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Professor Pasquale desdenha fenômeno Harry Potter

Em entrevista ao jornal O POVO de Fortaleza, o professor Pasquale Cipro Neto, famoso pelas suas dicas de português na televisão, falou sobre temas espinhosos como o novo acordo ortográfico, e acabou encontrando tempo para desdenhar o fenômeno Harry Potter.

O senhor já disse certa vez que o exercício da leitura nesse mundo contemporâneo era cada vez mais difícil. Porque exige um pouco de solidão e hoje se faz tudo em galera. Mas chama o fenômeno Harry Potter. Você diz que o jovem não gosta de ler, mas há um verdadeiro fascínio por ele.
Eu acho que são fatos isolados. Eu não conheço a história de Harry Potter, não li e provavelmente não lerei. Eu tô mais ou menos como o João Cabral de Melo Neto. Uma vez perguntaram pra ele o que ele lia e ele respondeu: “Eu só releio. Eu vou na certeza porque eu não tenho mais tempo para perder tempo, não tenho mais tempo de errar”. Não tenho interesse em ler o livro nem em ver o filme. Posso estar enganado, mas acho que o Harry Potter não vai ter lá muita coisa pra me dizer. Acho. Pode ser preconceito, pode ser qualquer coisa. Se eu conhecesse, poderia fazer algum julgamento. Algum interesse deve ter na história.

A entrevista na íntegra, apesar de não abordar mais Harry Potter, pode ser lida em notícia completa.

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HARRY POTTER
Pasquale critica fenômeno Harry Potter

O POVO ~ Henrique Araújo
28 de junho de 2008

“Em vários de seus artigos em jornais e revistas ele já chamou os lingüistas de ‘idiotas’, ‘ociosos’, ‘defensores do vale-tudo’ e ‘deslumbrados'”, escreveu Marcos Bagno, ainda em 2001. Doutor em lingüística pela Universidade de São Paulo e autor de Preconceito Lingüístico, ele se referia ao apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, o professor Pasquale Cipro Neto. À época, Bagno destilava veneno contra algumas reportagens publicadas na revista semanal Veja. Nelas, queixava-se o lingüista, o veículo dera muito espaço a “obscurantistas” como o professor Pasquale e pouquíssimo a outros cientistas. Entrevistado da vez nesta terceira edição de O POVO quer saber, que foi ao ar na manhã de ontem, pela rádio O POVO/CBN, o Professor Pasquale abordou temas espinhosos como o novo acordo ortográfico, o ensino de português nas escolas e os tropeços gramaticais do presidente Lula. Entre eles, encontrou um tempinho para desdenhar do fenômeno Harry Potter e acrescentar mais um termo ao rol de adjetivos pouco simpáticos com que mina a paciência de seus desafetos: “débeis-mentais”.

Aos 53 anos, Pasquale Cipro Neto quase nunca se despe da vestimenta de ‘professor Pasquale’. Usa-a para dizer por que se deve optar pelo demonstrativo “esse” em vez de “este” ou “mal” no lugar de “mau”. Sempre recorrendo a exemplos do cotidiano ou a trechos de canções de Caetano Veloso e Chico Buarque – em terras cearenses, a menção a Belchior também caiu muito bem -, as respostas do docente são límpidas, tranqüilas e inabaláveis. Em duas horas de entrevista, ele bateu um papo com o também professor de português e consultor de O POVO, Myrson Lima, e os jornalistas Eliomar de Lima, Regina Ribeiro e Raquel Chaves. O encontro foi mediado pelo jornalista Erick Guimarães.

Nele, prof. Pasquale exasperou-se apenas uma única vez. Feita por um ouvinte do programa e lida no ar pelo mediador, a questão proposta – sobre a existência de preconceito lingüístico no Brasil – trouxe à baila as rusgas vividas entre lingüistas e gramáticos. “Existe todo tipo de preconceito. Hoje se faz do preconceito lingüístico um cavalo-de-batalha. Em nome do combate ao preconceito lingüístico não se pode criar uma seita fundamentalista de loucos, absolutamente loucos, que saem vendo pêlo em ovo, que saem enxergando maluquices”, advertiu. “E aí os débeis-mentais seguidores dessa seita vêm dizer: ‘Essa língua que o senhor prega já morreu?’ Eu não estou pregando, estou ensinando mais uma roupa do guarda-roupa.” No mais, o professor portou-se como se estivesse apresentando um de seus programas.

