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Os reis do rock bruxo falam ao Potterish

Embora não seja tão difundido em nosso país, grande parte de vocês já ouviu falar do Wizard Rock, estilo musical criado por leitores de Harry Potter e cujas letras se baseiam no mundo fantástico criado pela britânica JK Rowling.
Os pioneiros nesse ramo foram Paul e Joe, do Harry and the Potters, banda fundada de brincadeira em uma garagem. Mal sabiam que seriam os precursores de toda uma dinastia bruxa musical. O Potterish conseguiu entrevistá-los com exclusividade nacional e traz agora a vocês um perfil sobre a banda Potter mais conhecida mundialmente.

Nakajo expõe depoimentos de como surgiu a ideia de unir bruxaria às notas musicais, como essa junção revolucionou suas vidas, a importância da internet na difusão das bandas bruxas, e como a magia da música pode ajudar pessoas carentes através de ações simples, mas eficazes!

Confiram o perfil em notícia completa!

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ANAIS DO WIZARD ROCK // HARRY AND THE POTTERS

O conto dos roqueiros

Fundadores de uma dinastia que inclui Draco and the Malfoys, The Hungarian Horntails e Kingsley and the Shaklebolts, Joe e Paul fazem a mágica mais simples e efetiva: música “with zero pretentions” –com uma pitada generosa de consciência social

POR LUIS NAKAJO

Joe e Paul (da esq. p/ dir.): “Harry e seus amigos eram apenas pré-adolescentes, mas lutaram juntos, contra toda lógica, para fazer um mundo melhor. Eu acho que é algo que todos deveríamos lutar pra ter e do qual todos podemos ser parte ativa”.

O “Rock and Rowling” não era pra ser tão conhecido. Era pra ser, na concepção original dos irmãos DeGeorge, apenas divertido. A banda surgiu em 2002 de uma brincadeira de fundo de quintal, mais precisamente o quintal da casa dos dois garotos em Massachusetts, costa leste dos Estados Unidos. O primeiro show teve um seleto público de seis pessoas. Convidadas para um “festival” de bandas amigas que não aconteceu porque nenhuma banda deu as caras, elas foram brindadas com o nascimento do wizard rock, gênero que bebe das fontes do punk e utiliza a série Harry Potter como musa inspiradora.

Ganhando o pão

Calcados no ideal de faça-você-mesmo e no talento que têm com guitarras e teclados, Paul e Joe começavam, sem suspeitar, uma carreira que se estenderia do quintal de casa para praças com 15 mil expectadores. Realizaram o sonho de muitos garotos: fazer parte de uma banda reconhecida, ter discos resenhados por jornais de escala nacional e ainda por cima sobreviver de música.

É essa a grande mágica do duo, que já se apresentou em 49 das 51 unidades federativas americanas e que já cruzou o Atlântico para tocar na Inglaterra e Holanda. “Não me entenda mal, é uma vida bem modesta, a que temos”, diz Paul em entrevista ao Potterish, “O dinheiro vem de um monte de fontes: a venda de CD’s, as vendas no iTunes e de merchandise e, claro, dos shows”.

Os shows dos irmãos Potter, famosos por acontecerem preferencialmente em bibliotecas, são gratuitos para o público. Quem paga pelas performances são as próprias bibliotecas. Foram mais de 500 shows em pouco menos de sete anos. Eles já fizeram de tudo: tocaram fora do expediente das bibliotecas, nas escadas da entrada bem no horário de atendimento ao público e até no meio das prateleiras, entre as J K Rowlings e Virginia Woolfs.

“O lance das bibliotecas pode soar engraçado, mas também é prático. Nossos shows são para pessoas de todas as idades, mas a maioria dos auditórios e bares aqui nos Estados Unidos tem restrição etária e isso exclui os menores de 18 ou 21. Nós podemos evitar tudo isso tocando em bibliotecas, que são abertas a todos”, explica Paul.

Os garotos, hoje com 29 e 21 anos, tocam também em livrarias, teatros, museus, pizzarias e lanchonetes, tudo em prol de um acesso democrático aos versos de “Voldemort can’t stop the rock” e “Phoenix tears”, alguns de seus sucessos.

O punk como lifestyle

Eles gravam suas canções, compostas tendo como ponto de partida uma personagem, em sua casa em Norwood, Massachusetts. Já experimentaram um estúdio profissional, mas preferem mesmo os sintetizadores acoplados ao computador e os ensaios na boa e velha garagem. A banda não poderia ter melhor nome. “Algumas partes da personalidade de Harry são consistentes com a ideologia do punk rock. Harry é realmente independente, se rebela contra injustiças, tem um pé atrás com figuras de autoridade e suas intenções, além de não ter medo de fazer ele mesmo o que deve ser feito para resolver os problemas”, explica Paul.

