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Zeca Camargo comenta a peça Equus

Então você quer saber como é o Harry Potter sem roupa? É assim que Zeca Camargo, renomado jornalista da Rede Globo, inicia, em seu blog, o relato de sua experiência na exibição da peça Equus, em Londres. Além disso, comparações são feitas entre o trabalho de Radcliffe e experiências passadas do próprio jornalista. Leia um trecho abaixo.

 ator em questão, Daniel Radcliffe. E a peça com a missão de salvar sua carreira é Equus – um clássico dos anos 70, numa remontagem no West End londrino, que eu tive a oportunidade de ver na semana passada. Isso implica, obviamente, em ter visto Harry Potter/Daniel Radcliffe nu por cerca de 20 minutos (talvez um pouco mais) no placo. Porém, se é só para saciar essa curiosidade que você está lendo este texto, paciência. Vamos primeiro falar da peça.O restante do relato, como de costume, pode ser lido aqui.

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Valeu, Roberta.

Então você quer saber como é o Harry Potter sem roupa?

Imagine que você é conhecido mundialmente por interpretar, no cinema, o personagem de ficção mais popular do seu tempo. E que esse personagem é um pré-adolescente cujo maior atrativo é o poder da magia – não a magia da imaginação, da inocência ou da pureza ainda intocada pelo mundo dos adultos, mas uma magia daquelas de varinha encantada mesmo, com direito a vassouras voadoras e chapéus enfeitiçados. Quando esse personagem estreou no cinema, em 2001, você tinha apenas 12 anos. Já é 2007 e, como a série de filmes que você estrela é um dos franchisings mais lucrativos do cinema mundial, sua perspectiva de carreira, depois de já ter protagonizado quatro títulos na pele desse personagem, é continuar a fazer a mesma coisa pelo menos por mais dois anos. O que você faria para romper com a imagem que pode amaldiçoar sua carreira de ator (mesmo que ela tenha sido imensamente lucrativa)? Fácil: uma peça adulta onde você aparece pelado!

O tal personagem – como você provavelmente já deduziu – é Harry Potter. O ator em questão, Daniel Radcliffe. E a peça com a missão de salvar sua carreira é Equus – um clássico dos anos 70, numa remontagem no West End londrino, que eu tive a oportunidade de ver na semana passada. Isso implica, obviamente, em ter visto Harry Potter/Daniel Radcliffe nu por cerca de 20 minutos (talvez um pouco mais) no placo. Porém, se é só para saciar essa curiosidade que você está lendo este texto, paciência. Vamos primeiro falar da peça.

Equus foi um tremendo sucesso do século passado – mais precisamente, dos anos 70. Estreou em Londres, em 1973 e logo foi para a Broadway nova-iorquina, ganhando todos os prêmios da temporada. Virou filme, estrelado por Richard Burton, e teve até uma montagem brasileira, com Paulo Autran e Ewerton de Castro – ambos dirigidos por Celso Nunes, em 1976. É, a princípio, um típico produto da década: um drama psicológico, sobre um garoto de 17 anos, que tem uma obsessão por cavalos – e que inexplicavelmente, numa noite de fúria, cega seis garanhões na estrebaria onde trabalha. Equus catapultou para a fama seu autor, Peter Shaffer – que ainda assinaria um outro sucesso internacional, já nos anos 80: Amadeus, sobre o arqui-rival de Mozart, Antonio Salieri.

Por que chamar a peça, agora remontada, de um típico produto da década? Logo no monólogo inicial, o psiquiatra que vai cuidar do jovem perturbado engata numa longa reflexão aparentemente abstrata – e você logo pensa: blá blá blá de divã… E tem mesmo muitos trechos assim na encenação – a ponto de eu, em vários momentos, quase desistir de acompanhar o que está acontecendo. Mas, aos poucos, a trama vai ficando clara, e quando você percebe, já está totalmente envolvido pela ação que se desenrola no palco. E Radcliffe ainda nem tirou a roupa…

O que Equus pretende colocar é uma interessante provocação sobre desejo e paixão. Traumas infantis, mitologia grega, dúvidas morais, dialeto psiquiatrês – tudo isso vai aparecendo no texto como distrações impertinentes. Mas quando se ultrapassa esses obstáculos, o que fica é uma bela história sobre o que realmente nos move – o que nos faz distintos uns dos outros e o perigo de se subtrair de alguém justamente as paixões que nos tornam únicos.

