As Relíquias da Morte

Lia Wyler fala sobre lançamento em português

Em uma entrevista ao G1, Lia Wyler, tradutora da série de livros de Harry Potter, fala sobre o lançamento do último volume da série, Harry Potter and the Deathly Hallows, da dificuldade do processo de tradução dos livros, e da pressão de cada leitor pela nova obra.

Fonte: G1.

[b]Harry Potter em português deve sair antes do Natal, diz tradutora[/b]
Em entrevista ao G1, Lia Wyler diz que lançamento em inglês gera “enorme pressão”. Ela afirma que faz o melhor que pode dentro das limitações de prazo.

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Ainda no fim da década de 90, quando o mundo começava a ler as aventuras do bruxinho Harry Potter, criado pela escritora inglesa J. K. Rowling – e que já venderam, entre os seis primeiros volumes, mais de 325 milhões de cópias em todo o mundo, em 64 idiomas diferentes -, um leitor brasileiro “muito desaforado” mandou uma carta para Lia Wyler, tradutora do livro (e que viria a se tornar tradutora de toda a série) no Brasil.

Ele tinha calculado que Lia poderia traduzir e revisar 96 páginas por semana, 348, em quatro semanas, e que a editora levaria mais 14 dias para lotar as prateleiras brasileiras com a versão em português das aventuras que ele estava ansioso para ler. Causou gargalhadas em Lia e seus colegas tradutores.

O processo não é tão ágil quanto o leitor pensava, mas é, sim, apressado. “Harry Potter and the deathly hallows”, sétimo e último volume sobre o aprendiz de feiticeiro, com título provisório de “Harry Potter e as insígnias mortais”, só chega às mãos de Lia Wyler depois de 21 de julho, quando será lançado oficialmente na Inglaterra, e, em seguida, em todo o mundo, em inglês.

Certamente, será lido no original pelos mais ansiosos, que já engrossam as filas virtuais de pré-compra. Isso “provocará enorme pressão para traduzi-lo em tempo de entregá-lo antes do Natal”, adianta Lia, que resume, assim, sua rotina quando está diante das histórias de Potter: “Como, durmo e vejo o jornal na TV. Todo o resto do tempo é dedicado à tradução”. A seguir, você confere a entrevista que ela concedeu ao G1 por e-mail.

[b]G1 – Você está ansiosa para pôr as mãos em “Harry Potter and the deathly hallows”? Quando vai começar o trabalho?[/b]
Lia Wyler – A ansiedade é provocada justamente porque o livro será lançado e lido em inglês antes de chegar às minhas mãos, o que provocará enorme pressão para traduzi-lo em tempo de entregá-lo antes do Natal aos leitores brasileiros que compram Harry Potter em português.

[b]G1 – A pressão e a ansiedade dos leitores afetam você, afetam seu trabalho? Lembra de alguma história curiosa?[/b]
Lia Wyler − Afeta a todos que participam do processo de aquisição, tradução, preparação de originais, revisão, impressão. Nesses nove anos é claro que houve muitos casos curiosos, divertidos, comoventes, aplausos e vaias, mas acho que isto é normal quando uma pessoa ou fato se torna público. Recebi logo no início a carta de um leitor aborrecido, e muito desaforado, com a demora do lançamento. Depois de um complicado cálculo ele concluía que a tradutora poderia traduzir e revisar 96 páginas por semana, 348 em 4 semanas, e com mais duas semanas a editora poderia perfeitamente colocar o livro nas livrarias. A carta provocou muitas gargalhadas na comunidade dos tradutores e até sugestões igualmente divertidas de respostas.

[b]G1 – À medida em que você foi traduzindo as histórias do bruxo, ficou mais fácil o trabalho ou cada livro é um livro? [/b]
Lia − Na minha experiência o conteúdo de um livro para outro muda, mas a forma de escrevê-lo é a impressão digital do autor; em seis livros o leitor, e mais ainda o tradutor, já sabe como as linhas dessa impressão irão se apresentar.

[b]G1 – Saber, antecipadamente, que o livro vai ser lido por milhares de pessoas te assusta? Você já perdeu o sono durante o processo de tradução?[/b]
Lia Wyler − Não assusta, muito ao contrário, estimula o profissional a dar o melhor de si, dentro das limitações de prazo que lhe são impostas pela ansiedade do público. A produção de um livro é um trabalho de equipe e, quanto maior o número de pessoas que participa desse processo, maior é a possibilidade de erros, porque o erro é inerente à natureza humana. Nem mesmo o original de uma obra chega perfeito; é comum a editora que compra o original receber páginas e mais páginas de correções durante todo o processo de produção. O que importa é saber que fiz todo o possível e o impossível para não jogar problemas nas costas dos outros. Quanto a perder o sono é coisa que acontece com todo tradutor que vai dormir com um problema não resolvido. Acontece muitas vezes de eu acordar com a solução na cabeça ou ouvi-la da boca de alguém que passa por mim na rua, no shopping, na condução.

[b]G1 – Como você avalia seu papel dentro deste mundo de culto ao Harry Potter?[/b]
Lia Wyler − É difícil avaliar uma situação que ainda não terminamos de vivenciar. Acho que só depois do último livro poderei computar as boas e más lembranças deixadas por esses nove anos de trabalho com uma série que começou obscura e se transformou em fenômeno mundial − não apenas um fenômeno de vendagem, mas de retorno à leitura de livros que tinha sido abandonada pelos jovens em favor dos entretenimentos audiovisuais.