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Literatura e entretenimento: Oposição ou conciliação?

Muitos dizem que Harry Potter é um clássico. Outros, que é apenas um fenômeno restrito ao midiático e ao financeiro. Qual é, afinal, o conceito de boa Literatura?
Sheila Vieira nos oferece os passos básicos para entender as controvérsias que envolvem Stephen Kings, Harold Blooms e Pasquales Cipro Netos da vida. O texto, na íntegra, você lê na extensão. Os comentários, deixe no rodapé da página (de preferência após ler o texto e não apenas os comentários anteriores).


por Sheila Vieira

O professor Pasquale Cipro Neto diz que não lê Harry Potter porque acha que não lhe acrescentará nada. Nós nos indignamos: como uma personalidade que defende o estudo da Língua não se intera de um dos maiores fenômenos literários da história? Podemos partir do raciocínio do lingüista para pensar se os livros de Potter têm alguma relevância além do campo mercadológico. Ou melhor, se eles são, de fato, boa literatura.

Devemos partir do princípio de que nem os lingüistas sabem definir com precisão o que faz com que um livro seja considerado bom. Há alguns “consensos” de autores de alto nível, como Machado de Assis, Dostoievski, José Saramago, Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, além dos britânicos Charles Dickens e William Shakespeare, entre muitos outros. No entanto, todos eles diferem entre si em relação ao estilo e ao conteúdo de suas obras. Então, o que une todos esses autores em uma “aura” de qualidade?

Podemos considerar três planos: o do enredo, ou seja, quais são os temas abordados nas obras que efetivamente são de relevância e mexem com as pessoas, e como o autor incorpora esses temas em história(s), no tempo e no espaço. Mais relevante ainda, talvez, seja o do estilo, ou seja, como o autor escreve, joga com as palavras, faz uso de seu texto para criar inúmeras interpretações por parte dos leitores. Finalmente, devemos considerar o impacto que as obras trazem à sociedade, se a transformam (para o bem ou para o mal), se deixaram um legado para seus leitores. Por mais doloroso que seja, tentaremos submeter nossos adorados sete livros e a querida tia Jo a esse julgamento.

OS PORQUÊS DO IMPACTO JUNTO AO PÚBLICO
Em relação a Harry Potter, a principal questão levantada (por muitos e pelo vencedor do Children’s Laureate Michael Rosen) é que os livros trouxeram uma geração de crianças e adolescentes nascidos na era digital de volta à literatura. Enquanto as mídias se desenvolvem como nunca, e conseguimos acessar vídeos, sons, informação (relevante ou não) com a novidade da interatividade, questiona-se como uma história sobre bruxaria (algo recorrente na história da literatura infantil) pode envolver tantos leitores.

Atribuir o sucesso da série aos filmes é um equívoco, que pode ser combatido com o fato de que foi o lançamento bem-sucedido do livro “Prisioneiro de Azkaban” que incentivou o produtor de cinema David Heyman a dar início ao projeto cinematográfico de “A Pedra Filosofal”. Obviamente, não se pode contestar que a popularização de Harry em todo o mundo é devida à Warner, mas tudo não se resume a uma questão de marketing (outro argumento campeão na boca dos “anti-Potter”). Afinal, muitos produtos de entretenimento, embora tenham avassaladora divulgação, podem, e muitas vezes viram, retumbantes fracassos.

Tendo claro que publicidade é um argumento fraco para justificar totalmente a febre potteriana, podemos partir para outro questionamento que está dentro do aspecto do impacto da obra: a leitura de Harry Potter leva os jovens a outros autores de renome, ou não? Este assunto, que já foi abordado inclusive pela revista “Veja”, é complexo, pois submete milhões de leitores a uma generalização. Podemos falar apenas em um padrão de comportamento: entrar em contato com a palavra cria uma espécie de hábito. Ao ler um texto de grande extensão e complexidade pela primeira vez, nosso cérebro geralmente resiste. Isso não denota ignorância, mas sim uma mera falta de costume. Se, algum tempo depois, voltarmos a encará-lo, nossa resistência será menor, até um ponto em que ela não nos atrapalhará tanto.

