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Entrevista na íntegra de Radcliffe para a revista Details

Conforme notícia divulgada anteriormente por nós, o site Men Style divulgou a entrevista feita com o ator Daniel Radcliffe, em Nova Iorque, para a Revista Details. Com frases um tanto quanto polêmicas, não se pode deixar de perguntar sobre o fim de Harry Potter.

“A medida que posso, quero deixar Harry lá na telona”, diz Radcliffe. “Eu não quero trazer ele para dentro da minha vida normal”.

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Surpreendendo a muitas pessoas, o ator fala que não gosta de gastar muito seu dinheiro e que é um admirador das Artes:

“A única coisa que eu gosto de gastar é trabalho de arte, porque é a única coisa que custa muito dinheiro sobre o qual me interesso”, fala Radcliffe. A sua maior ambição veicular é, de quebrar o coração, um GOLF GTI, que ele descreve como “um carro alemão bom e pequeno que roda por aí”.

Quando questionado se, interpretando o personagem psicótico Alan da peça Equus, se ele também gastava tempo no Divã, Daniel comentou:

Não”, diz ele. “Faz favor. Não. Nunca. Eu sou bastante feliz. Eu tenho uma família fantástica. Nós formamos um grupo muito unido – funcionamos bem como um time e como uma tribo. Eu devo isso a eles”.

Os Scans da revista podem ser conferidas em nossa galeria ou neste link.

A tradução na íntegra pode ser conferida na extensão e pode conter Spoilers.

DANIEL RADCLIFFE
Há apenas um papel que o bruxinho quer, agora que virou adulto
– Fazer um Drag Queen –

Men Style ~ Chris Norris
02 de Setembro de 2008
Tradução: Virág Venekey

É um dia ensolarado de junho no Parque Bryant, de Manhattan. Pequenas nuvens brancas pontuam o largo horizonte do céu da cidade. Vozes infantis misturam-se com o som de um carrossel dourado. E, sentado em uma cadeira de vinco verde, enquanto mães passam com carrinhos de criança e bebericam preguiçosamente Ice Tea, o garoto inglês mais famoso do mundo fala de forma inapropriada.

“Tirando a porcaria do carrooo, eles são imponentes,” fala Daniel Radcliffe. “Pareço uma estreeela, sua puta”.* Ele olha pra cima. “Como me saí?”

Olhos brilhando e orgulhoso, o ator britânico está recitando de forma divertida algumas frases que nós inventamos para testar seu sotaque americano, em ensaio para se tornar um Nova Yorkino em tempo integral, quando ele se mudar para cá nesse outono para atuar na peça Equus de Peter Shaffer. Nós começamos com algumas conversas básicas – “t”s atenuados (“Posso ter uma garrafa de água?”), silabas engolidas (“Veja o tamanho do esquilo”) – e agora numa parte extra: com o som de Lil Wayne. Radcliffe tenta novamente.

“Tirando a porcaria do carrooo, eles são imponentes, eu pareço uma estreeela, sua puta. Quando me ver faça um pedido”.*

O adolescente mais rico da Grã-Bretanha, que vai completar 19 anos em algumas semanas, com certeza parece uma estrela: uma camisa verde oliva, com um corte em estilo feito sob medida, blazer marinho, e calça jeans justa escura – este último feito por Absolut Joy, conta ele, olhando pra baixo a procura da etiqueta na sua braguilha.

“E gostaria de dizer que é isso está escondido por baixo”.

Oh, sim, esse seria o Dan Radcliffe viril, aquele das fotografias de busto despido e alvo de garotas enlouquecidas, o jovem que apareceu na noite passada do Tony Awards ainda sob o foco dos tablóides que se banqueteiam sobre sua atuação, ora incomoda, ora sem roupa em Equus, que estreou inicialmente em Londres. Radcliffe faz Alan Strand, um rapaz de estábulo com problema mental e que se auto-flagela, um papel que fás dele como o bruxinho de superprodução – cuja presença paira sobre nós mesmo agora num parque ensolarado de Nova York – poderiam achar inapropriado.

“A medida que posso, quero deixar Harry lá na telona”, diz Radcliffe. “Eu não quero trazer ele para dentro da minha vida normal”.

