Artigos

A História da Magia: da velha com verruga no nariz ao bruxinho pop moralmente correto.

Muito antes de Rowling pensar em Harry Potter, a magia já povoava a imaginação e a história mundial, tanto na literatura fantástica quanto nos fatos reais da inquisição. É de todo esse apanhado da História da Magia que nosso dedicado colunista Igor Silva trata nesse ensaio, analisando desde as origens pré-históricas até a contemporaneidade de Paulo Coelho. Deixo aqui a coluna na íntegra, para que todos leiam e comentem, e meus agradecimentos àqueles que desejaram boa sorte no meu novo cargo!


Por Igor Silva

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Desde que se entendia por gente, Harry não conseguia explicar o porquê de tanta confusão ligada a ele, coisas que iam desde fazer crescer cabelo em um dia até voar por cima do telhado da escola (e quando digo voar, não me refiro aos devaneios pessoais que todos os estudantes têm durante aulas chatas). Então, aos 11 anos, o garotinho de cicatriz em forma de raio descobre que, ao contrário dos desprezíveis Dursley, ele era um bruxo e como tal deveria ser educado.

O que muitas pessoas sabem (mas não possuem uma visão aprofundada sobre) é que a magia sempre esteve presente nos mais variados povos, nas mais diferentes épocas. Longe de ser um chato artigo digno do fantasma do Professor Bins, minha coluna pretende mostrar o conceito de bruxaria e a história associada a ele (que, no geral, é muito injusta, pra se dizer o mínimo).

A Origem da Magia

A existência de pessoas que, na concepção de muitos, eram dotadas de dons extraordinários (mágicos, propriamente ditos) sempre fez parte da vida na Terra. Já nos tempos primórdios da Pré-História, sobretudo na transição da Era Mesozóica para a Cenozóica Terciária Paleógena, os homens das cavernas praticavam complicados rituais com seus cadáveres, adornando-os de provisões como se pudessem, num passe de mágica, voltar à vida.

A palavra MAGIA nasceu, precisamente, no séc. VI a.C., mas a mesma já era praticada (com finalidades realmente mágicas e não a de Necromancia praticada pelos homens primitivos) desde o Antigo Egito. Essa expressão surgiu entre os altos sacerdotes da Pérsia (atual Irã) em que os capazes de predizer o futuro, chamados de magi, eram vistos como sábios dotados de segredos. Esse segredo, esse poder oculto foi denominado magia.

A Prática da Magia

Não se pode atribuir a uma única civilização, o fato de ter ”inventado” a magia, uma vez que ela foi utilizada amplamente entre os hebreus, persas, babilônios e, sobretudo, egípcios, gregos e romanos.

Um dos primeiros registros históricos que temos sobre a prática de “rituais mágicos” se encontra no Egito. Dotados de uma ampla (e complicada) mitologia, só comparada aos gregos, os egípcios, em suma os sacerdotes, realizavam cerimônias para invocação de espíritos. Segundo recente achado arqueológico no Delta do Nilo, os sacerdotes convocavam “deuses” para pedir riqueza, saúde, fartura, etc. Eles podiam “ordenar” ao espírito que levasse embora a doença, abatesse um inimigo ou garantisse vitória política, ameaçando divindades menores. Fatos esses também comuns na Babilônia.

Para invocar “em pessoa” um deus (o que hoje se conhece pelo fenômeno de Materialização, através do fluído chamado Ectoplasma), os sacerdotes se valiam do nome secreto dos mesmos (acreditava-se que um deus possuía um nome comum e um nome mágico, só revelado aos donos de perícia mágica). De fato, ouve uma época em que fora proibido tocar nesse assunto, mesmo por mais banal que fosse a pergunta e/ou comentário.

Os sacerdotes davam nomes complicados às suas divindades, para que nenhum forasteiro o pronunciasse com facilidade. Diziam que Moisés dividiu as águas do Mar Vermelho ao pronunciar o nome secreto de Deus, composto de 72 sílabas que só ele conhecia.

Wicca

Apesar do fenômeno nos anos 90, as bruxas Wicca surgiram há muitos anos, sob o rótulo de Magia Natural, entre os séculos XV a XVI. Era uma espécie de ciência em que a Wicca valia-se de ervas medicinais e encantamentos para curar as pessoas.