Aqui está o problema das famosas “leituras obrigatórias” do vestibular. Acredito que as pessoas que fazem parte da comunidade do Orkut “Harry Potter na Fuvest” (eu entre elas) saibam que os autores exigidos pelas universidades são de grande importância, não só para as letras, mas para a formação de nossa identidade nacional. Mas a maioria dos vestibulandos simplesmente não se sente motivada a embarcar nessas histórias. Isso acontece muito pela falta de adaptação ao estilo e não propriamente pelos enredos desenvolvidos. Quando Carlos Drummond de Andrade diz em seu excelente poema “Procura da Poesia” que cada palavra “tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?”, ele valoriza a “tradução” que cada escritor faz, ao transformar pensamentos em uma expressão oral ou escrita. Se essa transposição é feita de forma que não atinja o leitor ou não traga nenhum sentido para ele, a “grande” literatura não cumpriu sua função. Deixo aqui uma primeira pergunta a vocês: é culpa do público, que não se interessa por textos mais elaborados e antigos, ou é de nossa educação, que não se preocuparia em facilitar essa compreensão? Ou então, nenhum dos dois?

O fato é que a prosa de Harry Potter não traz grandes dificuldades ao leitor comum, e isso facilitou a massificação do fenômeno com maior eficácia. Mas a real chave para a compreensão do seu sucesso é a identificação entre personagens e público, com ênfase no aspecto da idade e do amadurecimento. No entanto, a maioria dos intelectuais ainda não se deu conta disso, talvez por um certo preconceito. Caso algum dia uma pesquisa seja feita sobre a faixa etária dos fãs da série, provavelmente veríamos que a grande maioria está hoje na faixa dos 16 aos 22 anos. Ou seja, quando Harry “tinha” 12, nós passávamos por muitos dos dilemas emocionais do bruxinho, como a afirmação diante dos colegas, mais à frente, a primeira paixão, a transformação de alguns amigos em grandes parceiros de vida etc.

Contra esse argumento, poderíamos afirmar que a maioria das histórias para jovens tem exatamente jovens como protagonistas! Mas o segredo de Rowling é que, intencionalmente ou não, o amadurecimento de enredo e de estilo aconteceram juntamente ao dos personagens e ao dos leitores. Em “Pedra Filosofal”, o momento mais tocante é o Espelho de Ojesed. Se ele estivesse em “Ordem da Fênix” ou “Relíquias da Morte”, talvez fosse o capítulo mais tranqüilo.

O mais próximo que chegamos ao tentar afirmar por que os livros são tão bem sucedidos é considerar que a autora, ao mesmo tempo em que chamou o público para se identificar com os personagens e seus desafios, surpreende seus leitores a cada episódio. Essa surpresa reside na cada vez maior carga de drama, suspense, reviravoltas e bons diálogos. Isso faz mais sentido do que denunciar um certo desejo de resgatar uma infância e de escapar dos verdadeiros desafios da vida. Inclusive porque a série faz exatamente o oposto disso.

O ENREDO E A SUA “EMBALAGEM”
Em declaração ao jornal “The New York Times” há alguns anos, a escritora britânica A.S. Byatt afirma que Harry Potter é “uma colcha de retalhos inteligente de idéias recolhidas de todo o tipos de literatura infantil […], escrita para pessoas cuja imaginação está confinada aos desenhos animados da TV, e aos exagerados […] mundos-espelho das novelas, reality shows e fofoca de celebridades”. É difícil não questionar se a autora já chegou a abrir algum livro da série, quando dá a entender que o mundo mágico é repleto de segurança e encantamento.

Primeiramente, porque a magia do mundo de Potter não é escancarada, não se trata de uma prática livre, mas sim restrita a uma comunidade que se esconde justamente para não afetar gravemente a sociedade trouxa, que os bruxos, ao mesmo tempo, protegem e temem. E também não é através de feitiços que os problemas são resolvidos, mas sim através de valores praticados também pelos trouxas e representados nas quatro casas de Hogwarts: coragem, lealdade, sabedoria e ambição.

Desde a própria história do protagonista, que teve seus pais mortos por alguém que busca a imortalidade, e essa busca está diretamente relacionada à vida do garoto. O ambiente em que Harry viveu até os 11 anos de idade foi extremamente hostil, e mesmo o lugar em que se sentia em casa trazia inúmeros problemas a ele. Toda a história se passa em um clima de incerteza, em que não se sabe exatamente quem é vilão, ou mesmo se ele existe. Os personagens são postos em xeque pela consciência de Harry a cada momento.

