As Relíquias da Morte ︎◆ Livros

EXCLUSIVO: Lia Wyler terminou a tradução de RdM!

A tradutora oficial da série Harry Potter, Lia Wyler, gentilmente concedeu uma entrevista exclusiva ao nosso webmaster Marcelo, na qual conta que já terminou de traduzir Relíquias da Morte, qual parte gostou mais, as maiores dificuldades desse livro e finaliza com seus sentimentos ao terminar a série.

Supondo que a tradução da primeira folha até a última seja o equivalente a 100%. Quantos % a senhora traduziu até agora?
 Concluí hoje [no caso, ontem], 62 dias depois de iniciada, a tradução do sétimo volume da série Harry Potter.

A senhora pode nos contar sobre algum termo deste volume que tenha sido particularmente difícil de adaptar, como ficou a tradução e por quê?
Não sei se já mencionei isso, mas não leio os livros antes de traduzi-los − a maioria dos tradutores que trabalha com ficção comercial não os lê. Portanto, uma dificuldade que tive foi a frase “Open at the close” porque eu não sabia se devia entendê-la literal ou metaforicamente e foi preciso decidir isso no capítulo 7, sem voltar atrás, porque os capítulos foram entregues à Editora logo após eu os traduzir e rever Ora, “Close” pode ser o ato de fechar, o fim, fecho ou conclusão, terras particulares, recinto fechado, átrio. Escolhi “fecho”. A frase ficou então “Abro no fecho”, ou seja no fim, mantendo o jogo de palavras do original “open e close”.

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Para conferir a entrevista na íntegra, clique em notícia completa!

Há um pequeno spoiler – o nome de um capítulo -, mas para dar a todos a chance de lê-la, nós fizemos com que ele ficasse da cor do fundo do site; dessa forma, vocês terão de selecioná-lo para conseguir lê-lo.

A equipe Potterish agradece imensamente por mais esse contato exclusivo. Obrigado, Lia Wyler!

LIA WYLER
Potterish.com ~ Marcelo Neves
28 de setembro de 2007

1) Supondo que a tradução da primeira folha até a última seja o equivalente a 100%. Quantos % a senhora traduziu até agora?
R. Concluí hoje, 62 dias depois de iniciada, a tradução do sétimo volume da série Harry Potter.

2) Diante da pressão para que a tradução seja rápida, a criatividade necessária fica prejudicada? A senhora pode nos contar sobre algum termo deste volume que tenha sido particularmente difícil de adaptar, como ficou a tradução e por quê?
 R. Marcelo, acho que a pergunta está juntando dois conceitos díspares: criatividade e técnica. A criatividade é um dom com que a pessoa nasce e que durante a vida, se houver oportunidade, ela vai desenvolvendo com relação a um ou vários campos de trabalho. Por sua vez, a técnica, em qualquer profissão, pode ser aprendida e aperfeiçoada em qualquer momento da vida desde que a pessoa tenha interesse e alguma habilidade.

Contribuem para uma boa tradução o conhecimento dos procedimentos básicos usados no mundo inteiro, a experiência com traduções do mesmo gênero e, no presente caso, da mesma autora. Quando a Editora tem urgência de uma tradução, ela própria cria as salvaguardas necessárias para produzir em tempo recorde uma edição com poucos erros − pois erros sempre há em qualquer produto audiovisual.

Não sei se já mencionei isso, mas não leio os livros antes de traduzi-los − a maioria dos tradutores que trabalha com ficção comercial não os lê. Portanto, uma dificuldade que tive foi a frase “Open at the close” porque eu não sabia se devia entendê-la literal ou metaforicamente e foi preciso decidir isso no capítulo 7, sem voltar atrás, porque os capítulos foram entregues à Editora logo após eu os traduzir e rever Ora, “Close” pode ser o ato de fechar, o fim, fecho ou conclusão, terras particulares, recinto fechado, átrio. Escolhi “fecho”. A frase ficou então “Abro no fecho”, ou seja no fim, mantendo o jogo de palavras do original “open e close”. Mais divertidos foram os ditados, máximas ou anexins que a autora inventou para o mundo bruxo do tipo [“Varinha de sabugueiro, azar o ano inteiro”].

3) Com relação ao seu estilo de tradução no começo da série, voltado inicialmente ao público infantil, e o apresentado nesta etapa final da saga, com leitores mais maduros e o aumento dos fãs adultos, a senhora acredita que o texto sofreu grandes mudanças?
R. A partir do terceiro volume, o texto original sofreu mudanças marcantes que necessariamente se refletiram na tradução, mas imagino que a série continue a ser infanto-juvenil mesmo tendo sofrido mudanças para atender a injunções mercadológicas.

4) A decisão da Rocco de não punir as traduções piratas da internet partiu somente da editora? A senhora concorda com essa posição?
R. Acho que não me cabe dar opinião sobre um assunto que só diz respeito à J.K.Rowling e seus representantes legais.

5) Qual foi a situação mais engraçada ou inesperada que aconteceu em sua vida relacionada à série Harry Potter?
R. A carta de um gaiato reclamando da lerdeza da tradução e afirmando que qualquer bom tradutor devia ser capaz de traduzir 96 páginas de livro por dia.

6) Sem relevar fatos do livro, o que a senhora achou da nova história e de sua conclusão? Quais foram seus sentimentos ao terminar de ler Harry Potter?
R. Gostei particularmente do capítulo 31 [“A história do príncipe”].

Quanto ao que senti: há muitos anos traduzi Fogueira das Vaidades de autoria de um famoso jornalista norte-americano. Foi um livro muito complexo em que os personagens transitavam pelo mundo da arte, da moda, da decoração, da bolsa de valores, da polícia, dos negros discriminados e confinados em bairros pobres de Nova York, enfim um livro que exigiu muita informação sobre as culturas do Brasil e dos Estado Unidos. Harry Potter foi um desafio inteiramente novo: a tradução de uma série em que o profissional trabalha dez anos no escuro, sem saber se as opções que fez no primeiro volume continuarão a ser aceitáveis no volume final. Quando terminamos um desafio, não dá para avaliar imediatamente tudo que aconteceu de bom e de ruim, um desafio nos traz os dois.