Na Magia Natural, ou Naturalis Encantatem, acreditava-se na existência de poderes selados dentro de pedras como a ônix e a ametista, nas plantas como o alecrim e em animais como a corsa, chamados de virtudes ocultas.

As Wiccas foram formas primitivas de Medicina. No entanto, infelizmente, quando a pessoa a quem a Wicca tentava curar piorava ou falecia, elas eram julgadas culpadas e severamente punidas.

Grimores

Entre os séculos XV a XVIII, na Europa, uma série de livros de magia chamados de grimores (Livros Negros) caíram nas graças do povo. Eram escrito de forma anônima e atribuída a fontes antigas como Alexandre, Moisés, Noé e Salomão (o que valorizava o feitiço a ser realizado). Essas obras ensinavam como invocar espíritos e demônios de épocas pregressas.

Os grimores prometiam magia para os mais determinados fins: amor, maldição, riqueza, etc. Para fazer esses rituais, o livro exigia tantas coisas (a varinha deveria ser recém-entalhada de um galho de aveleira cortado de uma árvore com um golpe de espada recém fabricada, a pluma usada para desenhar os símbolos mágicos deveria ser a terceira pena da asa direita de um ganso, as velas cerimoniais tinham de ser moldadas pessoalmente pelo mágico, com cera fabricada por abelhas que nunca tivesses feito cera antes, etc.) que tornava a magia quase impossível de ser realizada.

Merlim

Merlim, o Mago – bruxo, profeta e conselheiro do rei Artur – é, provavelmente, o feiticeiro mais famoso de todos os tempos.

Foi criado inspirado no poeta galês do século VI chamado Myrddin, que ficou louco durante uma batalha e fugiu para as florestas da Escócia, onde fez várias previsões sobre o futuro. O nome de Myrddin foi mudado para Merlim pelo historiador Geoffrey de Monmouth, que trouxe o mago para o folclore inglês em seu livro História dos Reis Britânicos. Com o passar dos séculos, a história de Merlim foi sendo desenvolvida por muitos escritores. O mais ilustre deles é Sir Thomas Malory, autor do relato do século XV sobre os Cavaleiros da Távola Redonda chamado Le Morte d’Arthur (A morte de Arthur).

Na lenda, Merlim construiu um dos mais conhecidos monumentos da Inglaterra, Stonehenge, usando seus poderes mágicos para transportar as enormes pedras da Irlanda (Na verdade, Stonehenge foi erigido em torno de 2100 a.C, milhares de anos antes da primeira história sobre Merlim). Aurelius queria construir um monumento impressionante e Merlim escolheu esse círculo de pedras – conhecido na Irlanda como a Dança do Gigante – porque se acreditava que tinham grande poder de cura. Apesar de 15.000 soldados ingleses munidos de cordas e escadas terem sido incapazes de mover as pedras um só centímetro, Merlim as moveu em um instante. Leves como cascalho, com a ajuda da magia, as pedras foram levadas para barcos e depois, para a planície de Salisbury, na Inglaterra, onde estão até hoje.

O mago ficou particularmente famoso entre os povos do mundo com o longa-metragem animado da Disney chamado “A Espada era a lei”, saga sobre ele e o Rei Arthur. Merlim protegeu Arthur desde a infância até sua subida ao trono e, depois, atuou como seu profeta, bruxo e consultor militar, garantindo o sucesso do grande rei. Quando Arthur tinha quinze anos, Merlim o ajudou a obter sua espada mágica, Excalibur, que, segundo a história, o levou até o trono.

Dizem que Merlim tinha o dom da transfiguração e que podia se transformar em uma criança, um velho, uma mulher, um anão ou um animal quando quisesse. Mas, apesar dessas habilidades extraordinárias, o grande mago cometeu um erro tolo que causou sua ruína. Ele se apaixonou pela feiticeira Vivien (também chamada de A Dama do Lago) e lhe revelou seus segredos mágicos. Usando o que aprendeu contra ele, ela lançou um feitiço que o aprisionou para sempre em um carvalho.

Aqui, vale o parêntese. De acordo com o site da Editora Rocco, Dumbledore foi criado inspirado na lenda desse poderoso mago inglês. Assim, como Merlim, Alvo teve um amor proibido e com ele a ruína na busca incansável das Relíquias da Morte (preciso dizer quem eu suponho que foi o amor de Dumbledore?). Assim como Vivien, as relíquias foram seu maior desejo e sua perdição.