Mesmo sem a marca dos óculos e do cabelo preto, Radcliffe conserva uma áurea ligeiramente de outro mundo, como se tivesse saído de um musical da Disney dos anos setenta co-estrelando Ângela Lansbury*. Um rapaz franzino de cinco pés e meio de altura, ele tem traços finos e grandes olhos azuis que parecem desenhados para aumentar em deslumbramento.

Radcliffe é ligeiramente maníaco. Ele inclina-se pra frente enquanto fala – braços firmemente cruzados, olhos correndo soltos, falando ligeiramente por meio de um queixo cerrado que está com a barba por fazer. Está claro que Radcliffe está um pouco incomodado por estar em público – desde que deixamos o seu hotel de Manhattan contra a vontade dos seus assistentes, um guarda-costas seguindo a uma distância discreta de meio-quarteirão, nosso passeio tem atraído atenção de várias pessoas.

“Não de forma específica”, fala Radcliffe quando perguntado se ele está nervoso. “Não, não, não, de forma alguma! O motivo de olhar em volta é porque eu sempre presto atenção onde está todo mundo que tem condições de me reconhecer. Porque eles tentam ser sutis e nunca são”.

Qual é a última contagem?

“Bem, tinham duas garotas japonesas, e aquele casal logo ali, e aquelas outras duas garotas, e aquela mãe e filha…”

Como qualquer outra estrela infantil que amadureceu, Daniel Radcliffe está planejando cuidadosamente a sua carreira para depois que deixar aquele papel que gerou a sua fama. Dois fatos fazem o caso dele ser incomum: Ele pode se tornar o ator mais jovem a virar um ator adulto desde a Jodie Foster de Táxi Driver, e aquele papel é o herói literário mais conhecido desde a invenção do jornal impresso.

Os sete livros de Harry Potter venderam mais de 400 milhões de cópias. Eles foram traduzidos para 67 línguas. Eles tornaram a sua autora, J.K. Rowling, a escritora de maior lucro da historia. E eles originaram a série de filmes com maior arrecadação de todos os tempos, o que gerou ao representante cinematográfico de Harry Potter uma fortuna estimada em 39,7 milhões de dólares de acordo com a London Times. Tendo assinado recentemente um contrato de 50 milhões de dólares para fazer Harry Potter até a graduação, Radcliffe está junto com Miley Cyrus na lista dos “adolescentes mais bem pagos de Hollywood” da Forbes. Hoje ele ocupa uma esfera da fama, riqueza, e imaginário publico que se aproxima do sobrenatural. Escapar de Harry Potter pode ser o seu maior truque de mágica da sua vida.

Nós nos encontramos inicialmente no hall do hotel, um lugar pequeno saído de um livro e com aspirações Eduardianas: conchas de Belas Artes, uma lareira de madeira esculpida, mesas para xadrez e gamão. A sensação é um lugar entre o fumodromo da era Kipling e a sala de estudos da Oxford – um efeito que é ampliado quando a própria sensação de Hogwarts entra e senta numa mesa de jogar cartas. Enquanto Radcliffe maravilha-se com a montanha de gelo no seu copo, eu o aconselho a pedir algo alcoólico – quando ele tiver idade suficiente.

“Bem, eu já tenho idade para beber”, conta ele com uma indignação simulada. “Mas não nesse país, pelo visto”.

Desde que Equus acrescentou um passo interessante ao final da puberdade mais observada da década, entrada de Radcliffe dentro da idade adulta tem sido alvo de especulação fervorosa. Só pra constar, Senhor Radcliffe bebe – moderadamente e em particular. Vodka e Coca Diet é o coquetel de sua preferência, conta ele,

“Porque eu sou um civil maricas”. Também para constar, ele comemorou a idade britânica da permissão, 16, quase 3 anos atrás, da maneira costumeira, com uma namorada mais velha. A diferença de idade “não era ridícula”, conta ele. “Mas poderia assustar algumas pessoas”.

Talvez porque ele é rodeado de pessoas com pelo menos o dobro da sua idade, Radcliffe tende a sair com mulheres mais velhas. Ele está solteiro atualmente, embora ele explique que isso acontece principalmente por causa dos contrastes de tempo.

“A maioria dos meus amigos são garotas, e eu vejo como elas são com seus namorados e penso, eu não poderia fazer aquilo”, fala ele. “Eu simplesmente não tenho tempo”.

