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Harry Potter inglês ou brasileiro?

Você leu Harry Potter em português or in English, m’dear? A estréia de Bruna Moreno, tradutora tarimbada do Potterish in English, é exatamente sobre o díficil processo de pular duma língua pra outra, mantendo o garbo original das personagens.
A responsabilidade de traduzir para o português uma obra como a de Rowling, cheia das invenções verbais e fusões hilárias, coube à senhora Lia Wyler. Amada por uns, odiada por outros, ela agora ganha um motivo para sorrir: sim, tradução não é um copy-paste de palavrinhas do dicionário – Bruna nos mostra como a coisa é muito mais árdua. Deixe seus comentários para iluminar ainda mais esta quente questão. O texto completo, você lê aqui.


por Bruna Moreno

Lembro-me perfeitamente bem da primeira vez em que pus as mãos em um “Harry Potter” britânico. Era 2003, ano especial por marcar o lançamento do quinto livro — obviamente, primeiro em inglês. Ah, na época eu já era uma louca fã incondicional, jamais poderia suportar outros seis meses a mais para ler a versão brasileira. Era tortura! Respirei fundo e fiz jus ao meu curso de inglês. Consegui os quatro primeiros e jurei terminá-los antes do dia esperado.

Qual já não foi minha surpresa logo nas primeiras páginas, quando vi o Duda mimado se transformar em um estranho Dudley, o Tio Válter mal-humorado ser um Uncle Vernon mal-humorado e aquele aparelhinho mágico que sugava as luzes dos postes, o tal do “apagueiro”, virar um deluminator sem nenhuma semelhança lexical com a tradução do português brasileiro. Pois é. Essas são só algumas das mudanças (que variam entre sutis e muito radicais, derivações e neologismos) que eu enfrentei durante o desafio proposto a mim mesma, e que, aliás, são frutos de muitas discussões pela internet.

Há quem odeie Lia Wyler com todas as suas forças, e há quem leia suas traduções sem ao menos saber seu nome. Pois, sim, eu particularmente não acredito que quem tenha condições (tanto oportunas quanto relativas ao conhecimento da língua estrangeira em questão) de ler uma obra na língua original prefira a traduzida, ao mesmo tempo em que quem não as tenha saiba identificar os defeitos da tradução. A senhora Wyler – doutora em Tradução pela Universidade de São Paulo – já segue a carreira há muitos anos e certamente sabe dos aspectos do público leitor do país: há quem leia traduções, e há quem as deteste.

Até a época em questão, eu me encaixava muito bem no primeiro grupo de pessoas. Depois de ter podido comparar as duas versões, era aliada ao segundo. Hoje, depois de ter passado a acompanhar a saga somente em inglês até seu fatídico final, digo que pretendo abrir uma nova comunidade: a dos defensores dos tradutores.

E não é porque sou considerada suspeita para falar, não! Traduzir uma obra literária é um trabalho complexo, uma arte. Afinal, um texto não é só um monte de palavras jogadas: elas são unidas de forma elegante e significativa, de forma a transmitir imagens, pensamentos e emoções. Um romance não é a mesma coisa que um manual de uma máquina de lavar roupa; suas intenções são diferentes, seus sentimentos são diferentes e o modo como devem ser lidos é diferente. Portanto, não se pode esperar que a tradução de um romance seja feita do mesmo modo que a do manual de uma máquina de lavar roupa – não basta somente que haja a correspondência de palavras entre as línguas (simples motivo que me leva a repudiar as traduções amadoras divulgadas vastamente na internet, à época do Deathly Hallows); espera-se as mesmas sensações, as mesmas idéias, a mesma espontaneidade — ou melhor, fica-se esperando, na verdade.

Uma história ficcional sai de dentro de seu criador, de modo a fazer parte dele, deixar de ser somente criatura; será reflexo de um período, de uma sociedade e de um indivíduo-escritor. Sua tradução virá também de um segundo indivíduo-escritor, o tradutor, que inevitavelmente espelhará, nas palavras do outro, suas próprias (diferente do que acontece com as instruções da máquina de lavar, que não passam das próprias instruções: uma guia atemporal de ninguém para qualquer um). Cada tradução é tão única quanto o texto original.
Nestes parâmetros, o que é uma boa tradução?

Para responder isso, vamos primeiro observar os três pontos mais controversos do “Harry Potter” brasileiro, e depois partiremos do vago princípio que rege a vida: tudo é relativo e justificável.