Merlin é extremante famoso na Inglaterra, arrisco-me a dizer que até mais que Harry Potter. Sua combinação de sabedoria e perícia foi inspiração para inúmeras obras e filmes. Não é de se admirar que Snape tenha ficado tão zangado ao perder a Ordem de Merlin, Primeira Classe quando deixou Sirius escapar. É uma honra que qualquer bruxo adoraria ter, não é mesmo? (que o diga Arthur Weasley, que a todo o momento exclama Pelas barbas de Merlin…). É impossível falar de magia sem mencionar esse ilustre nome bruxo.

A visão de bruxaria se altera: A Magia Negra e a Inquisição

A Igreja Católica Romana começou a dominar o mundo, hegemonizando crenças e subjugando povos (que os digam os jesuítas). Na tentativa de catequizar povos pagãos alemães, a Igreja coincidiu a data do Natal com uma das festividades dos mesmos – O SOLSTÍCIO DE VERÃO (na verdade, historiadores são unânimes ao afirmar que Jesus não nasceu em Dezembro. Alguns arriscam o mês de Março, o dia é desconhecido, vide “O Código Da Vinci”).

Ao perceber que não conseguiriam impor seus (pesados) dogmas, a Igreja Católica apoiou a mancha negra da literatura: Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras, escrito por Heinrich Kramer e James Sprenger, dois alemães caçadores de bruxas, em 1486. O Martelo possuía detalhes assustadores de como as bruxas praticavam canibalismo, vampirismo e assassinatos em encontros de adoração satânica.

Com o apoio do papa Inocêncio VII (que de inocente não tinha nada), todos os cidadãos europeus alfabetizados já haviam lido a obra. Na época, só não vendeu mais que a Bíblia, tamanha a divulgação das idéias contidas na obra. Apesar de não criar o fenômeno de caça às bruxas, O Martelo ajudou a semear o ódio contra a magia e acentuar discórdias entre vizinho. Não raro, é citado como o abismo entre literatura e texto cristão, fazendo-nos refletir sobre o verdadeiro valor de certos livros ditos “de Deus” (certamente HP não entra nessa lista).

A responsabilidade de executar a tarefa de punir “bruxos” caiu sobre a Santa Inquisição. A Inquisição era uma divisão da Igreja Católica encarregada de localizar e exterminar quaisquer crenças ou práticas que fossem contrárias às da Igreja. A partir daí, a Igreja passou a sustentar que qualquer pessoa conhecida por ter habilidades sobrenaturais teria recebido-as do Diabo e a punição para isso era, quase sempre, a fogueira. (Algo semelhante do conceito de Lord Voldemort sobre os nascidos trouxas, que, ao menos para ele, teriam roubado seus poderes de um bruxo incógnito).

Estipularam-se, então, os estereótipos de uma bruxa. Velha em grande parte, era constantemente vista falando sozinha, não convivia com ninguém, coluna curva, nariz grande e, na maioria das vezes, com verruga no nariz. Queixo pontudo e detentora de um animal, por sua vez o mais citado era o gato preto (talvez tenha sido aí que surgiu a lenda do gato em Sexta-feira 13 dá azar), o familiar, que diziam ser um presente do demônio para sua serva. O familiar causava mais medo que sua dona, por conta dos boatos que versavam sobre a sua natureza sanguinária e o desejo de amaldiçoar tudo o que via pela frente.

Milhares de inocentes foram para a fogueira por possuírem um gato ou por serem reclusas. Professores, aldeões e até mesmo as Wicca foram condenadas a perecer em chamas. O exemplo mais clássico (e o mais revoltante) dessa chacina é o de Joana D’ Arc, que após ajudar a França contra tropas inimigas na Guerra dos Cem Anos, foi tachada de bruxa e queimada viva em praça pública.

Quem nos dera poder ser verdade as afirmações do livro A História da Magia, de Bathilda Bagshot, em que os magos e bruxas que eram queimados não sentiam dor com as chamas, por utilizarem encantamentos que os faziam sentir singelas cócegas.

