As Relíquias da Morte ︎◆ J. K. Rowling ︎◆ Livros

Harry Potter e a Mudança Gramatical

Os livros de Harry Potter ganharam um status especial em nossa cultura, junto com muitas realezas para Rowling e lucro para seus editores. As histórias são criativas, complexas e enfeitiçadas, e realizaram o mágico feito de inspirar milhões de crianças a lerem.
Esse status especial traz uma responsabilidade especial, mas em um aspecto importante do livro final da série, Harry Potter and the Deathly Hallows, falha: não respeita as convenções de gramática e pontuação.

Em uma recente entrevista ao Jornal Education Week, o professor de Inglês Alan Warhaftig comentou sobre os erros gramaticais e de pontuação na série Harry Potter. Confira um trecho da entrevista abaixo:

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Essa alegação pode parecer rabugenta, mas sendo um professor de Inglês do ensino médio, eu tenho que questionar o currículo em Hogwarts. Como Chaplin desumanizou o trabalhador das linhas de montagem em seu filme “Tempos Modernos,” que se sente compelido a parafusar tudo que vê, eu me encontrei lendo esse último Harry Potter como se fosse uma redação de um estudante.

Pela notícia conter spoilers sobre o sétimo livro – Harry Potter and the Deathly Hallows – você poderá conferí-la em notícia completa.

Este artigo contém spoilers!
Se mesmo assim deseja ter acesso ao seu conteúdo, clique no link acima.
Para mais informações ou dúvidas, consulte nossa Política Anti-Spoilers.

HARRY POTTER
Importa se o mais novo livro de Harry Potter está cheio de erros de pontuação?

Education Week – Alan Warhaftig
24 de setembro de 2007
Tradução: Renata Grando

Os livros de J.K. Rowling ganharam um status especial em nossa cultura, junto com muitas realezas para Rowling e lucro para seus editores. As histórias são criativas, complexas, e enfeitiçadas, e realizaram o mágico feito de inspirar milhões de crianças a lerem.

Esse status especial traz uma responsabilidade especial, e em um aspecto importante do livro final da série, Harry Potter and the Deathly Hallows, falha: não respeita as convenções de gramática e pontuação. Essa alegação pode parecer rabugenta, mas sendo um professor de Inglês do ensino médio, eu tenho que questionar o currículo em Hogwarts. Como Chaplin desumanizou o trabalhador das linhas de montagem em seu filme “Tempos Modernos,” que se sente compelido a parafusar tudo que vê, eu me encontrei lendo esse último Harry Potter como se fosse uma redação de um estudante.

Por exemplo, na página 416, Hermione diz, “Eu não acho que ninguém exceto o Sr. Lovegood poderia enganar a si mesmo e acreditar que isso é possível.” Na página 426, ela diz, “Se sobreviver fosse tão simples quanto se esconder embaixo da Capa da Invisibilidade, nós teríamos tudo que precisamos já!” Enquanto muitos adolescentes são casuais em sua linguagem, Hermione não é um deles, e enquanto nós sabemos que ela se sobressai em Poções e Adivinhação, ela também é o tipo que seria familiar com concordância de pronomes antecedentes e modo subjuntivo – os erros nesses dois exemplos.

Hermione também teria aprendido a se expressar em sentenças completas, mas na página 414, ela diz, “Não é só um conto moral, é obviamente qual objeto é melhor, qual você escolheria -”

Alvo Dumbledore, o antigo diretor de Hogwarts, pode ser a raiz do problema, um herói não-gramatical para os jovens bruxos seguirem. Na página 685, ele diz. “Harry precisa saber, não até o último momento, não até que seja necessário, do contrário como ele poderias ter forças para fazer o que tem que ser feito?”

Se esses fossem erros isolados, seria somente uma coisa, mas eu notei 474 sentenças derivadas em Harry Potter and the Deathly Hallows – todas combinadas com vírgulas (nós fomos à loja, depois nós fomos para casa) – e incontáveis mais salvas somente pelo dramático uso exagerado de elipses, travessão e ponto-e-vírgula.

