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O (futuro) pior erro de Harry Potter

O fenômeno Harry Potter é um fenômeno inserido, sim, no sistema capitalista. Daí a exploração oportunista de Warners e Bloomsburys da vida. Natural. É o que afirma nosso colunista Victor Martz.
Ele ainda aborda as maiores críticas ao trabalho altamente midiático de J. K. Rowling e critica o desejo de alongar indefinidamente a série (como, aliás, algumas comunidades do Orkut apregoam). Aos “fãs desmamados” e àqueles que acham heresia comparar textos de diferentes autores (Tolkien/Rowling, no caso), é indicado evitar o texto completo, que você, leitor atilado, pode ler aqui.


por Victor Martz

Harry Potter é um dos maiores nomes da cultura pop (ainda duvida?) e, talvez, o livro mais famoso de todos os tempos. Tão grande é a sua importância e seu alcance que talvez um dos maiores equívocos seja declarar que “Harry Potter morreu”. Ainda ouviremos falar desse bruxo por algum tempo.

Ok, mas a questão não é essa. Convencendo-se desse fato, vamos para o oooutro extremo da situação, que é o desejo declarado de se continuarem e continuarem e continuarem a história, fazendo de tudo para estender a (lucrativa, digamos logo) franquia potteriana. Dividir o último filme em dois, ceder para a vontade de se escrever uma oitava história, aparente o maior desejo seja agradar ao fã desamparado – aliás, coitadinho do fã desamparado.

Vamos por partes: comecemos analisando friamente a alardeada divisão do último filme. O fã, depois de cinco – em breve seis – filmes, já aprendeu, ou ao menos aceitou que os filmes, por serem um tipo de mídia diferente, devem contar uma história “diferente” para se adaptar ao formato. Não me venha dizer então que a divisão vai manter a fidelidade com o livro, porque se fosse assim, já deviam ter feito isso desde CdF. Aliás, com mais tempo sobrando e pouca coisa contada, o risco de alteração da história original é ainda maior.

Tá, eu, como todo fã, vou gostar de ir no cinema de novo com meus amigos, xingar alguns atores, dar risada de outras interpretações, mas no intímo, vai ficar uma sensação estranha, como se estivesse fazendo uma alteração definitiva na história, alterando até mesmo o ritmo que a JK queria passar a mensagem. Até a sensação da história seria outra, amputada, sem padrão com os outros filmes, cujos enredos eram redondinhos, fechadinhos.

E porque tudo isso? “Ora, estamos lidando com um furacão, temos que arrastá-lo e drenar a maior quantidade de dinheiro possível, não é?” Harry Potter entra para história não pela sua inovação em termos lingüísticos ou literários, mas sim pela quantidade de pessoas que ele foi capaz de mobilizar em um mundo que (realiza!) é capitalista, gente! Não seria nenhuma surpresa que os produtos e marcas relacionadas aos livros seriam usados ainda por bastante tempo. O mesmo dizendo para os filmes, séries (ué, quem sabe?) e livros…

Sim, livros. Não é segredo a vontade da JK escrever uma enciclopédia sobre a história, pois segundo ela, há muito mais história nas entrelinhas dos livros do que supõem a nossa vã filosofia. Até aí tudo bem, estamos contentes e esperando pela enciclopédia ansiosos. Quando ela vem com a seguinte declaração: “O que me mantém longe de Hogwarts na próxima geração é ter que voltar ao quadribol, a menos que decida que meu herói, nessa ocasião, não pudesse jogar”. Então ela pensa em continuar escrevendo “Harry Potter”? E ainda por cima, ela pensa em voltar pra Hogwarts?!

Pois é aí que tenho medo da pior banalização que Harry Potter pode sofrer. Se algum HP8 fosse escrito, ainda mais por pedido do público, provaria não só que o fã não consegue se desapegar da série, ou seja, não é um leitor real, mas apenas um viciado em magia, como, definitivamente, a nossa tão querida autora não tem talento pra escrever outra coisa e que Harry Potter foi mais um golpe de sorte do que algum produto dos seus dons.

Aliás, com um cenário tão complexo, que chega às vezes a rivalizar com a Terra-Média de Tolkien (sim, comparei, ponto final), retornar a Hogwarts e a um enredo escolar, e acima de tudo, voltar à vida de Harry Potter, quando tão abertamente sabemos que não há mais nada para se descobrir e lutar, é um desperdício dos maiores que pode ocorrer com a série. Tenho até medo de pensar no que as pessoas que já desprezam Harry Potter vão ser capazes de falar. Será como disse na minha última coluna, placebo pra fãs desmamados que já sabem de tudo, sem nada de novo, sem nada de diferente, sem nada de excitante.

Eu apoio sim, que a JK comece a percorrer outras veredas, escreva em outros estilos, sobre outros temas, faça com que seu nome seja maior do que o do seu “monstrinho”, e, aí sim, volte ao universo mágico que criou com tanto empenho. Mas não volte a Harry Potter. O menino com um raio na testa tem que morrer.