1)
O primeiro ponto, e que sempre me incomodou mais do que qualquer outra coisa referente a este assunto, são os nomes próprios. Os mais gritantes (o Dudley que virou Duda, o Vernon que virou Válter, o James que virou Tiago, o Bill [carinhoso para William] que virou Gui [para Guilherme], o Kingsley que virou Quim, a Lavender que virou Lilá, o Lee que virou Lino, o Marvolo que virou Servolo) e os mais parecidos (a Lily que virou Lílian, a Bellatrix que virou Belatriz, o Peter que virou Pedro, o Ron que virou Rony, a Ginny que virou Gina, o Charlie que virou Carlinhos, a Nymphadora que virou Ninfadora, o George que virou Jorge) rodeiam o grupo mais desconfortante dos que tiveram seus “us” finais cortados: Albus (Alvo), Severus (Severo), Remus (Remo), Rubeus (Rúbeo), Lucius (Lúcio), Cornelius (Cornélio), Mundungus (Mundungo), Rufus (Rufo), Regulus (Régulo), Xenophilius (Xenofilio), Argus (Argo), Dedalus (Dédalo), Scorpius (Escórpio) — só para citar a listinha que eu sempre carrego no bolso. Talvez alguns deles sejam realmente justificáveis, como Kinsgley ser meio difícil de se pronunciar, ou o Tiago que realmente corresponde a James e, obviamente, o Servolo criado para se manter o jogo de palavras de Tom Riddle (felizmente inalterado) no segundo livro. O resto, no entanto, são só referências latinas perdidas em aportuguesamentos sem-sentido – oras, por que raios Remus Lupin teve de virar o feio Remo Lupin, e o ridículo Scorpius Malfoy se transformar no (ainda mais) ridículo Escórpio?!

(Neste tópico, chega até ser engraçado notar como o Sirius Black se manteve original. A primeira vez que seu nome foi mencionado na série, como todos sabem, foi logo do primeiro capítulo d'”A Pedra Filosofal”, quando Hagrid conta a Dumbledore que “o jovem Sirius” tinha lhe emprestado a moto voadora. Muito possivelmente a tradutora não achou que o personagem teria tanta importância na trama posteriormente, e resolveu deixá-lo do mesmo jeito esquisito com que tinha aparecido. Outra possibilidade é a de que Sírio Black seria absurdo demais para ser no mínimo considerado).

Muito infelizmente, as referências não se perderam somente nos nomes de personagens. Hogwarts e Hogsmeade faziam um lindo trio com o bar de Aberforth Dumbledore, o Hog’s Head, traduzido literalmente como “Cabeça de Javali”. Eu considero uma pena que a senhora Wyler não tenha mantido o nome original (porque, obviamente, chamar o castelo de “Verruga de Javali” e o vilarejo de “Campina de Javali” já é totalmente desconsiderável) tão tarde na série.

Outra mudança lamentável – porém aparentemente incontornável — é a dos nomes das provas que os estudantes enfrentam em seus quintos e sétimos anos. Os O.W.Ls e os N.E.W.T.s (brincadeira com as palavras “coruja” e “salamandra”, respectivamente) perdem o tom mágico ao serem chamados de N.O.M.s e N.I.E.M.s, siglas do significado literal. Que pena, novamente…


2)
O universo de Jo Rowling é fantástico, no sentido mais fictício da palavra. Quem já leu “O mundo mágico de Harry Potter” de David Colbert certamente sabe da habilidade que a nossa querida escritora tem de moldar lendas e mitos (principalmente os europeus) dentro do mundo bruxo. Ali, as vassouras são usadas como meio de transporte, unicórnios são sagrados, dragões tem de ser domados, corujas enviam cartas, varinhas são feitas de madeira especial e as poções levam ingredientes inusitados.

Os goblins, por exemplo, do banco de Gringotts (Gringotes, em português, por uma simples questão fonética), criaturas rabugentas e desconfiadas que lidam com metais e mineração, pertencem a muitas histórias folclóricas. Lia Wyler optou por chamá-los de “duendes”, nome seguramente mais conhecido no Brasil do que o original – no entanto, tal mudança distorce o mito intencionado porque, na realidade, duendes são muito diferentes de goblins. Os primeiros são brincalhões (talvez mais parecidos com o que Lia chamou de “diabrete da Cornualha”, no segundo livro), enquanto os segundos são sérios e trabalhadores.

E o trasgo que Quirrell solta no Dia das Bruxas? O que é um trasgo? O meu dicionário Aurélio define que este substantivo masculino é “uma aparição fantástica; diabrete; duende”, o que visivelmente não tem NADA a ver com a lenda européia dos trolls (palavra original), seres muito burros, violentos e mal-cheirosos (repetição desnecessária para quem já leu Tolkien ou Eoin Colfer).

O vampiro que se passa por Ron no sétimo livro também, na verdade, não é um vampiro (o que não é realmente difícil de se acreditar, visto que nossas histórias vampirescas certamente não os tratam como criaturas viscosas que só gemem e babam) e sim um ghoul, demônio que se alimenta de cadáveres (agora, talvez a descrição se encaixe melhor ao nome).

Também existem muitas palavras criadas: Quidditch (Quadribol), Thestrals (testrálios), Dementor (dementador), Blast-Ended Skrewt (explosivim), Nargles (nargulés), Merpeople (sereianos), to apparate/ disapparate (aparatar [cujo significado é "enfeitar”, em português]/ desaparatar), além de muitas outras modificadas por força maior de leitura (para confirmações, consultar “Animais Fantásticos e Onde Habitam” em português).


3)
Por fim, a parte do trabalho de Lia Wyler que mais preocupou fãs nos últimos meses antes do lançamento d’”As Relíquias da Morte: o título dos livros. Particularmente, acho que somente três deles são discutíveis (não gostaria de entrar no debate Philopher’s Stone versus Sorcerer’s Stone).