Algumas pessoas poderiam assumir de forma racional que o garoto Harry Potter é um trem danificado resultado de uma ex-estrela infantil, um viciado em Ritalin, um egocêntrico bebedor de Humvee cuja primeira aparição fotográfica é apenas uma questão de tempo. Mas considerando fotografias de rua aleatórias e cenas do bruxo despido, Radcliffe é notavelmente ausente dos tablóides. Em vez disso, a sua imagem é aquela de um autodidata com uma lista de leitura imponente (Nabokov, Joyce), gosto de rock refinado (Arctic Monkeys, the Hold Steady), e hábitos de gastança modestos.

“A única coisa que eu gosto de gastar é trabalho de arte, porque é a única coisa que custa muito dinheiro sobre o qual me interesso”, fala Radcliffe. A sua maior ambição veicular é, de quebrar o coração, um GOLF GTI, que ele descreve como “um carro alemão bom e pequeno que roda por aí”.

Para o jovem multimilionário, a maior luxuria de um rico não é material, mas criativa. Isso quer dizer papel em filmes seletos: ele esteve no filme juvenil australiano “Um Verão para Toda Vida” e no romance de Primeira Guerra Mundial “My Boy Jack” e foi escalado recentemente para filmar sobre o jornalista Dan Eldon, que foi morto em Somália em 1993. Eu o pergunto sobre outros papéis: Super vilão? Terrorista? Demônio do sexo?

“Eu acho que parte de mim adoraria interpretar um Drag Queen”, conta Radcliffe, “apenas porque seria uma desculpa para usar muita maquiagem nos olhos”.

Uma vez que ele vai fazer em breve o paciente psicótico Alan Strang oito vezes por semana, parece justo perguntar se ele também gasta tempo no divã.

“Não”, diz ele. “Faz favor. Não. Nunca. Eu sou bastante feliz. Eu tenho uma família fantástica. Nós formamos um grupo muito unido – funcionamos bem como um time e como uma tribo. Eu devo isso a eles”.

David Yates, que dirigiu A Ordem da Fênix de 2007, assim como O Enigma do Príncipe, esperado para chegar em julho (ele vai fazer também Relíquias da Morte, que vai ser lançado como dois filmes, em 2009 e 2010), chama a estrela de

“Uma das pessoas mais pé-no-chão que você vai encontrar em toda a sua vida”. “Ele está sob uma pressão extraordinária, com toda essa fama e sucesso”, conta ele. “Mas ele é apenas um cara sensível e firme nos seus propósitos”.

O filho de um pai agente literário e uma mãe agente de elenco, Radcliffe fez sua estréia na atuação aos 10 anos (numa versão BBC de David Copperfield) e foi escolhido como Potter um ano depois, entrando no que se tornaria uma realidade alternativa – trocando uma escola privada pelos tutores do set e convivendo quase que somente com equipe de filmagem e companheiros bruxos.

Mas apesar deles poderem ter engolido a sua infância, Radcliffe diz que os filmes Potter deram significativamente mais diversão do que raiva.

“Os filmes tem sido uma diversão”, conta ele. “Eles têm sido ótimos. Na maior parte do tempo eu tenho estado feliz cada dia. E todas as vezes que estive infeliz não tem sido nada relacionado com Potter. Foi apenas a chatice adolescente normal. Inseguranças, acne – todas as coisas normais”.

Independente do que signifique a “chatice adolescente normal” no mundo de namoradas mais velhas, co-estrelas, e pagamentos de 25 milhões de dólares, o tema da adolescência turbulenta vai ter um papel maior, pelo menos na vida de Harry Potter, à medida que a franquia chega aos seus capítulos finais. Harry Potter e o Enigma do Príncipe promete ser mais sombrio e sensual que seus precursores. Enquanto o inimigo de Potter, Lorde Voldemort, organiza suas forças para o “gran-finale” de duas partes da série, “os estudantes”, de acordo com o sumário de Warners Bros, “estão sob o ataque de um adversário bem diferente à medida que os hormônios juvenis atingem partes aleatórias”.

Para situar: Harry se apaixona pela irmã do amigo Rony Weasley, Gina – um romance que Radcliffe descreve como “tímido e reservado e desajeitado” – enquanto Rony e Lilá Brown têm um amor que Radcliffe chama de “carnal”.

