Livros

Entrevista com a Lia

Essa semana, a tradutora de Harry Potter, Lia Wyler, deu uma entrevista para o Jornal do Brasil. Ela comenta os prazos (curtos para tradutores e intermináveis para fãs), a série, a lista de discussão que tradutores de vários países têm para soluções e diversas outras coisas.

Ela também fala sobre o mercado editorial brasileiro, diz que a série realmente causou um aumento financeiro no seu passe, mas que isso não foi tão benéfico pois a excluiu do mercado, e sobre os direitos autorais dos tradutores.

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Obrigada, JB.

LIA WYLER
O tradutor de Harry Potter trabalha na escuridão

Jornal do Brasil ~ Monique Cardoso
17 de junho de 2007

Tradutora da série Harry Potter, Lia Wyler nasceu em Ourinhos (SP), veio para o Rio aos 5 anos e já morou em Porto Alegre, Manaus e Lisboa. Doutora em tradução pela USP, acumula 38 anos de experiência. Começou com textos técnicos e verbetes para enciclopédias até verter para o português obras de Gore Vidal, Tom Wolfe, Henry Miller e Muriel Spark. É casada, tem duas filhas, três netas fãs do bruxinho e trabalha como professora na PUC.

Antes mesmo de o lançamento do último livro da série Harry Potter ser lançado, em 21 de julho, os fãs já estão de luto. A ligação íntima com o bruxinho criado pela britânica J.K.Rowling também vai deixar saudade na tradutora Lia Wyler, responsável pela versão em português dos livros. Lia encontrou soluções mágicas para tornar compreensível o incrível universo criado por J.K. Por causa dela, os jovens brasileiros chamam os reles mortais do mundo bruxo pelo sugestivo substantivo “trouxa”, solução encontrada para o termo “muggle”. A edição em português de Harry Potter e as Relíquias da Morte deve ser lançada em novembro. Até lá, Lia, de 73 anos, passará cerca de 10 horas por dia em seu computador para poder entregar a obra no prazo, sempre escasso para o tradutor e interminável para os fãs. Os nove anos dedicados à saga, publicada pela editora Rocco, valorizaram seu passe. “Não sei até que ponto essa valorização financeira foi benéfica ou me excluiu do mercado”. A tradutora credita o sucesso da série à criatividade da autora, mas reconhece que J.K. se tornou prolixa com o passar dos anos. “A partir do terceiro livro, há detalhes que provavelmente visam a informar a produção dos filmes”. (Monique Cardoso)

 

O que mais mudou em sua vida, pessoal e profissional, depois que começou a traduzir a série Harry Potter?
No primeiro momento não houve impacto: para mim era apenas um livro para crianças de 9 a 12 anos que estava fazendo sucesso no Reino Unido. A mágica do fenômeno foi, ao longo desses 10 anos, ter tornado a tradução visível ao grande público e a ter colocado em discussão nas faculdades e na imprensa de todo o país. Também ampliou desmesuradamente minha exposição na mídia, fato inédito no caso de um tradutor de best-sellers.

Vai sentir falta do bruxinho?
Considero J.K. Rowling uma extraordinária contadora de histórias e confesso que o bruxinho me cativou desde o primeiro momento, por sua verossimilhança. A espontaneidade de seus pensamentos, palavras e ações. É possível identificarmos aí uma criança, um aborrecente e um jovem adulto em busca de afirmação. Guardarei com saudade os anos em que convivi com o personagem, mas não acho que continuar a série com um bruxo adulto seria tão interessante.

Como é a Lia Wyler leitora da série? Fica ansiosa com as tramas deixadas em aberto?
Sou uma leitora tranqüila que lê cada volume sem saltar nenhuma página para chegar ao desfecho. O público, em geral, não faz idéia de que traduzir é uma profissão com prazeres e desprazeres. Sentar-se ao computador diariamente e ter a obrigação de produzir x laudas de tradução é um fardo que aprendemos a aliviar degustando cada lance. A ansiedade que existe, e é realmente aguda, é uma decorrência dos prazos excessivamente curtos para uma tradução trabalhosa.

Como vê a expectativa dos fãs antes de cada lançamento?
Com espanto, embora entenda que o marketing montado em torno dos livros e dos filmes ajude a alimentar a popularidade da série. Acho mais difícil explicar a hiper-identificação com os personagens, que não são heróis de carne e osso, mas personagens ficcionais, cujos feitos não podem ser igualados.

Qual seu personagem favorito?
Além do Harry, gosto dos gêmeos Weasley pela criatividade de suas travessuras. Na vida real admiro a imaginação dos jovens, suas tentativas de mudar o status quo, sua capacidade de rir dos próprios erros e de reconhecer os acertos dos outros. E principalmente a capacidade de se indignar e se enternecer.

Que recursos literários J.K. Rowling emprega para manter a curiosidade dos fãs?
O principal mérito de Rowling é sua técnica folhetinesca, solucionando os pequenos obstáculos encontrados pelo herói, mas guardando a sete chaves o desfecho. O leitor vai se entretendo com os jogos de situações, os jogos de palavras e o fino humor britânico.