Martin Dysart, o psiquiatra interpretado por Richard Griffiths nessa versão que eu assisti, pergunta-se, numa das cenas mais comoventes, se vale a pena concluir o seu trabalho. Ele sabe que tem o poder de curar (talvez reformar seja um verbo mais apropriado) o garoto – mas hesita heroicamente, sem saber se é isso que vai fazer dele alguém normal. Isso porque a normalidade aparente dele, do próprio Dr. Dysart, lhe parece vazia: entre um casamento de décadas (no qual ele admite que sequer deu um beijo em sua mulher nos últimos seis anos) e uma punheta diante da cabeça suada de um cavalo-deus, ele se vê fortemente tentado a achar que a segunda opção faz mais sentido.

Mesmo inseguro, o psiquiatra segue com o tratamento – que culmina então na caótica cena que obriga o ator que interpreta Alan Strang – o inquieto personagem – a tirar toda a roupa. No caso, claro, Daniel Radcliffe. Ou Harry Potter – se você preferir.

À cena, então – mas não sem antes um esclarecimento. Eu mesmo já experimentei a sensação de entrar nu em um palco. Em 1994, dirigido por Bia Lessa, na peça Futebol (de Alberto Renault), eu vivi minha primeira (e única) incursão profissional no teatro. Fazia o papel de um padre, que dominava todo o conhecimento numa ilha distante que ainda não conhecia o jogo que é nossa paixão nacional até que um inglês chegava com uma bola e um punhado de regras engraçadas. Resumindo bem uma história que é bem mais sofisticada, o padre se incomoda horrores com essa turbulência na ordem da ilha – e, de repente, numa cena em que está se preparando para uma missa, entra sem roupa em cena e se veste para a cerimônia na frente do público.

Se você passou pelo teatro do Sesi, em São Paulo, nessa época, talvez tenha visto essa minha… interpretação (as aspas estão aí para deixar claro que eu não poderia me colocar no mesmo patamar de um elenco que tinha Maria Luiza Mendonça, Geórgia Gomide e Carlos Moreno – mas vamos falar sobre isso numa outra oportunidade). O que significava, para mim, estar nu diante de uma platéia? Difícil de explicar. A princípio era uma coisa inconseqüente – me lembro que ficava, não incomodado, mas intrigado com os risos nervosos que de vez em quando apareciam. Será que essas pessoas não estão prestando atenção na cena?, eu me perguntava. Será que o frisson de ver alguém sem roupa (especialmente alguém que já era conhecido de um outro referencial – uma vez que eu já tinha trabalhado na MTV) ainda era tão provocante assim, em pleno 1994? A resposta: sim. E treze anos não mudaram muita coisa.

Ainda antes de saltar para a nudez de Potter/Radcliffe, porém, não posso deixar de associar a lembrança desses faniquitos que o público tinha diante da minha imagem sem roupas em cena ao curioso interesse que um vídeo onde apareço fazendo uma dança oriental – gravado há anos, e recentemente descoberto pelos internautas – vem provocando. Você não vai ter dificuldade de encontrá-lo, tenho certeza – desde que a garota que me convidou para gravar a performance o disponibilizou para o inescapável universo da web. Não chamo esse interesse de curioso à toa. Fico verdadeiramente lisonjeado com a atenção que essas imagens despertam – certamente não é nada que pudesse me envergonhar… Pelo contrário. Não é segredo que fui dançarino e professor de dança durante anos, durante a década de 80 e comecinho dos anos 90. Trabalhei sempre com um verdadeiro mestre chamado Ivaldo Bertazzo – cujo trabalho ainda quero ter a chance de comentar aqui no blog. Percebo que o tal vídeo, inspirado, como disse, em danças orientais (inclusive do ventre – que, ao que parece, é o que está provocando tanta turbulência), tem causando esse curioso interesse, pelas menções em vários sites (inclusive de humor) e em comentários que recebo aqui – e que não são publicados ou por não terem a ver com o assunto do post a que ele deveria se referir (ou de qualquer outro post deste blog – você não tem idéia como as pessoas viajam…) ou porque são de um conteúdo extremamente ofensivo (geralmente contra mim, mas também contra toda a categoria de artistas, bailarinos, atores – quando não jornalistas…). E que são, claro, anônimos… (ah, o confinamento de não poder se expressar abertamente… deve doer…).