Embora ele optasse contra a faculdade e a favor da sua carreira, Radcliffe parece ter absorvido por conta própria um material cultural a altura de um Ph.D. Um site de fá sobre Radcliffe inclui três páginas sobre livros aprovados por Dan – indo desde “Midnight’s Children” de Rushdie, passando por “La Débâcle” de Zola, até chegar em nove edições diferentes de Moby Dick – enquanto que seu gosto musical sugere um critico de 35 anos do NME.

Mas para um admirador de Sid Vicious (cujo personificador em tela, Gary Oldman, ensinou Radcliffe como tocar baixo – fazendo de Harry Potter, tecnicamente, um Sex Pistol separado no quarto nível), o poeta, devorador de livros, e fá de críquete parece apenas um entediante… bem comportado. Não?

“Eu não quero fazer nada especialmente estranho”, conta Radcliffe. “As pessoas falam sobre revolta e perguntam ‘Onde está a raiva adolescente?’ Mas eu falo que tento simplificar com as escolhas que faço, no trabalho que faço. Eu simplesmente gosto de pessoas com más escolhas. Eu escrevo poesia e amo isso. Eu gosto de ser diferente da maioria das pessoas da minha geração”.

Radcliffe não é apenas diferente de seus conhecidos; é como se ele fosse de outra geração. Enquanto ele caminha pela Quinta Avenida, descreve o desafio de fazer um personagem tão vívido como Alan Strang.

“É porque ele está bem vivo no presente”, fala ele. “Ele vive apenas para o momento, para usar a frase chata, horrível e clichê. ‘No momento’. É como ‘carpe diem’. Após Sociedade dos Poetas Mortos, todo mundo era como, ‘Oh, carpe diem. Cala a boca!’”.

Eu concordo com a cabeça ao lembrar de todos falando “carpe diem” até eu preceber uma coisa: A Sociedade dos Poetas Mortos foi lançado em 1989. Aquele foi o ano do nascimento de Daniel Radcliffe. De quem ele está usando o implante de memoria?

À medida que entramos no Parque Bryant, eu menciono que eles mostram frequentemente filmes aqui nas noites de verão – uma exibição recente foi o filme de ação de 68: “Bullitt”.

“OK, quem é mais legal”, fala Radcliffe, “Steve McQueen em ‘Bullitt’ ou Paul Newman em ‘Cool Hand Luke’?”

Um momento depois, eu percebo que o carrossel das proximidades está tocando “The Band Played On”, exatamente como o carrossel do suspense de Hitchcock de 1951, “Strangers on a Train”.

“Oh, fantástico”, fala Radcliffe. “É quando o garoto está engatinhando embaixo para parar ele e ele continua aumentando a velocidade?” Aha, sim, esse mesmo.

A conversa muda de rumo para o futuro – para o fim de Harry Potter. Em fevereiro começam as filmagens do final da saga, Harry Potter e as Relíquias da Morte. Aquele final vai ser uma experiência única não apenas para a equipe e o elenco. O filme vai encerrar uma era, uma que começou em 2001 – antes das gêmeas Olsen serem legais, antes de Britney ser derrubada, antes de toda uma leva de Fannings aparecerem para transformar a infância em si num desempenho. Vai ser o fim de um estudante eterno, cuja graduação vai marcar todos nós como ligeiramente mais velhos.

Radcliffe o encarou inicialmente sozinho, quando começou a ler Relíquias da Morte numa viagem de avião.

“De fato, foi muito emocionante”, fala ele. “No inicio do livro eu escrevi algo que Anton Chekhov escreveu para a mulher com quem ele terminou passando o resto da sua vida: ‘Hello, a última página da minha vida’. Achei que era bem apropriado”.

O fato é que a vida de Radcliffe tem sido uma espécie de magia – ao menos tão mágico quanto a vida pode ser na atualidade. Ele se tornou Harry Potter aos 11 anos. Ele vai deixar de ser aos 21 anos. E quando ele deixar de lado a varinha e a vassoura, vai pôr de lado uma das infâncias mais encantadas da década – não mais o adolescente mais rico e famoso da Inglaterra, mas apenas mais um ator de vinte e poucos anos.

“Mal posso esperar”, fala ele, olhando para um gramado verde escuro e vislumbrando um futuro não tão distante.

*NT: Originalmente o trecho é uma parte da música do rapper Lil Wayne: “Stepping out the motherfucking car they in awe, I’m looking like a star bitch when you see me make a wish”.