A cada episódio, somos apresentados a temas universais como racismo, diversidade, terrorismo, disputas políticas, corrupção de tribunais, pobreza, entre outros, todos permeados pelo principal, que é o amor como motivação para o sacrifício e a deterioração da própria identidade, para derrotar a morte. Ou seja, assuntos que estão em evidência nos últimos tempos servem como “escada” para um contexto maior.

Mas todo esse arranjo garante que Harry Potter seja um exemplar de boa literatura? Harold Bloom é considerado um dos maiores críticos literários da história. Obviamente, ele seria perguntado a respeito do fenômeno criado por J.K. Rowling. Porém, Bloom não contava com que, a partir do momento em que deu sua opinião, seria odiado por milhões de pessoas ao redor do mundo. Afinal de contas, por que ele não gosta de Harry Potter? Nada melhor do que dar aspas a ele: “A mente de Rowling é tão governada por clichês e metáforas mortas, que ela não tem estilo de escrita”. Ou seja, Bloom vê a referência à astronomia, filosofia, geografia, história e a línguas como um contorno que enfeita uma trama óbvia e vazia.

Stephen King, o autor norte-americano de livros ficcionais de terror de grande sucesso como “O Iluminado” (1977), pensa diferente. Para ele, Harry Potter é “uma perspicaz história de mistério”, elogiando a maneira com que a narração é feita, em terceira pessoa, no entanto, sempre com uma visão “interior” do protagonista. Este é um recurso que não é tão fácil quanto recorrer à primeira pessoa, mas traz a mesma sensação de que sabemos exatamente o que Harry está sentindo e pensando. É como se fôssemos espectadores privilegiados da consciência do rapaz.

Colocando todos esse pontos de vista na mesa, é perceptível que os detratores da série, apesar de terem todo o direito de expressar suas visões, o fazem com certa precipitação, não analisando a série como um todo, mas julgando valores a partir de apenas um livro, ou trechos, até os próprios filmes. Como Isadora Cecatto argumenta muito bem em sua coluna, não estamos lidando com um conto de fadas, mas sim um romance que tem potencial para ser tornar um clássico (o que não quer dizer que já o seja). O que realmente se verifica entre os críticos é o recorrente preconceito contra best-sellers, como se sucesso de vendas e qualidade artística fossem dois atributos necessariamente antagônicos.

A INDÚSTRIA CULTURAL
Os best-sellers, como Paulo Coelho, Stephen King e Dan Brown, são constantemente apontados como os “assassinos” dos verdadeiros valores artísticos. Essa visão começa a ganhar força por volta de 1920, com os teóricos da Escola de Frankfurt (Alemanha). Eles defendem que a chamada “indústria cultural” ou “cultura de massa” fazem com que haja uma homogeneização do público em todo o mundo, derrubando as manifestações de arte locais, que não têm tanto espaço na mídia para divulgação.

Por volta de 1960, o semiólogo e escritor italiano Umberto Eco, autor de “O Nome da Rosa”, inicia uma crítica a essa postura, afirmando que a cultura de massa é uma manifestação da democracia na cultura, algo que integra populações em vários pontos do planeta em um mesmo ideal. Enquanto 10 entre 10 críticos brasileiros destruíam Paulo Coelho, Eco o elogiava. O entretenimento que é capaz de viajar o mundo merece aplausos por fazê-lo, em uma época em que os nacionalismos parecem ressurgir cada vez mais fortes.

No meio desse tiroteio de idéias, estamos nós, leitores, ávidos por defender nossos livros favoritos e um pouco inseguros de como fazê-lo. Se formos apreciadores da cultura das massas, temos argumentos para nossa defesa, assim como os “Harold Blooms” por aí também têm. Há alguma conclusão, ou tudo isso se resume a uma mera questão de gosto e argumentação? Esta é a pergunta para qual não encontrei resposta. E vocês?

REFERÊNCIAS
Ana Elisa Ribeiro [no Digestivo Cultural]
Cândida Vilares Gancho: Como analisar narrativas
Max Horkheimer: Teoria críticam
Umberto Eco: Apocalípticos e integrados

Site oficial do jornal “The New York Times”
Site oficial do “The Boston Globe”


Sheila Vieira é mais integrada que apocalíptica.