos quatro

O infinito da dor parece pouco agora, ao perder Dumbledore. Por mais uma vez Harry assistiu uma morte, porém esta fora significativamente diferente: o assassino fora um inimigo declarado seu, e sua presença fora inutilizada por suas mãos atadas pelo próprio Dumbledore. Por uma segunda vez não fora capaz de evitar a morte, e talvez este sentimento tenha sido maior do que a perda em si, em um primeiro momento.

Depois de sua tentativa de vingança mal-sucedida, foi relutante em deixar o corpo do bruxo. Até seu funeral, demorou a aceitá-lo como morto… e depois vieram as lágrimas. Não com rugidos de revolta como foram na morte de Sirius; para Dumbledore, Harry chorou em silêncio, corroído pelas lembranças, com medo do futuro. Como poderia viver dali em diante, sem seu mentor-guia?

A presença do diretor de Hogwarts na vida do nosso pequeno bruxo teve mais impacto do que qualquer outra. Quando algo deveria ser dito, discutido ou questionado, era para Dumbledore a quem se dirigia. Ao final dos momentos mais difíceis — a luta contra Quirrel e Voldemort, o resgate de Ginny Weasley, a volta no tempo, a morte de Cedric, a batalha no Departamento de Mistérios — todos, absolutamente todos eles tiveram apoio, conselhos e parabenizações de Dumbledore. Foi o bruxo quem lhe ensinou sobre Voldemort, seu passado, e lhe ajudou a descobrir seu interior e seu caminho.

Após sua morte, o menino ficou desorientado. A única coisa que lhe restava era cumprir (veja só) aquilo que Albus tinha lhe deixado como tarefa: voltar à casa dos Dursleys até completar dezessete anos e destruir as Horcruxes. Dumbledore said, to fight, fight again, and keep fighting, for only then could evil be kept at bay, though never quite eradicated…

Não pouco surpreso nosso querido Potter ficou ao descobrir o passado sombrio e nada glorioso daquele que mais admirou. Para ele, era como se o mago tivesse lhe escondido algo importante que poderia ser compartilhado. Como se Harry tivesse perdido a oportunidade de conhecê-lo. Ao fim do sétimo livro, tenho o palpite de que Harry não mais enxergava Dumbledore como “o maior bruxo de todos os tempos”, mas como humano forte o suficiente para sobreviver. Não era o simples respeito de toda a comunidade bruxa, era maior, um sentimento misto de afeto, companheirismo e admiração. Era amor.

Por isso, se alguém me disser que Sirius cumpriu o papel de pai na vida de Harry, eu serei obrigada a discordar exaltadamente e exigir que a pessoa volte um pouco nos livros — se Harry considerou alguém como pai, foi Dumbledore, e ninguém mais!
Somente com este tapa do rosto, a perda da figura de um ente tão próximo, que Harry compreendeu o significado da morte.

Quase menos cinco

Terror washed over him as he lay on the floor, with that funeral drum pounding inside him. Would it hurt to die? All those times he had thought that it was about to happen and escaped, he had never really thought of the thing itself: his will to live had always been so much stronger than his fear of death.

Exatamente. Antes da perda de Dumbledore, a concepção de Harry a respeito da morte era rala: uma varinha que se aponta e uma aranha que para de se mexer. Também, é claro que encarar a morte antes de realmente vivenciá-la é bem mais simples e fácil. Olhemos para nós mesmos, e pensemos em quantas mortes já vimos, na rua ou na ficção. Sorrir depois de ver Rambo IV é automático. Viver depois de ver a mãe morta é quase impossível.

Quando teve de encará-la forçosamente, não foi como se a morte fosse algo natural ou “somente a próxima aventura”. Harry estava, ironicamente, morrendo de medo, e não por menos. O que haveria de acontecer consigo? O que ele iria ver pela última vez? Será que dói? — todos nós nos lembramos da pergunta dita infantil, mas que considero totalmente natural para qualquer idade. Isto não é uma atitude altruísta, é quase egoísta. Da mesma maneira, quando esteve “morto” em King’s Cross, tivemos acesso à sua dúvida de se realmente valeria a pena voltar a sua vida incerta, ao invés de permanecer no morno e na calmaria, com Dumbledore. Novamente, quase egoísta. É errado? Claro que não. Só não é heróico.

O que eu quis dizer com tudo isso

Por mais que percamos a conta de quantas pessoas morreram ao seu redor (enfatizo aqui a sanguinária matança desenfreada do sétimo livro), podemos contar nos dedos aquelas que realmente tiveram impacto em sua vida. Achar que ela foi assombrada por um sinistro é fechar os olhos à la Sibila Trelawney. Sem dúvidas nosso protagonista passou por maus bocados, mas a morte em si somente passou a pesar sobre sua mente pouco antes dos dezessete anos.

Sua concepção sobre a vida aqui ou lá não era mais ou menos especial; não era tingida por nenhuma sede de viver, nem por lantejoulas e purpurinas que deixariam esta ou aquela mais válidas.
Harry não é o herói que escolheu lutar pela vida em detrimento da morte. Ele temeu morrer, como qualquer um. E também temeu viver, também como qualquer um. Para mim, ele é só humano, e já basta.

Bruna Moreno tira Ótimo em bom-senso, mas Trasgo em Adivinhação.