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Quando a literatura brasileira encontra Harry Potter

Dá samba? Caipirinha, Carnaval ou futebol? Claro que não! Há algo muito além de clichês gringos sobre a nossa terra natal. Este algo entra em cena em um breve artigo encontrado esta manhã no periódico eletrônico Terra Magazine.O artigo, de autoria do diplomata mineiro Alberto Luiz Fonseca, respira os ares de Londres e produz comparações interessantes e uma reflexão entre as semelhanças no estilo de JK Rowling e um dos grandes nomes da nossa literatura, o autor do clássico Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa:

Se você leu Harry Potter, mas não sabe porque deveria ler um clássico de Guimarães Rosa, aqui vai a resposta. O que fez João? O que faz Joanne? Os dois autores constroem mundos onde seus meninos serão heróis.

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Nada melhor do que começar o sábado lendo um texto agradável e ao mesmo tempo atrativo para nós fãs brasileiros, ou não. Você confere o artigo completo na extensão.

HARRY POTTER
Harry Potter e a Vereda-do-Frango-d’Água

Terra Magazine ~ Alberto Luiz Fonseca
07 de junho de 2008

Outro dia eu estava procurando uma amiga no Orkut, acabei caindo na página de uma desconhecida de 17 anos, cujo perfil dizia “o que eu mais adoro é beijar na boca”. Fui à linha dos “livros preferidos”: a elegante senhorita tinha escrito algo como “ler para quê, que droga, eu li os Harry Potter 1,2,3 e 4”.

Não é por isso que esta coluna escrita em terras da Rainha Elizabeth II tentará ligar os “best sellers” de Joanne Kathleen Rowling a um clássico de João Guimarães Rosa.

Mas, poderia ser.

Se você leu Harry Potter, mas não sabe porque deveria ler um clássico de Guimarães Rosa, aqui vai a resposta. O que fez João? O que faz Joanne?

Os dois autores constroem mundos onde seus meninos serão heróis. A começar por Hogwarts, o mundo da magia, dos bruxos e feiticeiros, no qual o Bem é representado pelo diretor da escola, Albus Dumbledore, e o Mal (tinha de ter um Mal, claro, se não o Dumbledore virava um chato e todo mundo ia jogar Play Station!) pelo arqui-inimigo de Harry Potter, Lord Voldemort.

Já o Mutum, pedacinho de sertão onde vive Miguilim, é um mundo de magia mais sutil, onde o bem e o mal trocam de papéis o tempo todo, à ponto de Miguilim às vezes acreditar que ele mesmo carrega o mal em si, apesar de não ser essa a sua vontade!

Miguilim e Harry Potter têm coisas em comum. Potter, o mini-bruxo, tem medos, inseguranças, como o menino do sertão, Miguilim. Os dois mostram força de caráter nos seus momentos de grandeza.

Há uma diferença marcante entre eles, porém: Harry já nasce como o “escolhido”, aquele que poderá finalmente liquidar o terrível Lord Voldemort (algum dia). Miguilim, esse, não nasce marcado para nada.

O mundo de magia construído por J. K. Rowling é maravilhoso, recheado de feitiços, feiticeiros, vôos de vassoura e acontecimentos místicos de todos os tipos. Embora seja uma espécie de universo paralelo, está ao alcance de todos os leitores que, sem muitas dificuldades, nele entram desde a primeira página do primeiro livro.

Não é à toa que a saga de Harry Potter faz sucesso!

O mundo de Miguilim, por sua vez, não tem nada de espetaculoso, e é mais difícil de se entrar, porque o “entrante” tem de se acostumar com a língua do sertão, que determina o lugar.

De repente, porém, você está ali bem no meio da narrativa, e descobre que aconteceu o inacreditável, você entrou em um novo mundo, mas – e aí está a bruxaria de J. G. Rosa – não é um mundo paralelo, é o mundo do Mutum tornado real!

Rosa vai conduzi-lo, leitor, pela mão. Dentro da estória de Miguilim. Como Virgílio conduzindo Dante na Divina Comédia. Como ele faz isso, não é fácil responder, é melhor você ir lá, abrir o livro e experimentar.

Guimarães Rosa, uma vez, ao falar de sua literatura, disse: “eu tento o impossível”. E ele consegue. Você duvida? O livro de J. K. Rowling, “Harry Potter and the Half-Blood Prince”, começa com uma visita do “Ministro da Magia” ao Primeiro-Ministro britânico.

Já “Campo Geral”, primeira novela do volume “Manuelzão e Miguilim”, de 1956, começa contando que “UM CERTO MIGUILIM maiúsculas mesmo morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d`Água (…)”.

O gabinete do Primeiro-Ministro britânico, todo mundo sabe onde fica: aqui em Londres, no número 10 de Downing Street. Já a Vereda-do-Frango-d’Água… desafio qualquer um a achar!