Filmes e peças

Ralph Fiennes em entrevista ao San Francisco Chronicle

O ator Ralph Fiennes, impiedoso vilão potteriano, concedeu ontem uma entrevista ao San Francisco Chronicle falando sobre sua carreira no teatro e seu novo filme, The Duchess (A Duquesa), ainda sem previsão de estréia no Brasil.Numa descontraída conversa com Ruthe Stein ele também citou Harry Potter e a mudança da data de lançamento do filme para 17 de julho de 2008.

“Quis me tornar ator por causa do teatro”, disse, “É onde todos os ótimos escritores estão. Ter que passar pelo processo de produção de filmes o tempo todo me deixaria louco. Parte de você espera por isso, e então tudo é gravado fora da seqüência.”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A tradução completa da entrevista você pode conferir na seqüência e pode ver o trailer e material adicional no site oficial.

RALPH FIENNES
Ralph Fiennes e Keira Knightley estrelam ‘The Duchess’

San Francisco Chronicle ~ Ruthe Stein
19 de setembro de 2008
Tradução: Renan Lazzarin

Na cama de hotel de Ralph Fiennes está um roteiro para “Édipo” de Sófocles. Fiennes, que faz Tebas no teatro londrino, está aprendendo suas falas enquanto promove seu novo filme, “The Duchess,” no Festival Internacional de Filmes de Toronto.

Muitos atores conhecidos com passado no teatro mencionam retornar a ele. Mas Fiennes é um dos poucos que realmente fazem isso. Nos últimos cinco anos, ele esteve em seis peças em ambos os lados do Atlântico. Ele tem a distinção de ter ganhado um prêmio Tony por seu “Hamlet” e um prêmio Spike TV’s Scream por vilão mais cruel por sua atuação de Lord Voldemort em “Harry Potter e a Ordem da Fênix.”

Com Paul Newman aposentado, Fiennes herda o fardo de olhos azuis mais profundos no negócio. Ele está vestido formalmente para as primeiras horas em um terno preto e uma camisa branca sem gravata. Em uma voz tão macia que você tem que se aproximar para captar todas as suas palavras, ele conversa sobre seu amor ao teatro e por que os filmes não o substituem.

“Quis me tornar ator por causa do teatro,” diz Fiennes, tomando um pequeno gole de água. “É onde todos os ótimos escritores estão. Ter que passar pelo processo de produção de filmes o tempo todo me deixaria louco. Parte de você espera por isso, e então tudo é gravado fora da seqüência.”

O filme que ele acabou de terminar, “The Reader”, baseado no romance best-seller de Bernhard Schlink, “teve tantos problemas que não me incomodarei com eles. Demorou séculos para terminar. Cenas importantes foram, muitas vezes, excluídas no final.”

Ele diz que “há algo bastante puro” em poder atuar em parte no teatro, desde o começo até o fim. “Afinal, o desafio original para um ator é contar a história, no presente momento, para o público, em tempo real.”

Por causa de sua versatilidade – Fiennes inicialmente ficou conhecido com o “Prime Suspect” da TV em 1991 – ele não teve qualquer período de falta de trabalhos em uma carreira de 20 anos. Foi indicado a Oscars como o comandante nazista em “Lista de Schindler” e um britânico desafeiçoado em “O Paciente Inglês.” Muitos acham que ele merecia indicações para “Quiz Show” e “O Jardineiro Fiel.”

Fiennes aceitou um papel contínuo na franquia Harry Potter “para manter o lobo longe da porta” e, então, deixou-o de lado e fez Shakespear e Beckett ao vivo.

Ele não faz idéia alguma do porquê de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” ter sido adiado de seu planejamento original de 2008 para o próximo ano Mas se você quiser vê-lo interpretando alguém quase tão malévolo quanto Lord Voldemort, confira “The Duchess.”

Baseada na biografia premiada de “Georgiana, a Duquesa de Devonshire,” o filme mostra o casamento problemático entre uma aristocrata rabugenta do século XVIII, interpretada por Keira Knightley, e seu diabólico marido, o duque, papel de Fiennes. Quando ela engravida do filho de seu amante, ele avisa a ela que ela nunca verá seu filho novamente se escolher ficar com seu amante.