Na produção e administração da banda, as coisas são bem punk. Joe e Paul lançam tudo o que gravam sozinhos, sem gravadora nem nada, e isso vem dando certo desde 2002. “A tecnologia facilita tanto as coisas!”, comemora Paul. Até mesmo os downloads piratas, longe de atrapalhar, ajudam: “Acho que no clima atual da música, você deve ter claro em sua mente que, ao ser alvo de pirataria, sua música tem uma exposição muito maior. Seria ótimo ser pago pelas músicas, mas, sem ela circulando por aí, não teríamos todas as oportunidades incríveis que tivemos de viajar e tocar pelo mundo. Eu não trocaria essas experiências ou os amigos que fizemos na estrada por mais alguns trocados”, avalia ele.

O ritmo de 120 shows ao ano foi desacelerado, em grande parte porque os garotos não queriam que a banda fosse “o único e exclusivo foco de suas vidas”. Joe, o mais novo (originalmente o ‘Harry Potter ano 4’), é atualmente estudante de física na Universidade Clark. Ele foi selecionado para um programa de pesquisas da NASA e está curtindo quatro meses no centro de vôo espacial de Goddard, perto de Washington. “Joe está trabalhando sob a supervisão de um cientista, montando modelos e fazendo análise de dados de processos não-lineares e não-estacionários. Isso tem algo a ver com a calibração de radiômetros”, explica o irmão mais velho (o ‘Harry Potter ano 7’, Paul), atualmente envolvido com os negócios da banda (“nunca tivemos empresário”, vangloria-se) e mais um par de projetos que ele leva no coração: o Potter Alliance e o clube Wizard Rock.

Barulhinho solidário

Os dois projetos são, de acordo com Paul, a tentativa de direcionar a energia dos fãs da série para “traduzi-la em reais mudanças no mundo”. O Potter Alliance foi fundado em 2005 e funciona como um grupo de articulação inspirado na Armada de Dumbledore. Seus membros coletam doações de comida para entregá-las nos centros de caridade e arrecadaram dinheiro também para enviar para as regiões de conflito de Burma e Darfur, pedindo doações em vez de doces no Halloween.

Já o Wizard Rock Club envia mensalmente, desde 2007, discos de wizard rock para seus membros, que pagam uma taxa anual de inscrição. Todo o dinheiro arrecadado (em 2008 foram 16 mil dólares!) é doado para organizações de apoio a leitura, como a Book First, uma ONG que doa às crianças de baixa renda seus primeiros livros.

Como todas estas ações, com impacto positivo e nem um pouco desprezíveis, foram realizadas por jovens e crianças? Liberdade com senso de comunidade, diz Paul. “Uma das melhores coisas no wizard rock é que o espírito de liberdade permeia e propele a comunidade inteira. Qualquer um pode estar numa banda. Qualquer um pode escrever e gravar música”. Estender os benefícios de uma música livre para além do prazer pessoal era apenas o próximo passo, natural.

Os garotos que compraram um par de gravatas por seis dólares no Ebay e adaptaram as vestes de Hogwarts para um estilo punk-calças-jeans têm planos modestos para o futuro. Quais planos? “Paul DeGeorge: ter uma loja de hot dogs. Joe DeGeorge: ser um artista aclamado e trabalhando nas bordas da cultura popular”, brinca Paul.

Mas considerando os planos modestos que eles tinham naquela tarde de 2002, quando a irmã e mais cinco amigos ouviram canções escritas às pressas para uma apresentação improvisada, e o que eles conseguiram até aqui, estes dois ainda têm chão pela frente.

ROCK AND ROWLING
● Georg, uma das seis testemunhas do parto do wizard rock, é o atual designer do site da banda (que tem como tema a Lula Gigante).

● Os críticos, alguns de publicações importantes como o Guardian e o Washington Post, comparam alguns dos elementos da música dos Potters com Ramones, White Stripes e The Decemberists.

● Chegaram a fazer 51 shows em 49 dias, esses malucos.

● O “último show perfeito” teria J K Rowling na platéia. Qual biblioteca teria a honra de receber tal show ilustre? “Provavelmente seria a do Congresso, em Washington. Mas, se ela fizer o convite, talvez toquemos em uma biblioteca de Edimburgo. Aposto que eles têm uma boa biblioteca por lá”, diz Paul.