Erick – Esqueceram de combinar com o adversário…
Pasquale – E Portugal aprovou? Portugal não aprovou. Como é que o Brasil vai aprovar um acordo de unificação ortográfica que não unifica? O Ministério da Educação tinha chegado a publicar a portaria, dizendo que o acordo entraria em vigor em 2008, mas a coisa foi cancelada. O Antônio Houaiss dizia que o acordo se fazia necessário porque as diferenças gráficas entre o português de Portugal e Brasil impediam a redação de documentos internacionais em um padrão só. Uma decisão política, diplomática, estratégica etc. Primeiro que o acordo não resolve essas dificuldades, que isso resolve o problema porque há uma unificação que não unifica… Os portugueses dizem cómodo e nós dizemos cômodos. Eles escrevem com acento agudo e nós com circunflexo. O sujeito que está lá em Estocolmo estudando português, ele escreve à brasileira ou à portuguesa. Que unidade é essa? Ele vai continuar com a mesma dúvida. Quem viveu a reforma de 1971, as pessoas que têm mais de 50 anos sabem. Essas pessoas ainda vivem com duas grafias. Essa reforma de 1971 ainda não foi absorvida. A gente vai ao restaurante e encontra “molho” com circunflexo, que era o padrão anterior a 1971. Quais são as desvantagens? Tem que jogar fora tudo que está impresso hoje. Portugal tem menos de 10 milhões de habitantes. Eles não querem esse negócio, o povo não quer, as editoras não querem. Quanto custa isso? E mais, as crianças que já foram pra escola, que já aprenderam, que já escrevem… Eu tenho a impressão de que o custo supera de longe o benefício. Por mim, essa reforma não seria feita. Se fosse uma coisa consistente… O que ela mexe com os acentos diferenciais é uma coisa horrorosa. No bojo de eliminar os acentos inúteis, tolos, eliminam-se os úteis. O ‘pára’ do verbo do parar é necessário. Como é que vou escrever para-médico, pára-raio. As pessoas vão dando canetadas sem levar em conta a realidade do uso da língua.

Myrson Lima – Eu acho que o acordo é um fato irreversível e consumado. A minha preocupação no momento é o que fazer para preparar os revisores, os professores. Portugal reclama, mas houve 16 anos. A essa altura, não adianta ficar se lamuriando…
Pasquale – Ontem à noite em São Paulo eu terminei um curso essencialmente pra gente que trabalha em editora. E perguntei: ‘Como é que está isso nas editoras de vocês?’ A resposta foi um festival de desencontros. Ninguém sabe o que fazer. Está tudo parado, esperando pra ver se vai ou não vai. Eu ainda não diria que é fato consumado. Parece consumado, mas não sei se pro ano que vem.

Raquel Chaves – A gente usa o Português como ferramenta de trabalho. E eu sou apaixonada pela língua. Tem coisas no Português que não são permitidas em outra língua? Na sua opinião, o Português é uma língua diferente?
Pasquale – O ideal seria fazer um comentário conhecendo tudo quanto é língua do planeta, o que é impossível. Eu diria a você que esse fenômeno não é privilégio da língua portuguesa. Toda língua tem seus caminhos próprios, expressões intraduzíveis que não ter o mesmo gosto noutras línguas. O Caetano Veloso ironiza isso muito bem na música Língua. Ele diz: “Incrível! Melhor fazer uma canção. Está provado que só é possível filosofar em alemão”. Mas é uma ironia dele. Não existe isso. Toda língua é boa pra tudo.