“O roteiro do filme dá ênfase à crueldade que não sei se realmente existiu ali,” diz Fiennes, que deu o melhor de si para humanizar seu personagem. Ele não teve muito para se aprofundar porque, ao contrário da duquesa, cujas cartas foram passadas de geração em geração, todas as do duque foram queimadas após sua morte. Seu raciocínio é o de que o duque era “socialmente atrapalhado e emocionalmente inexpressivo. Ele não era um homem mal, apenas socialmente contido.”

Fiennes diz que conhece homens e mulheres como o duque, que são tão ricos ou conhecidos socialmente que têm medo de dizer o que pensam por poder machucar os outros. Há uma cena na qual o duque sai de uma festa de jantar, declarando-se “um pouco tedioso.”

“Esse tipo de honestidade sem vergonha me entreteve,” Fiennes diz.

Fatos históricos sustentam as cenas do duque tomando como sua senhora a melhor amiga de sua esposa, que viera a ficar em sua mansão por convite da duquesa.

Entretanto, uma cena das duas mulheres envolvidas em preliminares sexuais é pura especulação.

“Ninguém realmente sabe, mas isso deu numa cena interessante,” Fiennes diz. “Acho que poderiam ter ido um pouco além. Queria que elas realmente tivessem a relação sexual.”

Em preparação para o filme, ele leu os diários de James Boswell sobre as idas e vindas do jovem homem na Londres da época.

“Você percebe que Londres era a Nova Iorque de seu tempo,” diz. “As conversas em clubes e cafés eram sobre as últimas intrigas políticas e peças.”

Fiennes foi cativado pelo palco construído atrás da sala de baile do duque e da duquesa, para que pudessem entreter seus convidados com peças.

“Realmente detenho o recorde de estar naquele set,” ele conta. “Queria fazer uma peça lá. Adoraria ter feito ‘School for Scandal.'”

O set de palco o lembrou de um teatro de brinquedo com o qual brincava aos 8 anos de idade, crescendo em uma família criativa em Suffolk. Sua mãe fora escritora e pintora, e seu pai era fotógrafo. O teatro veio com um folheto cheio de personagens de duas dimensões e um plano de fundo para serem recortados.

“Adorava juntar aqueles sets,” Fiennes lembra, divertindo-se com a lembrança. “Meu pai me ajudava com as luzes. Meus irmãos e irmãs me importunavam porque eu era muito possessivo quanto a fazer todos os papéis. Fazia uma fila com todas as pessoinhas em um declive de aramado e ficava atrás deles com meu roteiro. Deslizava um boneco e começava, ‘Oh! Onde está meu filho?” ele diz em uma voz berrante e melodramática. Entre os papéis que ele enfrentou foi Jack, o assassino gigante, Cinderela e suas irmãs adotivas más e o capitão Billy Bones e Long John Silver de “Ilha do Tesouro.”

Apesar de sua óbvia aptidão, Fiennes não considerou atuar como profissão por muitos anos. Ele começou estudando a arte. Queria ser um pintor até que um curso intensivo em sua escola de arte mudou seu pensamento.

“O curso se propunha a dar uma sacudidela em você e provocá-lo a pensar um pouco mais profundamente sobre o que você quer fazer,” diz.

Um dos trabalhos era fazer sua própria versão da famosa pintura de Velásquez, chamada “Las Meninas.” Ele fez uma réplica rude da menininha e dois duendes no plano de fundo.

“Eu os pus como se estivessem sentados em uma sala de teatro,” ele diz. “De repente, fiquei muito excitado quanto ao mundo do teatro. Pensei que talvez devesse fazer design teatral. Mas o que realmente venceu foi o pedaço de mim que queria atuar. Eu atuara na escola e realmente gostara daquilo. Me senti confiante quanto a isso. Repentinamente, me decidi sobre o que queria fazer.

“A razão pela qual eu nunca quisera atuar antes era a de que todos me diziam, ‘Não faça isso. Não faça isso.’ O pessoal da escola que queria atuar, sempre os achei muito pretensiosos. Eles ficavam se afirmando e pareciam levemente inférteis.”

Pondo suas mãos no queixo, Fiennes imita uma pose afetada.

Ele era casado, uma vez, com Alex Kingston, mais conhecida como Dra. Corday em “ER.” Teve uma relação de quase 10 anos com outra atriz, Francesca Annis, que interpretou sua mãe em “Hamlet.” Desde então, os tablóides o têm ligado com Ellen Barkin, a cantora romena Cornelia Crisan e a mulher de negócios de Dublin Sirin Lewenden.

O teatro é seu único amor prolongado.