Faço a associação entre o vídeo, minha cena em Futebol e Daniel Radcliffe pelado por uma razão muito simples: estão entre as coisas difíceis de a opinião pública lidar. Não pretendo aqui comparar o nível da minha projeção profissional com a de alguém que é raramente citado pelo seu nome próprio – e, quando o é, vem sempre com o aposto de seu personagem, Harry Potter. Mas acho fascinante ver como a caretice e a repressão ainda governam nossa curiosidade…

O título deste post era, certamente, uma isca. Se você me acompanhou por tantos parágrafos (e, até o final desses parênteses, por mais de 1.384 palavras e doze parágrafos), é porque talvez queira mesmo saber como é o Harry Potter sem roupa… Será que, só por isso, eu tenho o direito de chamar você de pervertido ou pervertida? Veja que reflexão interessante: o que trouxe você até aqui? O comichão do voyeur? Seu entusiasmo (ou talvez fanatismo) por um personagem da literatura jovem? Uma genuína paixão pelo teatro? Uma inércia ocular-cerebral? Ou a construção do próprio texto?

O caminho realmente não importa. A essa altura, você merece saber que a nudez de Radcliffe incomoda bem menos do que um fã médio de Harry Potter (como eu) pode supor. De cara, mesmo com o ator ainda vestido, o que estava me distraindo mais era a perturbadora semelhança entre ele e um primo-irmão meu – que vejo, infelizmente com pouca regularidade. Com a nudez, então, esse ruído ficou ainda mais sensível – e tive de me concentrar para não pensar nisso. O que estava diante de mim era Radcliffe/Potter fumando, soltando palavrões pesadíssimos e se despindo. E daí?

Se seu interesse é apenas anatômico, vou ficar devendo na descrição. De estatura (ainda) baixa com traços ainda indefinidos, Radcliffe, do alto de seus 17 anos, tem a graça dos contornos que a adolescência lhe presenteia (e sobre a qual já falei aqui no post de 11/01/07). Da platéia, em sua maioria inglesa, não arrancou suspiros. E deveria? Era a genitália do ator que estava ali sendo avaliada – apreciada? Ou sua capacidade de interpretar um personagem extremamente complexo?

Não vivo num mosteiro – e sei das tentações que a mídia de celebridades lança diariamente no nosso dia-a-dia. Não vou aqui disfarçar inocência e ignorar a genuína curiosidade daqueles que reforçam seu cotidiano muitas vezes sem-graça com uma dieta de fotos. Um beijo roubado, uma calcinha ausente, um choro indiscreto, um púbis quase exposto (como nas imagens de divulgação da peça, que você pode até encontrar no site www.equustheplay.com) – ou mesmo um vídeo de dança oriental…

Fico imaginando um evento semelhante no cenário barsileiro: por exemplo, se Cauã Reymond interpretasse o adolescente de Equus? Ou Bruno Gagliasso? Ou, para ficar mais próximo da faixa etária do personagem, Kayky Brito? Já imaginou o barulho que ia fazer? Agora imagine quantas pessoas iriam ao teatro para conferir se esse ator estaria mesmo fazendo um bom trabalho de interpretação… Ah, as armadilhas da fama…

Daniel Radcliffe foi corajoso ao escolher essa peça para dar uma guinada em sua imagem. Os aplausos, ao final da performance, eram vigorosos e – já descontada a tietagem – genuínos. Talvez quem tenha pago até 50 libras esterlinas (preço de bilheteria – cerca de R$ 200,00) para ver um pingolim famoso tenha saído decepcionado. Mas quem achou que ia ver um bom espetáculo deixou o teatro com a sensação de que pagou barato…