Falando em ponto-e-vírgula, uma pontuação com nobre potencial, Sra. Rowling frequentemente faz mau uso dela, combinando-a com conjunções coordenadas e e mas) e usando-a entre sentenças independentes e dependentes – ambos os quais requerem que o professor de Inglês pegue sua caneta vermelha.

E problema ainda mais rude é a abordagem da Sra. Rowling em relação às aspas, que parecem ser usadas quase aleatoriamente. Em alguns casos, itálicos são usados no lugar das aspas, como na página 248: Seu escritório deve ser aqui em cima, pensou Harry.

Frequentemente, como na página 21, ambos itálicos e aspas são utilizados: “Eu? Eu me vejo segurando um par de finas meias de lã.”

Na página 312, essa técnica é utilizada em combinação com outro sério erro de pontuação:

Ele podia ouvir Rony dizendo, “Nós pensamos que você soubesse o que estava fazendo!”, e ele terminou de empacotar com um duro nó em seu estômago.

Em um caso, uma falha de pontuação na página 566, a necessidade de aspas dentro de aspas é completamente ignorada:

“Eu contei a ele, é melhor você desista agora. Você não pode movê-la, ela não está em condições, você não pode levá-la com você, independente de onde você está planejando ir, quando você está fazendo esses hábeis discursos, tentando colocar vocês em uma busca. Ele não gostou disso, disse Aberforth, e seus olhos ficaram brevemente ocultos pela luz nas lentes de seus óculos: Eles brilhavam brancos e cegos novamente.

Claro, nenhum desses exemplos está de acordo com as regras que ensinamos nas escolas, mas o que é mais impressionante sobre gramática e pontuação em Harry Potter and the Deathly Hallows é sua inconsistência, uma característica que ele divide com os livros anteriores da série. Scholastic Inc. menosprezou a necessidade de um editor para o projeto, ou os manuscritos da Sra. Rowling estão protegidos por um feitiço de imutabilidade?

Escrever é comunicação, e como leitores nós procuramos por certos indicadores que nos ajudam a construir o significado. Se nós lemos, “John levou Jane Eyre para a cama,” nós podemos deduzir pelo itálico que o nome se refere ao título de uma obra em vez de alguém que ele encontrou numa boate – mesmo que nós nunca tenhamos ouvido falar em Charlotte Brontë.

Ler e escrever são dois lados da mesma moeda. As dicas que nós pegamos como leitores são nossas responsabilidades como escritores. Pontuação tem a função dos semáforos e placas: Pode ser inconveniente parar quando nós estamos com pressa e as luzes ficam vermelhas, mas nós estaríamos mais severamente perturbados se houvesse batidas em cada cruzamento porque não havia nenhuma ordem no tráfico.

Em seu texto de 1946 “Politics and the English Language,” George Orwell escreveu que nossa língua “se torna feia e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas a negligência de nossa língua facilita que nós tenhamos pensamentos tolos.” Escrever não é necessariamente memorizar todos os pensamentos existentes no papel; pode também ser os meios pelos quais formamos nossas idéias. As regras da língua proporcionam barreiras dentro das quais nossa voz deve seguir; elas nos forçam a disciplinar ambos a expressão e o pensamento, o que é porque é tão importante que jovens aprendam a usar a língua precisamente.

Gramática não é o inimigo, um plano para suprimir a criatividade onde quer que alcance a cabeça, e seguir convenções não seria um compromisso na visão da Sra. Rowling. É uma pena que a edição de seus livros, com milhões de jovens, impressionáveis leitores, não esteja de acordo com a qualidade da autora.

Como meus colegas e eu responderemos aos estudantes que nos perguntam por que eles deveriam seguir as regras quando a autora dos bem-sucedidos livros Harry Potter não o faz? Deveriam as provas adotarem uma abordagem “qualquer coisa vale,” com qualquer uma das alternativas consideradas corretas? Escritores e editoras têm a responsabilidade, e a Sra. Rowling e Scholastic Inc. claramente deixaram o pomo cair.

Alan Warhaftig ensina inglês no Fairfax Magnet Center for Visual Arts, em Los Angeles.