Os primeiros livros tinham um tom mais infantil. Isso interferiu em seu trabalho? Algumas escolhas de tradução do passado não se encaixam mais?
Meu trabalho é justamente procurar manter o tom do autor, mas sem dúvida essa mudança interferiu nas escolhas já feitas. Essa é a maior dificuldade na tradução de uma série em que o profissional desconhece a linha mestra e os possíveis desvios que a autora irá tomar. O tradutor de Harry Potter trabalha na mais negra escuridão. Não existe uma tradução única, mas tantas quantas forem os tradutores ou as oportunidades para alterar o texto impresso.

Seu currículo traz trabalhos importantes, como tradução de títulos de Tom Wolfe e Henry Miller. Como avalia o estilo de J.K.Rowling? Não acha que ela se tornou prolixa à medida que aumentava a complexidade da trama?
Acho a comparação injusta. Henry Miller é um escritor de literatura culta e Tom Wolfe possui grande cultura artística e jornalística. O gênero folhetinesco é sempre mais pobre e apoiado em imagens e referências já conhecidas do público. O conteúdo da série Harry Potter diverte e emociona, mas, de fato, a partir do terceiro livro é sensível à inclusão de muitos detalhes que provavelmente visam a informar a produção dos filmes.

Como recebe críticas e comparações entre a versão brasileira e a inglesa dos livros?
É uma experiência nova para mim. Considero válidas as críticas feitas pelos meus pares, que conhecem as premissas do nosso trabalho. Não considero válidas aquelas feitas por pessoas que, conhecendo algum inglês, se arrogam autoridade. A tradução de nomes feita para crianças, respeitando regras mundiais para o gênero, marca o livro como infantil, e provavelmente provoca sentimentos conflitantes naqueles fãs que gostariam de se afirmar como adultos. Mas todos têm o direito de ventilar suas opiniões.

Conhece outra tradução de Harry Potter para conferir soluções encontradas diante do vocabulário e dos neologismos de J.K.?
Leio e entendo espanhol, francês e italiano. Pertenço a uma lista de tradutores da série Harry Potter e, por vezes, discutimos algumas dificuldades. Os neologismos que uso foram aprovados por J.K. Rowling no início da tradução da série.

J.K. Rowling veio a público pedir aos fãs que não leiam versões do último livro na internet. Já fez modificações em seu trabalho por causa dessas traduções?
Não, essas versões não têm a menor influência no meu trabalho porque não as leio. Acho, no entanto, que os direitos de J.K.Rowling deveriam ser respeitados por aqueles que se dizem seus fãs.

Seu método de trabalho em Harry Potter é o mesmo empregado em outros títulos?
O método é o de sempre: leio o livro à medida que o traduzo. Chego a trabalhar 12 horas por dia e prefiro um ambiente calmo, em que só ouça o som do teclado e o de uma música de fundo, clássica ou popular. Minha seleção vai do chorinho e jazz aos clássicos barrocos e românticos. Pagode e marchinha não, porque me dão vontade de dançar (risos).

É verdade que trabalha em um computador sem internet?
Sim, para evitar uma invasão de vírus que destrua o trabalho que ainda será revisto. Os prazos não permitem refazer o que porventura for perdido, daí a necessidade de tomar precauções.

Que outras atividades desenvolve?
Continuo a dar aulas no Curso de Especialização em Tradução da PUC, mas gosto mais das oficinas de Fluência em Tradução que organizo periodicamente.

O que faz para suportar a pressão para que o livro saia logo?
Procuro me desligar nas poucas horas que tenho para descansar. Vejo um filme, converso com amigos, nada muito original.

Recebe direitos pela tradução de Harry Potter?
O sistema de direitos autorais para tradutores no Brasil não funciona. Ocasionalmente, um tradutor entra na Justiça, é indenizado. Mas é boicotado pelas demais editoras.

Paga-se mais pela tradução de um best-seller como este? Traduzir Harry Potter valorizou financeiramente seu trabalho?
O valor é combinado sem bola de cristal. Não há como saber se o livro será ou não um sucesso. O preço, portanto, é o mesmo de qualquer outra tradução. Ainda não sei até que ponto essa valorização financeira, que realmente houve, foi benéfica ou se simplesmente me excluiu do mercado editorial. Estou pensando seriamente em traduzir textos técnicos, normalmente mais bem pagos do que os de ficção.

Como é seu dia-a-dia quando não está trabalhando?
Acordo cedo, pratico Lian Gong e agora devo incluir caminhadas nas minhas atividades físicas. Moro na Gávea e nas horas livres gosto de conviver com a família e os amigos e, mais raramente, passear em shoppings para ver as novidades. Ouço música o dia inteiro, gosto de livros de ficção, filmes e seriados da TV a cabo, para adormecer ouvindo diálogos em inglês.

Qual sua melhor tradução?
A fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe, porque representou um enorme desafio em termos de forma e conteúdo. Tom Wolfe demonstra sempre uma cultura excepcional nos mais variados campos do saber, o que obriga o tradutor a pesquisar e a refletir. Mas se hoje relesse a minha tradução certamente faria inúmeras correções.