Regina Ribeiro – As línguas são ensinadas a partir de coisas simples do cotidiano. No Português, a impressão que a gente tem, é que ela é ensinada separada da vida das pessoas. Eu queria saber de onde vem essa tradição do ensino de Português no Brasil? Ainda é uma língua como se não fizesse parte do cotidiano.
Pasquale – Isso é fato. O Drummond escreveu um poema genial sobre isso chamado Aula de Português. Ele termina o poema dizendo “O português são dois”. Um é o português de casa, da vida, e o outro é o da escola. Muita gente ainda ensina o português na escola a partir de uma análise sintática que não tem nada a ver com absolutamente nada. Não se parte do texto, não se trabalha a língua viva dos brasileiros, dos textos brasileiros. Eu acho que a visão de língua da escola tem que ser ampla. A escola tem que preparar o aluno pra ser capaz de ler um clássico. É função da escola. E também pra ser capaz de conviver com a língua de hoje. Mas muita gente não entende o que deve ser feito, passa de um extremo para o outro.

Erick – E qual é o outro extremo?
Pasquale – Um extremo é o gramatiqueiro, que quer que as pessoas fiquem só nos clássicos e nem sempre os clássicos brasileiros, que deve ser dominada, conhecida, mas pra fazer parte de um guarda-roupa. O outro extremo qual é? É o zero em relação a isso, a aula de português que fica na leitura de crônica, na música popular, no rap. O rap é ótimo, fantástico. Tem que integrar o guarda-roupa. Ou então na oralidade, muita escola hoje trabalha a oralidade. Francamente. Eu vou pra escola pra aprender o que eu já sei, que tá no dia-a-dia de todo mundo, das pessoas, da família?

Eliomar de Lima – Leitura é indispensável ou basta dominar as regras da gramática?
Pasquale – Quem domina as regras é a mesma coisa de quem cursa natação em casa. Alguém aqui já cursou natação em casa com um livrinho? Impossível. O pensamento começa em casa, no dia-a-dia. A família tem que inserir os filhos nesse mundo da cultura letrada.

Erick – O senhor já disse certa vez que o exercício da leitura nesse mundo contemporâneo era cada vez mais difícil. Porque exige um pouco de solidão e hoje se faz tudo em galera. Mas chama o fenômeno Harry Potter. Você diz que o jovem não gosta de ler, mas há um verdadeiro fascínio por ele.
Pasquale – Eu acho que são fatos isolados. Eu não conheço a história de Harry Potter, não li e provavelmente não lerei. Eu tô mais ou menos como o João Cabral de Melo Neto. Uma vez perguntaram pra ele o que ele lia e ele respondeu: “Eu só releio. Eu vou na certeza porque eu não tenho mais tempo para perder tempo, não tenho mais tempo de errar”. Não tenho interesse em ler o livro nem em ver o filme. Posso estar enganado, mas acho que o Harry Potter não vai ter lá muita coisa pra me dizer. Acho. Pode ser preconceito, pode ser qualquer coisa. Se eu conhecesse, poderia fazer algum julgamento. Algum interesse deve ter na história.

Erick – Professor, nós passamos boa parte do programa falando da deficiência das pessoas no conhecimento da língua. Nós estamos aprendendo a usar melhor a língua portuguesa? O que chama atenção é o interesse que esse assunto tem despertado. O senhor mesmo é uma prova disso. Esse interesse vem se desdobrando na melhora da língua?
Pasquale – Olha, é difícil dizer isso. Porque é difícil ter o retorno concreto disso. Tudo que diz respeito à língua é bem-vindo, as pessoas querem. As pessoas sabem que a escola não cumpre o papel, lamentavelmente. As pessoas vão buscar isso em outras fontes. O programa que faço na TV Cultura não precisaria existir se o ensino de língua cumprisse o seu papel. Não tenho pretensão nenhuma de substituir a escola, o professor. Apenas a gente quer colocar algumas coisas em discussão, em evidência pra que as pessoas tenham acesso a isso. Se isso dá resultado? Não sei. Sou suspeito pra dizer. Tenho a impressão de que algum resultado gera.