Nicholas Flamel

Nicholas Flamel (ou Nicolau Flamel, aqui no Brasil) representa a Alquimia para inúmeros povos. Nascido em 1330, na pequena cidade de Pontoise, na França, onde a Alquimia já era praticada em segredo por inúmeros magos, Flamel teria hoje 679 anos se fosse realmente detentor do Elixir da Longa Vida (idade próxima da descrita no livro, de 656 anos). Através das informações aqui descritas, você poderá parar de zombar da Globo com seu seriado “Deu a louca no tempo”, em que os mocinhos foram enviados para o passado para tomar uma certa pedra de um certo Flamel (antes de pesquisar, eu achava a referência um descarado plágio).

Quase tudo o que sabemos sobre ele vem da obra Heiroglyphica, na qual ele como se tornou alquimista e quando (e como) conseguiu fabricar a Pedra Filosofal. Segundo a obra, ele tinha uma lojinha na França e vivia feliz com Perenelle (sim, ela também existiu e era viúva e rica antes de conhecer Flamel) até que um senhor de aparência estranha lhe vendeu um livro que “não era feito de papel ou pergaminho, mas apenas de uma fina casca de árvore. A capa era de cobre, delicada, e toda gravada com símbolos estranhos.”

Propositalmente, o livro era todo cifrado em símbolos. A tradição alquímica exigia que aqueles que quisessem aprender “a arte” fossem iniciados em seus segredos por um mestre.

Depois de muito tentar entender a mensagem, aconselhado por Perenelle, foi atrás de um mestre, que veio a encontrar na Espanha. Durante muitos anos trabalhando em seu laboratório alquímico, Flamel buscou, sem obter sucesso, a tão famosa Pedra Filosofal. Até que em 17 de janeiro de 1382, segundo seu livro, ele conseguiu o que almejava: “Eu joguei a Pedra vermelha em uma porção de mercúrio”, escreveu ele, “com Perenelle como única testemunha, e ela foi realmente transmutada em quase a mesma quantidade de ouro.”

Flamel afirmou ter “fabricado ouro” apenas três vezes. Ele e sua esposa usaram o dinheiro para ajudar os outros. Durante os últimos anos de suas vidas, eles fundaram e sustentaram hospitais, encomendaram monumentos religiosos, construíram capelas, pagaram pela manutenção de igrejas e cemitérios e fizeram doações generosas para órfãos e viúvas pobres. Perenelle morreu em 1397 e Flamel passou seus últimos anos escrevendo sobre alquimia. Ele morreu em 22 de março de 1417.

No século XVII, a história de Flamel já tinha virado lenda. Contava-se que, logo após sua morte, saqueadores invadiram sua casa e a reviraram em busca de ouro. Não encontrando nada, eles abriram o caixão do grande alquimista, esperando encontrar um pedaço da Pedra. Em vez disso, encontraram o caixão vazio – nada de Pedra e nada de Flamel! Disseram então que nem Flamel nem Perenelle haviam morrido realmente. Eles teriam usado a Pedra para se tornarem imortais…

Totalmente compreensível que Voldemort quisesse esse artefato? Quem não iria queria viver para sempre e ainda ser rico?

A Magia hoje

É bem verdade que o que antes a magia era a única alternativa para resolver, hoje a ciência desempenha com igual maestria. Se adentrássemos em uma máquina do tempo com um notebook e uma Coca-cola na mão, de volta à Idade Média, e a esse povo mostrássemos as proezas de um computador, tão logo demonstraríamos quanto seríamos queimados pelos Inquisidores. Quem imaginaria que haveria uma cura para a peste e uma simples ogiva nuclear destruiria cidades japonesas, partindo de uma pequena equação: E=Mc². De fato, a ciência pode até ser um tipo de magia, mas sempre haverá os Voldemorts à solta por aí.

A magia não sumiu completamente e o nosso Best-seller é exemplo disso: o famoso mago e também alquimista, Paulo Coelho (vide O Diário de um mago). Por isso, todo cuidado é pouco: olhe para os lados: um Tom Riddle pode estar só esperando você descuidar para te mandar para dentro de um certo véu negro.

Igor Silva acredita em magia.

BIBLIOGRAFIA: Zola, Allan e Kronzeki, Elizabeth. O MANUAL DO BRUXO. Editora Sextante
Mashwörk, Herinsh. TRATADO DA GRANDE INQUISIÇÃO, Editora Macro
Flamel, Nicholas. Heiroglyphica (em inglês), Editora Snake Poison