Inicialmente, daremos conta do segundo livro. Quando Hermione Granger levanta a mão durante a aula de História da Magia, no capítulo nove, ela quer saber sobre a lenda da Chamber Of Secrets, literalmente “Câmara dos Segredos”, traduzido como “Câmara Secreta”. Sim, não se pode contestar que o lugar criado por Slytherin tenha sido realmente secreto (senão, poderia ter sido achado antes); todavia, também não se pode negar que o nome em inglês faz alusão aos mistérios selados na câmara, seus segredos, e não a sua localização. Distorção semântica.

O próximo livro problemático, o sexto, já me até foi motivo de bronca. Em inglês, The Half-Blood Prince faz um jogo muito divertido com a palavra Prince, primeiramente entendida como “príncipe”, e depois como um sobrenome (um comentário à parte, às vezes eu gosto de pensar que o título é, na realidade, “Harry Potter e Severus Snape”). O trocadilho, porém, não pôde se manter na versão brasileira (acredito que “Eileen Príncipe” acabaria com a surpresa do final — e, decididamente, um nome assim seria deveras estranho). Talvez por isso (e porque, convenhamos, na verdade a participação do Príncipe Mestiço, o Snape da época escolar, é praticamente um detalhe no enredo) a tradutora tenha escolhido mudar o título para “O Enigma do Príncipe”. Uma saída até que boa, mas que não impede que meus dedos digitem “Harry Potter e o Príncipe Mestiço” sempre que eu me refiro ao sexto livro (eis o motivo da bronca…).

Por último, a saída da senhora Wyler para Deathly Hallows, para mim, foi simplesmente brilhante. O título brasileiro, “As Relíquias da Morte” dá um duplo-sentido que não existe na versão inglesa: um primeiro em que depreende que as relíquias são mortais, e um segundo que dá a entender que elas pertencem à Morte – o que, aliás, é muito mais próximo ao enredo do que o original pôde alcançar.

Talvez estas sejam as questões mais polêmicas em torno da tradução oficial. E serão elas contornáveis, aceitáveis?

Como eu mesma disse nesta coluna, o principal objetivo de um tradutor é o de tentar criar uma nova versão em língua estrangeira tão natural quanto a original, capaz de passar as mesmas emoções, as mesmas imagens, continuar surpreendendo o público como da primeira vez em que veio ao mundo. Em relação ao público brasileiro, não se pode ter dúvidas de que a série Harry Potter conseguiu alcançar tanto a mágica literal quanto a abstrata. Caso contrário, certamente o contingente de fãs brasileiros do nosso herói seria consideravelmente menor. Mas não: são muitas as pessoas que leram e releram os livros em português, aguardaram ansiosas os lançamentos no país, passaram longe das traduções amadoras na internet e, assim como eu, se encantaram pela primeira vez com a história através da língua portuguesa.

Ao mesmo tempo em que foi capaz de mantê-lo, Wyler ainda conseguiu criar um novo Harry Potter (“cada tradução é tão única quanto o texto original”), um Harry Potter brasileiro. Pois sim, suas mudanças, muitas vezes drásticas, são justificáveis a partir da consideração de um público leitor que não dominasse a língua inglesa e fosse infanto-juvenil (eu sei e concordo, como muitos fãs, que esta classificação é terrivelmente errada em muitos sentidos; no entanto, é fato que Lia Wyler pôs as mãos primeiro n'”A Pedra Filosofal”, e não n'”As Relíquias da Morte”, dois livros extremamente diferentes um do outro, e que ela, assim como os editores, jamais poderia saber quão “adulta” se tornaria posteriormente). Ora, ela conseguiu muito bem criar um livro agradável e de fácil leitura para uma população que, definitivamente, prefere chamar dungbombs de “bombas de bosta”, e não “bombas de esterco”.

(O único ponto a que talvez eu ainda seja irredutível é em relação aos nomes próprios — os elegantes Severus, Remus, Albus e Lucius — modificados de forma cruel e sem motivo aparente).

Então, quando voltamos à pergunta proposta — “O que é uma boa tradução?” —, não posso pestanejar para dizer logo: Harry Potter. Talvez ela incomode aos conhecedores da língua inglesa — mas a eles, só posso dizer para irem ler os originais. O Harry Potter britânico sem dúvidas reserva muitos prazeres para aqueles que gostam de referências histórias e jogos de palavras; mas o Harry Potter brasileiro, com o toque especial da nossa língua (pois eu duvido que qualquer leitor fosse ficar feliz ao se deparar com um Blast-Ended Skrewt no meio da aula de Trato das Criaturas Mágicas!), consegue manter a magia da história e dos neologismos, e não se deixa ficar para trás.

Crianças, jovens ou adultos — ingleses, americanos, brasileiros, espanhóis, japoneses, indianos! — são todos bem-vindos ao mundo de Harry Potter.


Bruna Moreno era tradutora do Potterish e passa a ser agora, também, escritora do staff.